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Violência

Mulheres negras são maioria entre vítimas de feminicídio no Brasil

Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que mulheres negras representam 65% das vítimas de feminicídio e 74,6% das mortes violentas intencionais de mulheres no País
Por O Correio de Hoje
30/07/2026 | 18:06

As mulheres negras continuam sendo as principais vítimas da violência letal de gênero no Brasil. Dados divulgados na última semana pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) mostram que, embora representem 56% da população feminina do país, elas responderam por 65% dos casos de feminicídio registrados em 2025 e por 74,6% das mortes violentas intencionais de mulheres.

O levantamento também aponta uma redução dos homicídios de mulheres em geral, enquanto os feminicídios — crimes motivados pela condição de gênero — continuaram em alta.

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Negras representam 56% da população feminina brasileira, mas responderam por 65% dos feminicídios em 2025 - Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil

Para os pesquisadores do Fórum, os números evidenciam a necessidade de considerar a interseccionalidade na formulação de políticas públicas e no enfrentamento da violência contra as mulheres. “Esse dado está ligado à interseccionalidade que precisa ser levada em conta no debate sobre violência contra mulheres”, afirmam os pesquisadores.

O conceito de interseccionalidade foi formulado em 1989 pela jurista norte-americana Kimberlé Crenshaw para explicar como diferentes fatores sociais, como raça, gênero e classe, se sobrepõem e influenciam as formas de discriminação e desigualdade vividas por uma pessoa.

A discussão sobre a condição das mulheres negras antecede a criação do conceito. Em 1851, a abolicionista norte-americana Sojourner Truth questionou a exclusão das mulheres negras das concepções de proteção e fragilidade associadas às mulheres brancas ao discursar com a pergunta “Ain’t I a Woman?” (“E eu não sou uma mulher?”).

Mais de um século depois, em 25 de julho de 1992, cerca de 300 representantes de 32 países participaram, em Santo Domingo, na República Dominicana, do 1º Encontro de Mulheres Negras Latino-Americanas e Caribenhas. O objetivo foi denunciar a sobreposição de machismo, racismo e desigualdade social nas experiências vividas pelas mulheres negras.

A data passou a ser referência internacional e foi oficializada pela Organização das Nações Unidas (ONU) como o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha. O encontro ocorreu mais de dez anos após a publicação do livro Mulher, Raça e Classe, da filósofa e ativista norte-americana Angela Davis, uma das principais referências do feminismo negro.

No último sábado 25, durante participação na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), em homenagem ao Dia Internacional da Mulher Negra, Angela Davis voltou a tratar do tema ao comentar seu novo projeto literário, desenvolvido em parceria com Gina, sobre a pianista de jazz Geri Allen (1957-2017). “Muitos dos novos pianistas relativamente jovens no jazz foram influenciados por ela. E as pessoas os conhecem. Mas não ela”.

Também durante a programação da Flip, mulheres negras de diferentes perfis relataram como o racismo influencia áreas como política, segurança pública, maternidade e direitos reprodutivos.

Entre os depoimentos, mães afirmaram desejar um futuro com mais oportunidades para suas filhas, que sonham em seguir carreiras como policiais e jogadoras de futebol. Apesar dos avanços conquistados nas últimas décadas, participantes destacaram que o cenário ainda está distante da igualdade.

A ativista Sandra Maria Silva, de 81 anos, resume esse sentimento ao falar sobre sua trajetória de luta. “Nasci lutando e vou morrer lutando.”

Entre os principais nomes do pensamento feminista negro no Brasil está a antropóloga Lélia Gonzalez, uma das fundadoras do Movimento Negro Unificado.

Reconhecida por integrar as discussões sobre raça e gênero em uma mesma perspectiva, ela formulou conceitos como “amefricanidade” e “pretuguês”, utilizados para analisar as relações sociais e culturais da população negra na América Latina.

Lélia Gonzalez também questionou o mito da democracia racial brasileira e desenvolveu reflexões sobre a posição da mulher negra em uma sociedade marcada pelo patriarcado e pelo legado colonial. Parte de sua produção foi reunida no livro Por um Feminismo Afro-Latino-Americano, publicado postumamente em 2020.

Angela Davis já reconheceu publicamente a influência da intelectual brasileira. Durante uma entrevista coletiva em São Paulo, em 2019, afirmou que aprendia mais com Lélia Gonzalez do que o público brasileiro poderia aprender com ela própria.