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Metade das empresas do RN não conseguiu crédito na pandemia
Entre abril, começo da crise sanitária do coronavírus, e agosto agora, quando o número de casos começou a desacelerar, o volume de dinheiro emprestado pelas instituições públicas e privadas no estado se manteve inalterado
Marcelo Hollanda
21/08/2020 | 05:04

Josélia Belarmino da Silva, 41 anos, tem um pequeno negócio de entrega em domicílio de itens alimentícios, perfumaria e produtos de higiene que durante 10 anos funcionou no Parque dos Coqueiros, na Zona Norte de Natal.

Com a pandemia do coronavírus, ela foi obrigada a se mudar para o Jardim Botânico, em São Gonçalo do Amarante, depois que a clientela sumiu.
Sem dinheiro para fazer estoque, nesta quinta-feira 20 ela apelou pela segunda vez a um banco para conseguir um empréstimo emergencial de R$ 10 mil a serem pagos em 36 parcelas.

Depois de ver seu pedido negado duas vezes pela Caixa Econômica, sem que nenhum motivo fosse apresentado pela instituição, ontem ela novamente bateu a cara na porta, desta vez num banco privado, o Itaú, que alegou já ter preenchido a disponibilidade de crédito.

Josélia é um dos milhares de micro pessoas jurídicas do Rio Grande do Norte órfãos de um programa oficial de apoio financeiro contra a pandemia da Covid-19.

Segundo a mais recente sondagem da Federação da Indústria do RN, essa camada desassistida representa 53% das empresas do estado que teve seus pedidos de auxílio negados pelos bancos sem qualquer explicação. Desses, 41% não teriam apresentado a documentação correta.

O mais incrível dessa história, segundo Pedro Albuquerque, assessor técnico de pesquisa e economia da Fiern, é que entre abril, começo da pandemia, e agosto, quando o número de casos começou a desacelerar, o volume de crédito emergencial às micro e pequenas empresas, que representam 95% dos negócios no estado, permanecia no mesmíssimo patamar. Ou seja, raso.

“No momento em que eu mais precisei de ajuda eu não tive, a verdade é essa”, desabafa Josélia, que conta com a ajuda do marido para fazer as entregas nos pequenos mercadinhos e residências de bairro.

Um outro dado difícil de engolir em tempos de tragédia sanitária, fornecido pelo assessor técnico da Fiern, é que das 51% dos CNPJs que conseguiram acessar o auxílio do governo federal, 41% obtiveram o dinheiro não pelos bancos públicos e sim pelos particulares.

Lucas Potiguar, dono de uma fábrica de laticínios com 10 empregados, por exemplo, apresentou toda a documentação pedida pela agencia do Banco do Nordeste de Macaíba ainda no começo da pandemia e até agora nada.
“Consegui que o governo ajudasse a pagar até 80% dos salários do pessoal, mas dinheiro para capital e giro e manter a produção, que é bom, nenhum tostão”, diz ele.

Agora que a ajuda para a folha de pagamento terminou, o empresário afirma que seu maior problema é falta de recursos para demitir os empregados.

“No meu caso, o BNB, que é um banco de fomento e existe justamente para ajudar as empresas, não fez absolutamente nada”, dispara.

Depois de trabalhar nas sondagens em abril e outra agora em agosto, comparar as informações recolhidas no auge e na desaceleração da pandemia para a Fiern, Pedro Albuquerque fala da sua incredulidade.

“Com a chegada da Covid 19 ao Brasil eram claros os reflexos na economia já em abril, razão pela qual foi feita a primeira sondagem. Mas o que nem nós poderíamos prever é que, quatro meses depois, a concessão de recursos para as empresas estive praticamente inalterada”, surpreende-se.

E conclui: “Se ocasiões excepcionais demandam medidas excepcionais, como diz o velho ditado, essas medidas nós não vimos”.

Os números da pesquisa

A mesma pesquisa realizada pelo sistema Fiern, divulgada esta semana, mostrou que 54% das empresas potiguares não pararam as atividades durante a pandemia. A sondagem ouviu 141 indústrias instaladas em 28 municípios, no período de 4 a 12 de agosto, e foi a segunda edição no ano, com mais de 30 setores industriais consultados.

A pesquisa, por exemplo, apresenta dados sobre paralisação de atividades, dificuldades em obter suprimentos, desligamento de pessoal e adoção de protocolos de biossegurança.

Na comparação com a primeira sondagem realizada entre os dias 14 e 15 de abril, logo no início da pandemia, a pesquisa de agosto mostrou que o percentual de empresas que não paralisaram as atividades cresceu de 47% para 54%.

Ou seja, mais empresas continuaram a operar, sugerindo que, de alguma maneira, as empresas do RN encontraram maneiras de lidar com a crise da pandemia para manter as atividades.

Mas a sondagem aponta que 70% tiveram problemas com suprimento de fornecedores. E, em relação ao faturamento no período, 37% apresentaram queda de mais de 50% (destaque para Confecções, Marmoraria, Têxtil).
Na primeira pesquisa, feita em abril com 139 indústrias, 78% relataram dificuldade com suprimentos. A comparação das duas sondagens revela o que pode ter sido o grande problema das empresas, nessa crise da pandemia.

Entre os ajustes necessários à manutenção das atividades, houve o desligamento de funcionários além de medidas previstas pelas Medidas Provisórias 936 e 927.

Do total, de empresas ouvidas, 40% fizeram renegociação de contrato de trabalho e 50% informaram que não demitiram, enquanto 15% demitiram mais de 50% do quadro (Indústria de Móveis, Alimentos, Química e Gráfica, especialmente em Natal).

Na contramão disso, 7% registraram aumento na contratação. O incremento foi verificado na indústria da Construção Civil, Coleta e Transporte de resíduos e de Produtos de limpeza.

Para a gerente da unidade de economia e pesquisa da Fiern, Sandra Lúcia Cavalcanti, isso não diminuiu as dificuldades das empresas, que já amargavam uma situação difícil desde 2014.

“Quando elas começaram efetivamente a empreender uma reação, no segundo semestre do ano passado, apareceu a pandemia para atrapalhar tudo”, finaliza.

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