o rolar o feed nas redes sociais, é provável que você já tenha se deparado com alguém dizendo ter lipedema. Somente a tag #lipedema reúne cerca de 580 mil posts no Instagram e mais de 120 mil no TikTok, sem contar outras variações. Nos vídeos, mulheres mostram as pernas, geralmente chamando atenção para o tamanho ou para a celulite. Mas o conjunto de sintomas que caracteriza a doença é mais complexo do que aquilo que costuma viralizar na tela do celular.
Em meio ao aumento do interesse — e também de desinformação — médicos têm observado um fenômeno preocupante: muitas mulheres estão sendo autodiagnosticadas com lipedema sem necessariamente ter a doença. O tema, que ganhou espaço nas redes, passou a circular entre relatos pessoais e conteúdos educativos.

O lipedema é definido como uma doença crônica caracterizada pelo acúmulo simétrico de tecido adiposo na parte inferior do corpo, principalmente nádegas, quadris e pernas, podendo também envolver os membros superiores, mas poupando tronco, mãos e pés. A condição foi descrita pela primeira vez em 1940 e integra a Classificação Internacional de Doenças (CID), sistema da Organização Mundial da Saúde que reconhece e categoriza doenças. Ainda assim, médicos divergem sobre a caracterização e os critérios de diagnóstico.
Para quem convive com os sintomas, a descoberta costuma ser um processo longo. A jornalista Juliana Manzano, de 38 anos, diz que percebeu diferenças nas pernas ainda na adolescência. “Eu descobri por volta dos 11 anos. Sempre achei que minhas pernas eram diferentes, mas não sabia porquê”, disse, em entrevista a O CORREIO DE HOJE.
Durante anos, ela associou as características do corpo ao sobrepeso. “E como eu sempre tive sobrepeso, sempre achei que fosse por conta disso. E sempre ouvi: ‘isso é porque você é gordinha, quando, se você emagrecer, melhora’”. Mesmo após perder peso, no entanto, a mudança esperada não veio. “Cheguei a emagrecer e nunca percebia essa melhora, notava que minhas pernas eram diferentes”.

Com o tempo, os sinais deixaram de ser apenas uma questão estética. “Aquilo que antes era só estético começou a me trazer outros problemas. Depois da minha segunda gestação, eu comecei a sentir realmente muitas dores”. Segundo ela, o impacto passou a afetar a rotina. “Passou a ser um problema que me atingia funcionalmente. Porque conviver com dor 24 horas não é fácil”, frisou.
A busca por respostas incluiu consultas médicas e hipóteses variadas. “Muitos relatavam a questão do peso, da falta de treino, do sedentarismo. Mas eu não via melhora”.
Foi há cerca de três anos que ela encontrou um possível caminho, justamente quando o tema começou a aparecer com mais frequência nas redes. Começou-se a falar sobre lipedema e eu comecei a ver sobre esse assunto e comecei a pesquisar”. Ao comparar sintomas e imagens, ela passou a suspeitar da condição.
O diagnóstico veio depois de procurar profissionais que estudassem o assunto. “É uma doença, realmente, que não tem cura, só tem tratamento”. Segundo ela, o diagnóstico foi confirmado por uma especialista. “Aí foi quando eu descobri uma vascular que era especialista no assunto, e aí foi quando eu tive realmente o diagnóstico”.
Hoje, o tratamento é clínico e envolve acompanhamento de diferentes áreas. “Faço acompanhamento com a vascular, com uma endocrinologista e uma nutricionista. Todas as três são especializadas em lipedema, elas tratam 24 horas e estudam bastante o assunto, então elas têm toda a indicação realmente para esse tratamento”. O trabalho conjunto faz diferença no controle dos sintomas.
Ela acompanha o perfil do Instagram @lipedemanatal, que reúne as especialistas e funciona como um acompanhamento multidisciplinar — com profissionais de áreas diferentes trabalhando em conjunto e divulgando informações verdadeiras e precisas.
Juliana também observa que a popularização do tema nas redes sociais tem dois lados. “Esse ‘boom’ nas redes começou mais ou menos nessa época da minha descoberta. Só que, com o passar do tempo, muita gente vem falando sobre… Falta de treino, falta de dieta, falta disso, falta daquilo, mas não é só isso, realmente é uma doença que precisa de tratamento e que não é simples”, pontuou.
Ainda assim, ela vê valor no debate público sobre o assunto. “Essa conscientização é importante”, acrescentou. Entre estética, saúde e percepção social, o impacto também chega à autoestima. “Afeta, sim. Não uso [short], não tem quem faça, não gosto das minhas pernas, então eu faço o possível para escondê-las”.
Lipedema atinge cerca de 12% das mulheres
O lipedema é uma doença que afeta principalmente mulheres e pode se agravar em momentos de mudanças hormonais ao longo da vida. Segundo a cirurgiã vascular e angiologista Camila Antunes, referência no tratamento de varizes e lipedema, a condição atinge uma parcela significativa da população feminina.
“Lipedema é uma doença predominantemente feminina, atingindo cerca de 12% das mulheres. Ela costuma apresentar piora nos períodos de grande oscilações hormonais, como menarca (primeira menstruação), gestações e menopausa”.
De acordo com a especialista, identificar a doença nas fases iniciais é um fator importante para reduzir impactos na saúde e no cotidiano das pacientes. “O diagnóstico precoce é essencial para melhorar a qualidade de vida da mulher, trazendo menos dor, mais leveza e prevenir complicações posturais, limitações de locomoção e a evolução para estágios mais avançados da doença, como o lipolinfedema”.
O tratamento clínico, segundo a médica, envolve acompanhamento de diferentes profissionais da área da saúde. “O tratamento clínico envolve uma equipe multidisciplinar, composta por um cirurgião vascular, endocrinologista, nutricionista, fisioterapeuta e suporte de profissionais da educação física, psicologia e até mesmo de um cirurgião plástico, nos casos mais avançados”.
Ela também ressalta que a doença não tem cura, mas pode ser controlada.
Evento discute doença e reúne especialistas em Natal
O Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Norte (Cremern) vai realizar, no próximo sábado 7, o evento “Lipedema em Foco”, voltado à discussão sobre diagnóstico e tratamento da doença. Em entrevista à rádio 94 FM, o presidente do Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Norte, médico ginecologista Marcos Jácome, explicou que a iniciativa busca discutir condutas baseadas em ciência e reunir profissionais de diferentes áreas da saúde.
Segundo ele, o lipedema é uma doença caracterizada pelo acúmulo de gordura em partes do corpo, principalmente nos membros. “O lipedema é uma doença que promove o acúmulo de lipídios, de gordura, no corpo, mas principalmente nos membros, nas pernas e nos braços. Fica uma obesidade que deforma, que incomoda, e tem muita incômoda, dor. É uma condição que muito pouco era tratada como doença específica, era uma condição mais relegada”.
O evento pretende reunir especialistas de diferentes áreas para discutir o manejo da doença. “Com a ciência norteando a melhor conduta, a gente vai trazer um grupo de profissionais que lidam com esse sistema, para que possamos discutir durante esse período tudo em respeito a esse tema, padronizando as condutas e normatizando do ponto de vista ético e técnico”. O encontro é voltado para médicos e estudantes de medicina e deve incluir outros profissionais da área da saúde interessados no tema.