Ao menos 70,3 milhões de pessoas enfrentam insegurança alimentar no Brasil, segundo o relatório de 2022 da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) e da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan). O mesmo levantamento aponta que 27 milhões de toneladas de alimentos são desperdiçadas anualmente no País. Com base nesta pauta, o Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB), tentou no último final de semana chamar atenção ocupando supermercados da rede Carrefour em diversos estados do Brasil.
Neste sábado, 9, a unidade na Zona Norte de Natal foi ocupada por integrantes do MLB; a rede chegou a registrar boletim de ocorrência. Em Natal, mais de 400 famílias estiveram na ocupação e o ato foi marcado por casos de retaliação. A campanha faz parte da mobilização “Natal sem fome” organizada há mais de duas décadas pelo movimento e busca evidenciar a falta de comida para as famílias mais pobres durante este período do ano.

Outra pauta defendida foi em relação conflito entre Israel e Palestina. Em uma das imagens divulgadas pelo MLB uma manifestante segura um cartaz com a bandeira da Palestina e a mensagem “Paz para o povo palestino”. Segundo o MLB, a rede além de colaborar com o desperdício de alimentos, contribui enviando alimentos para Israel no conflito.
Segundo Bianca Soares, uma das coordenadoras do MLB no Rio Grande do Norte, a ação consiste em várias ações. A principal delas é o ato em um supermercado que faz a denúncia contra a fome, a carestia, a miséria. Além disso, o movimento realiza campanha de arrecadação de porta a porta, campanha de Pix e ponto de recolhimento de alimentos para garantir que as famílias tenham uma ceia de natal.
“Enquanto os números de segurança alimentar e de miséria no nosso país aumentam, o número de alimentos, as toneladas de alimentos que as grandes redes de supermercados jogam fora também cresce. Então esse é o principal objetivo do Natal Sem Fome, fazer essa denúncia e garantir que as nossas famílias tenham o que comer no Natal”, explicou Bianca.
“Essa época de natal é tão especial que está em toda a mídia, é uma época de fartura, abundância, prosperidade, de ter muito que comer. A mesa do povo na periferia está vazia, não é farta desse jeito. E aí a gente também usa desse momento para escancarar essa hipocrisia, enquanto uns têm tantos, outros tão pouco ou nada. Então o Natal Sem Fome é esse processo de denúncia”, disse.
OCUPAÇÃO EM NATAL. Na capital potiguar, no último sábado, 9, mais de 400 famílias estiveram em uma ocupação, por mais de 9 horas, do supermercado da rede Carrefour na unidade da Zona Norte de Natal. Alguns integrantes do movimento participavam da ação disseram ter sido agredidos e um dos ônibus fretados para levar os manifestantes até o local foi incendiado.
“Entramos de forma pacífica e nos mantemos de forma pacífica, quando um ex-policial foi até o supermercado, provocar as famílias, ameaçar, inclusive agredindo várias das nossas companheiras e crianças e muitos seguem com essas ameaças. Inclusive fazendo a campanha, ele queimou o ônibus de um trabalhador que tinha como sua única ferramenta de trabalho.” denunciou a coordenadora.
A campanha “Natal Sem Fome” conquistou 6 mil cestas básicas em todo o Brasil, só no Rio Grande do Norte foram 350 cestas adquiridas. Na capital potiguar, o MLB possui três ocupações urbanas: Emmanuel Bezerra, na Ribeira; Valdete Guerra, no Planalto, e Palmares, nas Rocas.
Carrefour registra Boletim de Ocorrência
O Grupo Carrefour registrou um Boletim de Ocorrência na Polícia Civil do Rio Grande do Norte após a ocupação do movimento popular em uma das unidades de Natal. A Associação dos Supermercados do Rio Grande do Norte (Assurn) e a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado do Rio Grande do Norte (Fecomércio RN) repudiaram a ocupação, solicitando maior segurança para o comércio.
Em nota, a empresa afirmou que sempre mantém diálogo aberto com o movimento, enfatizando seu compromisso na luta contra a fome e a desigualdade. Já o MLB, disse não ter recebido oficialmente nenhuma medida judicial a respeito do ato de sábado.