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Nota rotina
Política em home office
Vereadores, deputados e senadores do Rio Grande do Norte contam como tem sido o dia a dia no home office forçado pela pandemia do novo coronavírus
Tiago Rebolo
24/07/2020 | 23:04

Desde que começou a trabalhar de casa, no fim de março, a deputada estadual Isolda Dantas (PT) tem uma nova rotina. Antes habituada a dividir o tempo entre Natal, onde fica a Assembleia Legislativa, e Mossoró, seu reduto eleitoral, ela agora tem um novo desafio: conciliar o trabalho parlamentar, que ela considera que aumentou, e as atividades de casa.

“Todas as tarefas domésticas, eu que estou fazendo. As pessoas que me auxiliam estão de quarentena. Então, eu que faço tudo: café, almoço, jantar, cuidar da roupa e cuidar da casa”, conta ela à reportagem do Agora RN direto de sua casa em Mossoró, onde ela passa integralmente o tempo desde que foi para o home office, por causa da pandemia do novo coronavírus.

A rotina dela começa cedo. “Metódica”, como ela própria se define, Isolda levanta nas primeiras horas do dia para dar início às atividades. A primeira tarefa é realizar exercícios vocais para aguentar a maratona de reuniões que está por vir. Depois, ela prepara a mesa do café da manhã e apronta o filho para assistir aula remota. Em seguida, já começa a organizar o almoço.

De terça a quinta, entre 9h30 e 10h da manhã, ela liga o computador e se conecta com os outros 23 deputados estaduais do Rio Grande do Norte. É hora da sessão plenária da Assembleia Legislativa. Desde o fim de março, todo o trabalho legislativo acontece assim: de forma remota. Os parlamentares, todos de casa, participam dos debates e votam projetos de forma virtual. A previsão é que o trabalho continue desta maneira pelo menos até o fim da semana que vem.

Quando acaba a sessão, Isolda finaliza o almoço. Às 15h, volta ao trabalho. Todos os dias ela tem reunião à tarde, seja de comissões da Assembleia ou de outras atividades ligadas ao mandato. Às 18h, é sagrado: atividade física. Depois, mais trabalho, agora promovendo ou participando de transmissões ao vivo pela internet sobre os mais diversos assuntos.

“Tem aumentado muito o trabalho. Tem dias que eu fico 10 horas na frente do computador. É muito trabalho. Nosso trabalho triplicou. A ação da política se intensificou pela necessidade do momento”, relata a deputada.

Assim como Isolda, todos os demais parlamentares potiguares tiveram de modificar a rotina para se adequar ao “novo normal” provocado pela pandemia da Covid-19. Com a recomendação das autoridades sanitárias para que contatos pessoais sejam evitados, vereadores, deputados e senadores tiveram de trocar os encontros presenciais pelas “lives”, seja para votar projetos ou para interagir com eleitores e prestar contas do trabalho. Cada um em sua casa, todos passaram a adotar o ambiente virtual como a plataforma para discutir os temas mais importantes da sociedade.

O senador Styvenson Valentim (Podemos) divide os trabalhos domésticos com a mulher. Em casa quase o tempo todo agora, ele diz que cuida até das refeições. Mas também realiza outros afazeres, como limpar os cômodos da casa. Ele tem registrado tudo em um diário eletrônico – e alguns vídeos ele posta nas redes sociais.

O parlamentar revela que tem sido angustiante ter de ficar o tempo todo em casa. “Eu me sinto em prisão domiciliar. Por mais que a gente tenha alguma liberdade para andar, não é como a liberdade que a gente tinha antes”, resume.

Mas Styvenson não reclama: “Difícil mesmo é assistir pessoas morrendo e ver os hospitais com dificuldade”.

Na avaliação do senador, trabalhar de casa tem pontos positivos e negativos. Ele diz que é bom estar perto da família neste momento crítico e comemora a economia de recursos públicos gerada pela redução das atividades no Senado, mas fala que sente falta do contato com outros parlamentares durante as sessões plenárias e reuniões de comissões.

“Estar lá pessoalmente é mais fácil. É mais fácil tirar dúvida de um projeto e resolver algum problema”, exemplifica. Ele registra que sente falta especialmente das comissões temáticas, onde os projetos são debatidos mais a fundo. No Senado, ele participa de 5 como titular. Muitas delas tiveram atividades suspensas ou estão emitindo pareceres orais sobre os projetos. “Tem certos assuntos que merecem ser mais esmiuçados”, explica.

Acostumado a trabalhar na rua, principalmente por causa de sua atuação como coordenador da Operação Lei Seca no Rio Grande do Norte quando estava na ativa da Polícia Militar, Styvenson diz que levará uma lição dessa pandemia. “Será importante para a gente dar valor a coisas que, antes, considerávamos besteira, como dar uma simples volta”, afirma.

O deputado federal Benes Leocádio (Republicanos) conta que, durante o home office, tem utilizado a mesa de estudos do filho ou a mesa da sala de casa para participar das atividades da Câmara. O sistema de trabalho foi combinado com os familiares.

“Durante o período que estou ao vivo nas sessões, minha família se preocupa em não causar barulho ou alguma interferência que atrapalhe a qualidade dos meus vídeos”, conta ele.

Por causa do novo normal, o parlamentar diz que passou por treinamentos no partido. Desde então, todo o trabalho, inclusive de articulação política, tem acontecido nas plataformas digitais. “Sinto falta dos debates e articulações presenciais e o contato maior com as assessorias, que têm atuado à distância neste momento”, afirma.

A também deputada Natália Bonavides (PT) conta que sua rotina mudou drasticamente após a pandemia. Ela lamenta não ter como realizar as atividades parlamentares de forma presencial, mas diz que tem se adaptado. “A maior parte do trabalho agora é na frente do computador, em casa. Estamos tentando dar um jeito, nos reinventar, para não deixar de debater os temas importantes do nosso país junto à população”, registra.

A parlamentar afirma que tem a sensação de estar trabalhando mais durante esta pandemia, justamente por não haver mais limites entre a sua vida pessoal e a atuação como deputada. “Passar tanto tempo no computador traz um impacto para nossa vida. Trabalhando fora de casa, a gente tem um horário para jantar, para dormir. Quando chegamos em casa, é o momento de desacelerar. Trabalhando em casa, isso fica mais difícil”, afirma.

Mesmo sendo a deputada mais jovem do Rio Grande do Norte – e, portanto, familiarizada com o universo digital –, Natália Bonavides vê pontos negativos no esquema de trabalho virtual.

“Quando me dou conta, já é muito tarde. Muitas vezes nem tenho uma regularidade de comer. Toda hora tem alguma atividade, alguma live. A gente acaba terminando o dia muito tarde. Está sendo um trabalho intenso diante da impossibilidade de estar pessoalmente no Congresso”, conta.

No Senado, Zenaide Maia (Pros) também diz que sente falta das reuniões presenciais. “Tudo tem caminhado dentro das possibilidades possíveis, mas sempre mantendo o distanciamento social. Sinto sim muita falta da presença das pessoas, porque torna o diálogo muito mais eficiente, sem falar no calor humano. Procuro compensar minha ausência física através das lives com os municípios, além das reuniões virtuais com os assessores”, afirma.

Parlamentares fazem adaptações em casa

Para o vereador de Natal Raniere Barbosa (Avante), trabalhar de casa não foi nenhuma novidade. “Sempre trabalhei muito em casa, mesmo estando diariamente na Câmara. Sempre tive escritório na minha residência para conciliar as atividades de casa com a relação familiar. Não houve, portanto, nenhuma diferença”, conta o parlamentar.

Com o escritório, Raniere consegue separar o ambiente de trabalho do ambiente doméstico. Para este momento novo provocado pela pandemia da Covid-19, a única adaptação que ele precisou fazer foi melhorar a iluminação do local e posicionar melhor o equipamento pelo qual ele participa das sessões virtuais.

“Comprei um pedestal com luminária para poder colocar um iPad ou o próprio celular para ter uma boa iluminação”, afirma. Segundo ele, o sistema remoto tem sido positivo e produtivo, embora com diferenças claras. “O sistema eu acho muito válido. Só temos que estar mais atentos”.

Quem também já estava habituado ao mundo das videoconferências era o vereador Robson Carvalho (PDT). Por isso, ele conta que a mudança foi menos traumática. “Eu uso muito as mídias sociais, para dar publicidade à produção legislativa e também para fiscalizar ou receber demandas da população. A população nos traz pleitos da cidade através de WhatsApp, direct do Instagram ou com videoconferências. Estamos usando a tecnologia ao nosso favor”, resume.

Em casa, ele também precisou fazer algumas adaptações. Para trabalhar na mesa de jantar, ele precisou comprar uma haste para posicionar melhor o celular, a fim de garantir um melhor ângulo. “Não é a mesma coisa, mas tem sido muito eficaz. Há uma ansiedade para falar (o tempo e o número de questões de ordem foram reduzidos) e às vezes o regimento acaba sendo desrespeitado, mas nada que venha a ser tão prejudicial”, afirma.

O deputado estadual Sandro Pimentel (PSOL) reservou um cômodo de sua casa em Nossa Senhora da Apresentação, na Zona Norte, para o home office. “É aqui que passo o dia inteiro, tendo que por vezes entrar em boa parte da noite. Essa experiência acaba contribuindo a resolver meus trabalhos domésticos, exatamente por estar mais presente e presenciando cada situação que surge”, relata.

Sandro também considera que o trabalho aumentou durante o isolamento. “O momento de pandemia foi tempo de acelerar a rotina de trabalho e em que pese as dificuldades impostas pelo isolamento social e o teletrabalho”, finaliza.

O vereador Ney Lopes Júnior (PDT) avalia que o melhor do home office é o contato com a família. “Estou ao lado da minha família. Eles me respeitam e eu os respeito no momento de cada um realizar as suas atividades. Acho que o presidente da Casa marcou um gol de placa ao colocar esse sistema virtual. E podemos ampliar esse sistema”, finaliza.

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