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Entrevista

“O Bicho é um estado de espírito”, afirma Ricardo Chaves

Cantor defende o Axé Music e relembra Carnatais passados
Luana Costa
24/09/2022 | 07:00

Com 29 anos de Carnatal, o cantor Ricardo Chaves é uma das atrações mais esperadas para a edição do evento neste ano. O bloco, que recebeu o nome de uma das principais músicas de sua carreira, “O Bicho”, agora sairá na avenida em um dia, o clássico domingo de encerramento.

O cantor baiano, que iniciou sua carreira ainda nos anos 80 em uma banda de rock, mas logo se apaixonou pelo trio elétrico, é hoje o dono de uma das principais vozes do Axé Music.

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Cantor Ricardo Chaves. Foto: Divulgação

Ricardo Chaves deu uma entrevista exclusiva para a revista Cultue e falou sobre a sensação de entrar no Corredor da Folia, o seu amor pelo povo potiguar e a importância de manter a tradição do carnaval de rua.

Confira:

Revista Cultue – Mais uma vez confirmado no Carnatal, quais são as suas expectativas para essa nova edição, que agora conta com 12 horas de festa por dia, além de outras novidades?
Ricardo Chaves – É um evento que, ao longo desses anos, tem sofrido transformações, que teve que se adequar aos sinais dos tempos. Enquanto eu puder colaborar, é o que eu tenho feito, levarei uma estética de festa da origem, vamos dizer assim. Os foliões tem uma história muito bonita com o bloco, com o artista e vice versa.

Cultue – Como está o atual repertório? Podemos esperar os clássicos hits e novidades?
Ricardo Chaves – Sem dúvida nenhuma, os clássicos estarão presentes. São 30 anos do Bicho e o surgimento desse bloco foi inspirado na música que eu compus. Eu não cantei no primeiro ano [do Carnatal], mas a partir do segundo ano, eu assumi e nunca mais desci do trio com o bloco. Eu sempre brinco que nesses eventos, os carnavais fora de época, as tradições são mantidas. As pessoas esperam aquelas músicas e se eu não tocá-las, vai faltar alguma coisa para as pessoas que compraram a festa.

Cultue – Quando você vai entrar no Corredor da Folia, qual é a sua primeira sensação?
Ricardo Chaves – O momento que antecede a chegada no Corredor da Folia é, talvez, um dos mais importantes, porque as pessoas passam o ano inteiro esperando o Carnatal. Um folião apelidou e eu me apropriei disso, o Bicho é um estado de espírito, é uma festa bonita assistir o bloco passando na avenida. Então, antes de entrar no corredor, passa pela minha cabeça cumprir essa missão. Eu sou o condutor de tudo isso, para que aquelas pessoas ali extravasem e sejam felizes. E esse ano não será diferente!

Cultue – O que você acha e como é a sua relação com o público potiguar? E com o Carnatal, por que você sempre faz questão de estar presente?
Ricardo Chaves – É uma relação muito intensa, muito verdadeira, é muito forte! É fruto de muitos anos juntos. São muitas gerações que frequentaram o Bicho e passaram esse legado de pai para filho. Eu costumo dizer que o Bicho é o bloco mais natalense que a gente tem no evento hoje. Porque quando os eventos, como o Carnatal, saíram da rua, eles perderam a relação com a cidade. O folião pipoca não participava mais, a cidade não se envolvia tanto assim com o evento. Passou a ser um evento somente para quem comprava os abadás, a arquibancada, e isso afastou o público sem dúvida nenhuma. No Bicho, eu tento manter até hoje uma relação com essa história. Então, é uma relação que eu tenho o maior prazer, o maior orgulho. Quando eu estou em cima do trio, mistura. Eu tenho muitos amigos em Natal, recebi o título de cidadão natalense. Eu espero que isso perpetue, independente de eu estar participando ou não do Carnatal. Vai chegar o dia, óbvio, e acho que está cada vez mais perto, mas tem uma música que eu escrevi que fala sobre isso. “Sei que um dia tudo isso vai passar, mas a nossa história ninguém vai mudar. É só fechar os olhos e lembrar do que a gente viveu”.

Cultue – Qual a situação mais inusitada e engraçada que você já presenciou no Carnatal em todos esses anos?
Ricardo Chaves – No primeiro ano, por exemplo, eu decidi que iria dar ré no trio elétrico quando chegasse no final do percurso. Foi uma surpresa, ninguém sabia, nem a minha equipe. Eu tinha combinado com o motorista do caminhão e ficou segredo entre nós. Eu disse que se desse tempo, se achasse que fosse viável, eu avisaria. Quando todo mundo achou que o bloco ia acabar, eu voltei de ré. Outro ano, eu resolvi descer do trio sem avisar a ninguém também ainda na época em que estava na rua. Eu subi a Romualdo cantando na pipoca. Saí do bloco, fui para a pipoca e as pessoas não sabiam que eu estava lá. Eu coloquei um abadá do Bicho para me confundirem com um folião, até que me descobriram e eu tive que voltar para cima do trio.

Cultue – Como você vê o cenário musical variado do Carnatal atualmente, com a inclusão de atrações que passam pelo sertanejo, forró, funk eletrônico, assim como o axé?
Ricardo Chaves – É uma atualização do evento. Em cima do trio elétrico, a origem do que se chama Axé Music, a gente sempre misturou tudo, sempre bebeu de todas as fontes. Quando eu comecei nos anos 80, cantava rock, cantava tudo. Então, sempre permitiu. Com as mudanças que ocorreram nos eventos [saída da rua para locais fechados], os formatos passaram a ser mais de festival do que um carnaval. Acho que se abriu um leque e se deu a liberdade para que se misturassem não só as músicas que se faziam na rua, mas também os artistas. Acredito que seja um grande festival de música, tentando ao máximo manter a linha mestre de tudo que é o trio elétrico.

Cultue – Qual é a missão que você considera mais importante neste tempo de carreira?
Ricardo Chaves – Lá se vão 42 anos de carreira e, depois de tanto tempo, a minha missão é cuidar de um legado, eu acho isso fundamental. Depois de vários anos, a gente percebeu que valeu a pena. Não virar as costas para o que a gente construiu ao longo do tempo, por uma imposição de mercado. Pelo contrário, cada vez mais eu me orgulho da história que foi construída, das coisas que eu lancei, das músicas, dos discos. Enquanto eu achar que eu possa colaborar com eventos, como no caso do Carnatal, eu me farei presente. Mas sempre estarei cuidando de um legado. Eu acho que isso é fundamental para que fique na eternidade essa história que eu ajudei a construir, que é a história do Axé Music. A gente não pode negar um passado tão glorioso e um presente tão bacana.

Cultue – Deixe um recado para os fãs que vão acompanhar o bloco “Bicho” no Carnatal deste ano!
Ricardo Chaves – Antes de mais nada, agradecer, e convocar todo mundo. A gente vai ter que concentrar a nossa saudade. Dois dias vão ser transformados em um, vai ser o domingo do Bicho. E mais do que nunca, a gente tem que honrar as tradições de várias gerações que já vestiram esse abadá. Porque quem veste o abadá do Bicho sabe, e tem a obrigação de saber, que não é um pedaço de pano qualquer. Naquele momento que você se torna um folião do Bicho, você tem que cuidar de toda uma história, todo um legado e justificar porque que tanta gente de Natal gosta desse bloco, porque tanta gente espera o Bicho passar na avenida. É isso que a gente tem que fazer por mais uma vez!