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Saúde mental

Pânico não tem causa única, diz médico

Especialista aponta fatores biológicos, sintomas e avanços no tratamento dos transtornos
Por O Correio de Hoje
13/04/2026 | 13:29

A sensação surge de forma repentina: o coração dispara, a respiração acelera e o corpo reage como se estivesse diante de um perigo iminente. Em meio à rotina cada vez mais intensa e repleta de estímulos, episódios de ansiedade têm se tornado mais frequentes — e, em casos mais agudos, evoluem para o transtorno do pânico.

Para o psiquiatra Antonio Egidio Nardi, recém-empossado presidente da Academia Nacional de Medicina (ANM), ainda há muitos equívocos na forma como esses quadros são compreendidos. Um dos principais, segundo ele, é a ideia de que sempre existe uma causa emocional clara para o surgimento do transtorno.

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Psiquiatra Antonio Egidio Nardi, da ANM - Foto: Freepik

“O pânico é uma manifestação aguda de ansiedade, que pode ocorrer mesmo quando a pessoa está em repouso, trabalhando ou dormindo. Não necessariamente há um gatilho evidente”, explica. De acordo com o especialista, o transtorno do pânico pode ser entendido como uma resposta exagerada do organismo, que interpreta sinais internos como ameaças reais. Entre os sintomas mais comuns estão falta de ar, tremores, sudorese, sensação de calor ou frio, dor no peito e a impressão de perda de controle ou de morte iminente.

Embora muitas pessoas associem essas crises a fatores psicológicos, Nardi destaca que o problema envolve também aspectos biológicos. Estudos recentes indicam a participação de processos inflamatórios no cérebro, além de alterações nos neurotransmissores, que ajudam a regular o humor e as respostas ao estresse.

“Hoje sabemos que o pânico está ligado a um conjunto de fatores. Há uma predisposição genética e mecanismos cerebrais envolvidos. Não se trata apenas de uma questão emocional”, afirma. O especialista ressalta que a ausência de uma causa aparente pode dificultar o diagnóstico e aumentar a angústia dos pacientes. Muitas vezes, a pessoa passa a evitar situações ou locais por medo de uma nova crise, o que pode comprometer significativamente sua qualidade de vida.

Em relação ao tratamento, Nardi aponta que houve avanços importantes nas últimas décadas. O uso de medicamentos, aliado à psicoterapia, especialmente a terapia cognitivo-comportamental, tem apresentado bons resultados. Essa abordagem ajuda o paciente a identificar e modificar padrões de pensamento que contribuem para as crises.

Apesar disso, o psiquiatra observa que ainda existe resistência em relação a alguns métodos terapêuticos. Um exemplo é a eletroconvulsoterapia, frequentemente cercada de estigma, mas que pode ser indicada em casos específicos e apresenta alta taxa de eficácia quando bem aplicada.

“O tratamento da depressão grave, por exemplo, pode incluir a eletroconvulsoterapia, que ainda é vista com preconceito, mas é um recurso importante e seguro em determinadas situações”, destaca. Outro ponto enfatizado por Nardi é a importância de hábitos saudáveis no controle da ansiedade. A prática regular de atividade física, técnicas de respiração e o manejo do estresse podem atuar como aliados no tratamento, contribuindo para a estabilidade emocional.

Segundo ele, compreender o funcionamento do próprio corpo também é fundamental. Em muitos casos, sintomas físicos são interpretados de forma equivocada, o que intensifica o ciclo de ansiedade. Aprender a reconhecer essas sensações pode ajudar a reduzir o impacto das crises.

O especialista também alerta para o crescimento dos casos de transtornos mentais em uma sociedade marcada por excesso de informações. “O pânico não tem uma única explicação. É um fenômeno complexo, que envolve diferentes dimensões.”.