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Cultura

Natal terá novo teatro multiúso na Via Costeira com reabertura do Vila Hall

Após anos fechado, Vila Hall será transformado em teatro multiuso sob gestão da Idearte e promete fortalecer a cena artística da capital
Nathallya Macedo
16/06/2026 | 05:55

Por mais de uma década, o projeto viajou dobrado em pastas, ocupou gavetas, foi apresentado em reuniões, adaptado para diferentes endereços e redesenhado inúmeras vezes. Mudaram os cenários, mudaram os parceiros, mudaram os lugares que poderiam abrigá-lo. O sonho, porém, permaneceu intacto.

Enquanto construía uma das principais produtoras culturais do Nordeste, comandava festivais, ocupava teatros e ajudava a movimentar a economia criativa potiguar, Amaury Júnior alimentava um desejo que considera o maior de sua trajetória profissional: ter um teatro para chamar de seu. Agora, esse projeto ganha forma concreta.

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Fechado há anos, Vila Hall já passa por obras de reestruturação e deverá reabrir até o fim de 2026 como teatro multiuso na Via Costeira sob gestão da Idearte — empresa do produtor Amaury Júnior - Foto: Divulgação

Até o fim deste ano, Natal deverá assistir à reabertura do antigo Vila Hall, espaço que marcou gerações de potiguares com shows, formaturas, eventos corporativos e apresentações artísticas. O equipamento passará a ser administrado pela Idearte, empresa fundada por Amaury Júnior, por meio de um contrato de 20 anos. Entre as atrações previstas para a estreia do espaço está o cantor Jorge Vercillo, segundo o produtor.

A proposta é transformar o local em um teatro multiúso voltado para espetáculos, eventos culturais, atividades corporativas e formação de público. Mais do que a recuperação de uma casa fechada há anos, o movimento representa a criação de um novo equipamento cultural em uma cidade que, segundo o produtor, ainda convive com uma histórica carência de espaços para a arte.

“Eu nunca sonhei em ter uma rádio, uma televisão ou um jornal, por exemplo. Isso nunca foi um sonho para mim. Mas eu sempre sonhei em ter o meu teatro. Isso eu sabia que ia ter na minha vida”, afirmou.

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Amaury Júnior: reabertura busca ampliar a oferta de equipamentos culturais – Foto: José Aldenir

A declaração ajuda a explicar a dimensão simbólica do projeto para quem construiu uma carreira que se confunde com a história recente da produção cultural potiguar.

Fundador da Idearte em 2011, Amaury viu sua trajetória crescer junto com o Teatro Riachuelo, inaugurado poucos meses antes. Foi naquele palco que a empresa ganhou projeção nacional e onde ele aprendeu processos que transformariam sua forma de produzir espetáculos.

“O Riachuelo teve uma contribuição muito importante para o mercado da economia criativa de Natal. Existe um antes e um depois”, resumiu.

A convivência diária com os bastidores dos grandes teatros brasileiros e mais de 5 mil espetáculos realizados também reforçou uma percepção que o acompanha há anos: Natal produz mais cultura do que seus equipamentos conseguem comportar.

Na avaliação dele, a capital potiguar avançou desde os tempos em que contava praticamente apenas com o Teatro Alberto Maranhão (TAM), mas ainda está longe de atender à demanda de artistas, produtores e público.

“Natal entra no circuito das grandes produções e muita coisa fica de fora porque não tem palco.”

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“Desejo que o Vila Hall seja um palco para todos”, disse Amaury Júnior.

A defesa de novos espaços culturais aparece como um dos principais argumentos para justificar a reativação do Vila Hall. Para Amaury, o papel do poder público não se resume ao financiamento de projetos, mas também à criação e manutenção de equipamentos capazes de formar artistas e plateias.

“O melhor fomento é ter bons equipamentos. Formação passa pelo equipamento, passa pelo espaço. Nós somos pobres de equipamentos.”

A fala ganha peso quando vem de alguém que já ocupou praticamente todos os palcos do Rio Grande do Norte. Ao longo de mais de duas décadas de carreira, Amaury produziu espetáculos em cidades como Mossoró, Caicó, Santa Cruz, São Gonçalo do Amarante e Parnamirim, além de atuar em casas históricas da capital.

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Proposta da Idearte é implantar uma estrutura versátil – Foto: Reprodução

Foi justamente essa experiência que o levou a enxergar uma oportunidade onde outros viam apenas um espaço abandonado. A conexão aconteceu no final de 2025, quando um produtor de São Paulo lhe falou sobre uma estrutura esquecida dentro do complexo do Vila do Mar, na Via Costeira. O espaço era o antigo Vila Hall.

Amaury conhecia bem o local. Havia realizado ali apresentações infantis, eventos escolares, shows e diversas produções ao longo dos anos. Mesmo assim, admite que nunca havia cogitado transformá-lo em seu teatro.

“Quando eu entrei lá de novo, pensei: é aqui.”

O retorno ao imóvel encerrou uma busca iniciada há anos. Ele chegou a apresentar a empresários locais um projeto para a construção de um teatro dentro de um centro comercial. O material incluía plantas, projeções financeiras, estudos arquitetônicos e imagens em 3D. A ideia não avançou.

Depois vieram outras tentativas, envolvendo diferentes empreendimentos imobiliários da cidade. Nenhuma saiu do papel. O Vila Hall, no entanto, surgiu como a oportunidade de transformar o desejo em realidade sem a necessidade de construir um equipamento do zero.

A estrutura passará por uma ampla reforma. Segundo o produtor, as licenças já foram liberadas e os trabalhos de recuperação começaram pela cobertura, considerada uma das áreas mais críticas do imóvel.

O Vila Hall não terá o formato convencional com poltronas fixas. A proposta de Amaury Júnior é criar um espaço capaz de assumir diferentes configurações conforme o evento. Como teatro, terá inicialmente capacidade para cerca de 650 espectadores, podendo chegar a 750 com a implantação de um mezanino. No formato pista, poderá receber aproximadamente 1,5 mil pessoas. Já para eventos sociais, a configuração permitirá acomodar cerca de 400 convidados em mesas e cadeiras.

A versatilidade não é casual. Ela segue uma tendência observada por Amaury em equipamentos culturais contemporâneos, que precisam equilibrar vocação artística e sustentabilidade financeira.

“Para ser autossustentável, o equipamento tem que locar. Os eventos corporativos e sociais têm um poder econômico maior que o cultural. Então a gente precisa encontrar um equilíbrio.”

Amaury rebate ainda a ideia de que produções infantis ou de grande apelo popular teriam menor relevância artística. Ele tem orgulho da trajetória construída nesse segmento e destaca que a experiência o ajudou a compreender uma das principais lições do mercado cultural: a necessidade de equilibrar projetos de forte retorno comercial com iniciativas de perfil mais autoral. Ao longo da carreira, produziu centenas de apresentações infantis, chegando a realizar nove sessões da Galinha Pintadinha em um único dia.

Ele garante que a identidade principal do espaço será artística.

“É um espaço cultural. É um teatro.”

A intenção, segundo o produtor, é que as sextas-feiras, sábados e domingos sejam prioritariamente reservados à programação cultural. O plano inclui temporadas de teatro, musicais, shows, festivais, projetos autorais e produções locais.

Parte importante dessa estratégia passa pelos próprios projetos da Idearte. O tradicional projeto Seis e Meia, recentemente reconhecido como Patrimônio Cultural, Artístico e Imaterial do Estado, deverá migrar para a nova casa, assim como outras iniciativas produzidas pela empresa. Ao mesmo tempo, Amaury afirma que continuará atuando no Teatro Riachuelo e no Teatro Alberto Maranhão.

“Eu não vou deixar de produzir em outros espaços. O Vila Hall chega como mais um equipamento para a cidade.”

Essa ampliação da oferta, acredita, pode ajudar a resolver um gargalo histórico da produção cultural natalense. Em 2025, apenas a Idearte realizou mais de 70 produções no Teatro Riachuelo. Os números ajudaram a convencê-lo de que existia demanda suficiente para sustentar um novo palco.

A proposta vai além da programação nacional. Amaury pretende utilizar o espaço para fortalecer produções potiguares e criar oportunidades para artistas locais. Entre os projetos já idealizados estão espetáculos desenvolvidos por nomes da cena cultural do RN, como Diana Fontes, Danilo Guanais e Racine Santos.

A escolha é também uma forma de reafirmar uma visão ampla sobre o papel da cultura.

“Cultura é toda e qualquer manifestação de um povo.”

Para ele, um novo equipamento cultural só faz sentido se estiver aberto à diversidade de linguagens e públicos.

Essa abertura dialoga diretamente com a história do próprio Vila Hall. Antes de se tornar uma casa de shows, o local nasceu para receber o Natal International Show, espetáculo voltado ao turismo que marcou uma época na cidade. Mais tarde, transformou-se em um dos principais espaços de entretenimento da capital, recebendo artistas nacionais, eventos sociais e produções locais. Agora, a ideia é recuperar esse vínculo afetivo.

“Todo mundo tem uma história com aquela casa.”

“Eu quero que ele fique lado a lado do público”, disse Amaury Júnior, ao falar sobre o futuro do equipamento. Na prática, ele imagina o Vila Hall como uma espécie de teatro da Zona Sul de Natal — um equipamento capaz de atender moradores da região e turistas, ao mesmo tempo em que amplia a ocupação da Via Costeira.

A reabertura também representa o sucesso de um ciclo pessoal. Amaury teve sua trajetória construída tijolo por tijolo, desde os tempos em que vendia espetáculos para escolas e percorria redações apresentando projetos. Agora, depois de mais de 20 anos produzindo espetáculos e ocupando palcos alheios, ele finalmente terá um espaço próprio para colocar em prática uma visão amadurecida ao longo de décadas.

O produtor acredita estar entregando uma nova possibilidade para a cidade.

“Eu espero que o Vila Hall seja apenas o começo. Que ele mostre que Natal precisa de mais equipamentos. Mais teatros, mais bibliotecas, mais galerias, mais espaços culturais. Desejo que o Vila Hall seja um palco para todos, sem demagogia. Que todo mundo se sinta bem à vontade, que ocupe. É uma casa privada, mas é para as pessoas. É construída com as pessoas porque sempre estamos abertos para receber sugestões de atrações.”

Para o produtor, a nova casa deve funcionar como um ambiente acessível e plural, capaz de acolher diferentes linguagens artísticas, públicos e iniciativas culturais da cidade. Se depender dele, a cortina que voltará a se abrir na Via Costeira marca o início de um novo capítulo para a cena cultural potiguar.