BUSCAR
BUSCAR

Miopia vira doença e exige controle

Estimativas indicam que metade da população mundial pode ser afetada até 2050, com riscos de complicações oculares graves
Por O Correio de Hoje
20/04/2026 | 12:17

A miopia, condição que compromete a visão à distância, passa por uma mudança importante na forma como é compreendida pela comunidade científica e pelos sistemas de saúde. Antes tratada majoritariamente como um simples erro refrativo corrigido com óculos ou lentes de contato, agora vem sendo classificada como uma doença que exige acompanhamento, controle e políticas de prevenção.
Atualmente, o problema já atinge cerca de 30% da população mundial, e a tendência é de crescimento acelerado nas próximas décadas. Projeções indicam que, até 2050, aproximadamente metade das pessoas no mundo poderá apresentar algum grau de miopia, o que reforça o alerta para seus impactos individuais e coletivos.


Essa nova abordagem foi impulsionada por instituições científicas e acadêmicas, incluindo entidades dos Estados Unidos, que passaram a considerar a miopia não apenas como uma limitação visual, mas como uma condição associada a alterações estruturais no olho. A mudança leva em conta, principalmente, o risco aumentado de doenças oculares mais graves ao longo da vida.

doctor patient ophthalmologist s office
Diagnóstico precoce e acompanhamento são formas de conter o avanço da miopia Foto: FreePik


Especialistas explicam que a miopia ocorre quando o globo ocular se alonga além do tamanho considerado normal, fazendo com que a imagem seja formada antes da retina. Em olhos saudáveis, o comprimento médio é de cerca de 24 milímetros, enquanto em casos de miopia esse valor pode ultrapassar 26 milímetros. Esse alongamento aumenta a vulnerabilidade da retina e de outras estruturas oculares.


Com o avanço da condição, crescem também as chances de complicações como descolamento de retina, glaucoma, catarata precoce e degeneração macular miópica — esta última considerada uma das principais causas de perda severa de visão. Esses riscos tendem a aumentar proporcionalmente ao grau da miopia.


Além dos danos diretos à visão, há consequências sociais e econômicas relevantes. Estudos indicam que os custos globais associados à miopia, incluindo despesas médicas e perda de produtividade, já alcançam cifras bilionárias. Em 2015, por exemplo, esses impactos foram estimados em centenas de bilhões de dólares.


Diante desse cenário, cresce a preocupação com a necessidade de intervenção precoce. A Organização Mundial da Saúde (OMS) já reconhece a miopia como um fator de risco importante para a chamada cegueira evitável, reforçando a importância do diagnóstico e do acompanhamento desde a infância.
Para conter a progressão da miopia, existem hoje diferentes abordagens. Entre elas, estão o uso de óculos e lentes de contato desenvolvidos especificamente para reduzir o avanço do problema, além de tratamentos farmacológicos, como colírios à base de atropina em baixas doses. Essas estratégias têm demonstrado eficácia em retardar o aumento do grau.


Outra medida relevante envolve mudanças no estilo de vida, como a redução do tempo excessivo em telas e o estímulo a atividades ao ar livre, especialmente entre crianças e adolescentes. A exposição à luz natural é apontada como um fator protetor contra o desenvolvimento da miopia.


Apesar dos avanços, o acesso a tratamentos ainda é desigual. Em muitos casos, tecnologias mais modernas, como lentes especiais ou medicamentos, têm custo elevado, o que limita sua utilização por uma parcela significativa da população. Essa realidade amplia o debate sobre a necessidade de inclusão dessas soluções em políticas públicas de saúde.


Alguns países já começam a se movimentar nesse sentido, discutindo estratégias nacionais para enfrentar o crescimento da miopia. Entre as propostas estão a ampliação do acesso a exames oftalmológicos, a cobertura de tratamentos específicos e campanhas de conscientização sobre prevenção.


Outro ponto de atenção é o impacto da miopia em grupos mais vulneráveis. Crianças de famílias com menor renda tendem a ter menos acesso a diagnóstico precoce e tratamento adequado, o que pode comprometer o desenvolvimento escolar e a qualidade de vida.


Com o novo entendimento, especialistas defendem que a miopia seja tratada como uma questão de saúde pública. A abordagem passa a envolver não apenas o cuidado individual, mas também ações estruturais voltadas à prevenção, ao controle e à redução das desigualdades no acesso aos serviços de saúde ocular.


Nesse contexto, a reclassificação da miopia representa uma mudança relevante na forma de lidar com o problema. Mais do que corrigir a visão, o objetivo passa a ser evitar a progressão da condição e suas consequências ao longo da vida.