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Relatos
“Novo normal”: potiguares falam sobre período de desconfinamento em Portugal
Duas jornalistas contam ao Agora RN como está sendo a volta à rotina da população portuguesa após dois meses de medidas restritivas no país ibérico; elas também comentam sobre as ações tomadas pelo governo de Portugal no combate à Covid-19
Pedro Trindade
08/06/2020 | 05:00

A disciplina durante o período de quarentena permitiu que Portugal iniciasse o processo de desconfinamento e se tornasse exemplo para países que ainda lutam para vencer a pandemia, como o Brasil. Na península ibérica, o Estado de Emergência deu lugar ao Estado de Calamidade desde o dia 2 de maio, mantendo o país em alerta caso o vírus da Covid-19 volte a apresentar graves riscos à população.

Ocupando a 29ª posição mundial em número de pessoas infectadas pelo novo coronavírus, os portugueses voltam gradativamente à rotina. Estudantes do ensino médio já retornaram às salas de aula, mas com diversas medidas de higiene. Lojas de rua, cafés, restaurantes, parques e museus também voltaram a funcionar, todos com capacidade reduzida.

Além dos povo luso, cerca de 150 mil brasileiros que vivem no país europeu, segundo dados do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), enfrentam o desafio de reanimar a economia sem provocar uma nova onda de transmissão da Sars-CoV-2.

Dispostos a vivenciar as incertezas deste “novo normal”, as potiguares Renata e Rafaella comentam como tem sido a retomada da vida em Portugal após o pico da maior crise sanitária do século XXI.

Acostumada com o Sol, a jornalista Renata Costa, 28, escolheu o encontro com o mar como primeiro compromisso pós-isolamento. “Quando o governo anunciou que sairíamos da emergência e entraríamos em estado de calamidade, começando assim o desconfinamento, eu fui à praia. Ainda não era permitido, mas nesse dia não tinha ninguém”, revela.

Morando há dois anos em Portugal, a natalense comenta que sente falta de “conviver com os amigos, beber no Centro e bater perna pela cidade”. Além de redobrar os cuidados com a higiene e ter que entrar em locais fechados usando máscara, a gente não pode mais tocar uns nos outros sem medo. Não podemos trabalhar normalmente. Não podemos mais conviver em grandes grupos. Tudo se tornou muito restrito”.

Apesar das restrições, a jornalista confidencia que “sair de casa é um alívio. Ver os números de infectados e de óbitos caindo também. Andar pelas ruas e ver o comércio reabrindo nos dá esperança. Rever as pessoas que a gente gosta, mesmo que sem beijos e abraços ainda, aquece o coração”.

Trabalhando em um restaurante no município onde vive, em Lagos, Renata pontua que o retorno à atividade profissional “ainda não foi possível, porque dependemos muito do turismo, e as fronteiras não foram completamente reabertas”.

Durante semanas a Europa foi epicentro da Covid-19 e, por isso, a vida de todos os moradores do continente teve que se adaptar a uma nova realidade. “O isolamento foi difícil, porque nós ficamos em casa sem perspectiva de nada. Só saíamos para ir ao supermercado ou jogar o lixo nos coletores. Percebi que a maioria da população do local onde moro adotou o mesmo procedimento e isolamento social. Acho que é por isso que não tivemos muitos casos. Apenas quatro, que não tiveram origem aqui, mas vieram para o nosso hospital”, detalha.

Antes das medidas restritivas serem implantadas em Portugal, Renata esteve de férias em Natal durante 40 dias. Na avaliação dela, “o governo português agiu rápido. As medidas de isolamento foram tomadas com antecedência. Todos os dias acompanhávamos pela TV a divulgação dos dados e medidas preventivas recomendadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS)”.

Jornalista Rafaella Carvalho, 28, foi morar em Portugal há quatro meses. Foto: Cedida

Ainda há tempo de o Brasil seguir bons exemplos, avalia jornalista

Visando melhores condições e qualidade de vida, a jornalista Rafaella Carvalho, 28, foi morar em Portugal há quatro meses. “Apesar de ser apaixonada pelo meu país de origem que infelizmente está de cabeça pra baixo”, diz. Ela que mudou de país para “proporcionar uma vida tranquila para mãe, sem aquela preocupação de ela não conseguir dormir enquanto eu não chegar em casa, por exemplo”, conta.

“Pessoalmente, foi um período difícil. Eu tinha chegado há pouco menos de um mês quando as medidas de intensificação começaram a ser tomadas, antes mesmo de ser declarado oficialmente o estado de emergência em Portugal. A saudade de casa aumenta ainda mais quando você se ver sem nenhum contato social sendo recém-chegada em um país; sem falar na parte onde todos os seus primeiros planos foram frustrados. De repente eu não podia mais fazer nenhum plano”, revela.

A jornalista que saiu do Brasil por vários motivos, como segurança pública e desejo de se reinventar, avalia a atuação do presidente conservador Marcelo Rebelo de Sousa como extremamente satisfatória. “Foram quase 60 dias sem poder sair de casa, com policiamento nas ruas e nas fronteiras das cidades. O comércio praticamente todo fechado, funcionando apenas os serviços essenciais como farmácias, supermercados e parte do transporte público. Aqui funcionam apenas os serviços essenciais, mesmo”, justifica.

Ela pontua que as ações adotadas pelo governo português foram primordiais para que os números no país não fossem tão alarmantes e desesperadores como na vizinha Espanha. “O entendimento da necessidade do isolamento social e acima de tudo o bom senso e a disciplina por parte da população fizeram com que Portugal se tornasse exemplo”, diz.

Ex-moradora de um lugar com inúmeras belezas naturais, Rafaella comenta qual foi sua primeira atividade com o fim da quarentena: “Fui à praia. Confesso que me emocionei. Me sinto viva. Apreciando e dando valor a cada detalhe que antes passaria despercebido”.

A jornalista declara que a saudade do mar só não era maior do que “estar com a família. E de trabalhar. Definitivamente não nasci para ser ‘dona de casa’”.

Ela explica que apesar do isolamento social ter chegado ao fim, algumas medidas restritivas continuam sendo tomadas e as pessoas ainda não se sentem completamente seguras em estarem nas ruas.

A parnamirinense, que se mudou junto com o namorado, fala que “ainda não tinha conseguido estabelecer uma rotina quando cheguei em Portugal, até o mundo literalmente parar. Quero poder me familiarizar com o país primeiro”.

Com o propósito de se mudar em breve para Inglaterra, Rafaella não deixa de se preocupar com sua nação de origem. “Ver de forma tão drástica o abismo social existente no Brasil me deixa ainda mais indignada e triste com o lugar de onde vim. Aliás, com as pessoas. Uma pandemia que pode ser evitada apenas com responsabilidade e empatia, mas parece que no momento essas palavras se tornam difíceis de serem praticadas”, desabafa.

Entretanto, como toda brasileira, mantém a esperança por dias melhores. “Acredito que ainda há tempo de seguir bons exemplos, e que Portugal sirva como um”, finaliza.

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