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Economia

Máquinas e equipamentos iniciam ano com queda, por taxa de juros e câmbio

Em janeiro, a receita líquida totalizou R$ 17,3 bilhões
O Correio de Hoje
04/03/2026 | 19:15

O setor brasileiro de máquinas e equipamentos começou 2026 em desaceleração, após encerrar 2025 com crescimento moderado, segundo dados divulgados pela Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq). Em janeiro, a receita líquida totalizou R$ 17,3 bilhões, queda de 17% ante igual mês do ano passado e de 19,3% frente a dezembro, refletindo o impacto da política monetária restritiva e a valorização do real sobre o desempenho do setor.

De acordo com a entidade, o recuo foi disseminado, atingindo tanto o mercado doméstico quanto o externo. No Brasil, as vendas encolheram 19% na comparação anual. A Abimaq atribui o resultado ao “reflexo da política monetária contracionista”, que tem inibido investimentos produtivos, elevado o custo de vida, comprometido a renda das famílias e pressionado os índices de inadimplência.

Máquinas e equipamentos iniciam ano com queda, por taxa de juros e câmbio
Indústrias de máquinas e equipamentos estão pressionadas pela taxa de juros Selic - foto: Arquivo/EBC

No mercado externo, a influência negativa veio principalmente do câmbio. A valorização de 11% do real frente ao dólar reduziu a competitividade dos produtos brasileiros no exterior. Ainda assim, as exportações somaram US$ 838 milhões em janeiro. O valor representa queda expressiva de 41,5% em relação a dezembro, mas alta de 3,1% na comparação com janeiro de 2025. Segundo a Abimaq, a retração mensal decorre de fatores sazonais e da base elevada de comparação, uma vez que dezembro de 2025 registrou o segundo maior resultado da série histórica.

As importações alcançaram US$ 2,48 bilhões no primeiro mês do ano, também com recuo frente a dezembro. Apesar disso, a entidade ressalta que os volumes permanecem elevados em termos históricos, movimento observado desde 2015 e intensificado após a pandemia de covid-19, quando a substituição da produção nacional por bens importados ganhou força. Para a Abimaq, o patamar das compras externas indica que o país tem transferido parcela relevante do dinamismo industrial para o exterior, sobretudo para a China, origem de mais de 32% das máquinas importadas pelo Brasil.

O setor foi um dos mais afetados pela aplicação de tarifas de 50% pelo governo dos Estados Unidos, principal destino das exportações brasileiras de máquinas e equipamentos. As medidas foram adotadas durante a gestão de Donald Trump e atingiram diversos produtos importados.

Apesar do temor inicial, o impacto foi menor do que o previsto. “A medida que foi tomada pelo governo Trump impactou bem menos do que a gente previa no início. A gente achava que ia impactar brutalmente as vendas para aquele mercado, mas diversas empresas conseguiram se organizar, se estruturar e preservar aquele mercado, que é bastante importante”, afirmou Pedro Estevão Bastos, presidente da Câmara Setorial de Máquinas e Implementos Agrícolas da Abimaq, em entrevista concedida nesta terça-feira, em São Paulo.

Com a decisão da Suprema Corte americana de derrubar as tarifas globais impostas anteriormente, a expectativa é de retomada gradual das vendas externas. “Com relação ao futuro e com a reversão da medida, a gente espera conseguir reconquistar uma parte do mercado que foi perdido”, disse Bastos. Ele pondera, contudo, que o cenário ainda inspira cautela. “Há outros instrumentos que ele pode utilizar e aí elevar a tarifa especificamente para o Brasil a outro patamar, além dos 10%. Então a gente tem conversado com as empresas do setor para ter cautela”, acrescentou.

No mercado de trabalho, o setor registrou 418,9 mil empregados em janeiro, alta de 18 mil postos em relação ao mesmo mês de 2025. O número, contudo, ainda é 2% inferior ao pico observado em outubro do ano passado, quando 422,7 mil pessoas estavam ocupadas na indústria de máquinas e equipamentos.

Para 2026, a Abimaq projeta crescimento de 3,5% na produção física e de cerca de 4% na receita líquida. A expansão deverá ser sustentada principalmente pelo mercado doméstico, com expectativa de avanço de 5,6% na demanda interna.

As estimativas, porém, convivem com sinais contraditórios. “A gente está achando que, em 2026, vamos ter uma retração nas vendas em relação a 2025. De quanto vai ser ainda está muito cedo para a gente falar, mas talvez alguma coisa em torno de 5% seja bastante razoável”, afirmou Bastos. Segundo ele, as projeções não incorporam eventuais efeitos de fatores externos recentes, como o conflito no Oriente Médio, que podem alterar o ambiente global de negócios ao longo do ano.