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Cidades

Natal tem mil manejos arbóreos por mês, e ambientalista aponta impacto no calor

Especialista relaciona redução de copas e mudanças climáticas ao aumento da temperatura na capital potiguar
Nathallya Macedo
28/02/2026 | 05:47

As podas de árvores em diferentes regiões de Natal tem levantado discussões sobre os impactos dessas intervenções no conforto térmico. A Secretaria Municipal de Serviços Urbanos (Semsur) afirma que realiza cerca de mil ações de manejo arbóreo por mês na cidade, incluindo podas, erradicações e manutenção de áreas verdes. Nos dois primeiros meses do ano, portanto, já foram quase duas mil ações, com foco nas principais avenidas e ruas que concentraram os polos carnavalescos. Esse número de procedimentos por mês é o padrão adotado pela pasta.

De acordo com a Semsur, o manejo ocorre mediante parecer técnico e segue critérios definidos pelo setor de paisagismo, responsável pela programação e execução do serviço. A secretaria também informa que as equipes de poda são formadas por engenheiros agrônomos e arboricultores e que a população pode solicitar poda ou retirada de árvores por telefone (84 3232-9845), e-mail ([email protected]) ou presencialmente no Departamento de Paisagismo (Rua Princesa Isabel, nº. 799 – Cidade Alta).

Roberto Galhardo Semsur Copia
Redução das copas das árvores pode ampliar sensação de calor. Ambientalista aponta falta de planejamento - Foto: Roberto Galhardo/Semsur

A pasta explica que a poda é realizada quando a árvore obstrui semáforos, interfere na iluminação pública, dificulta a passagem de veículos altos, oferece riscos à população ou interfere na fachada de imóveis. Já a supressão só é autorizada em situações específicas, como risco de queda, problemas fitossanitários, danos ao patrimônio, obstáculos ao acesso de veículos ou presença de espécies invasoras com propagação prejudicial comprovada.

Para o ambientalista Francisco Iglesias, porém, a forma como as podas são realizadas pode contribuir para a sensação de aumento do calor na cidade. “O que a gente vê é podas mal feitas, podas que destroem as árvores, as copas das árvores. Quando você diminui a copa, você aumenta a presença do sol. Em consequência, aumenta o calor”.

Segundo Iglesias, a combinação entre redução de copas, pouca arborização e mudanças climáticas agrava o problema. “Natal tem pouca arborização. O calor, por causa da mudança climática global, está aumentando. Então, na hora que você faz uma poda, uma poda que não leva em consideração a espécie, o tipo de árvore, o tamanho da copa, é uma poda só para proteger a fiação, não é feita para proteger a árvore, você está com certeza aumentando o calor, diminuindo o período de vida daquela espécie, que podia ser 50, 60 anos”, frisou.

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Semsur afirma que 1 mil manejos árboreos realizados por mês é o padrão – Foto: Roberto Galhardo/Semsur

Ele explica que as árvores também podem ajudar na drenagem urbana. “Tem uma coisa que as árvores contribuem bastante e que a prefeitura não usa, que é a questão delas servirem como elementos para evitar inundação. A árvore consome em torno de 40% da água que cai sobre elas. Por exemplo, temos lagoas de captação que estão enchendo, mas elas não possuem nenhum tipo de arborização. A prefeitura poderia usar a arborização no entorno daquela lagoa para diminuir o volume de água que vai pra lagoa”.

O ambientalista citou ainda um exemplo em Lagoa Nova. “Em Potilândia, na Avenida Capitão-Mor Gouveia com a Rua da Magnesita, uma lagoa tinha 16 árvores em volta, mas a gestão municipal retirou as 16, porque era uma espécie exótica, e não plantou nenhuma de volta”.

Na avaliação dele, o problema também está na ausência de planejamento contínuo para a arborização urbana. “Natal não tem uma tradição de cuidar das suas árvores, da sua arborização. Tinha na década de 1950, que a cidade tinha 60 mil habitantes, e era super arborizada. Hoje, não”.

Iglesias diz perceber aumento recente nas podas e aponta a falta de planejamento como um dos fatores. “Não vejo planejamento. Não há uma preocupação, por exemplo, de enterrar fiação. Pelo menos nas principais vias. Por que a prefeitura não enterra fiação”.

Arquiteto, urbanista e ambientalista, Francisco Iglesias é presidente da entidade Amigos da Natureza e acompanha temas relacionados à arborização urbana e meio ambiente na capital potiguar.

Natal é a 12ª capital com moradores vivendo em setores sem árvores

Natal ocupa a 12ª posição entre as capitais brasileiras com maior percentual de moradores vivendo em setores censitários sem árvores. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), referentes ao Censo Demográfico 2022, 44,73% da população da capital potiguar residia em áreas classificadas como “sem árvores”.

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O levantamento integra a Pesquisa Urbanística do Entorno dos Domicílios, realizada junto ao Censo 2022. A coleta considerou moradores em domicílios particulares permanentes ocupados, em setores censitários selecionados, e avaliou características do entorno, como arborização.

No ranking das capitais com maior percentual de moradores em setores sem árvores, São Luís (MA) e Salvador (BA) aparecem nas primeiras posições, ambas com 65,68%, seguidas por Rio Branco (AC), com 60,04%, e Florianópolis (SC), com 55,88%. Na sequência estão Belém (PA), com 55,26%; Aracaju (SE), 55,09%; Manaus (AM), 55,07%; Maceió (AL), 53,77%; Recife (PE), 48,77%; Boa Vista (RR), 47,31%; e João Pessoa (PB), 46,74%. Natal surge em 12º lugar, com 44,73%.

Além da ausência de árvores, o estudo também mensurou os setores com maior presença de arborização em Natal: 23,86% dos moradores viviam em áreas com cinco ou mais árvores; outros 21,75% estavam em setores com de uma a duas árvores; e 9,60% em locais com três a quatro árvores.

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