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Saúde

Maior estudo sobre TOC identifica alterações cerebrais e reforça base biológica do transtorno

Pesquisa internacional liderada por cientistas brasileiros analisou mais de 4,5 mil pessoas e aponta caminhos para diagnósticos mais precisos e novos tratamentos
Por O Correio de Hoje
16/07/2026 | 13:56

Uma pesquisa internacional liderada por cientistas brasileiros identificou alterações estruturais e genéticas no cérebro de pessoas com transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), reforçando a existência de uma base biológica para a doença. Publicado na revista científica Nature Communications, o estudo é considerado o maior já realizado sobre o tema e analisou exames de neuroimagem de 4.519 participantes, sendo 2.255 pacientes com TOC e 2.264 pessoas sem o transtorno. Os resultados podem contribuir para o desenvolvimento de métodos mais precisos de diagnóstico e de novos tratamentos.

Segundo o coordenador do Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental (CISM) e chefe do Departamento de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP), Eurípedes Constantino Miguel, os transtornos mentais ainda são diagnosticados principalmente com base nos sintomas apresentados pelos pacientes, diferentemente de outras áreas da medicina.

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Pesquisa analisou exames de 4.519 pessoas e identificou alterações estruturais e genéticas no cérebro de pacientes com TOC - Foto: magnific

“Os transtornos mentais têm uma base neurobiológica ainda a ser descoberta. Fazemos o diagnóstico hoje basicamente pelo conjunto de sintomas. Diferentemente de outras áreas da medicina, não temos exames para validá-los. Então existe um esforço muito grande para entender quais características biológicas podem ser relacionadas com a clínica, não só para melhores diagnósticos, como para sugerir caminhos terapêuticos”, afirma.

O principal autor do estudo, Leonardo Saraiva, doutor em Psiquiatria pela USP e pesquisador do grupo GenTOC, explica que compreender os mecanismos biológicos do transtorno pode permitir tratamentos mais eficazes.

“Se entendermos melhor a biologia subjacente, poderemos desenvolver medicações com alvos cada vez melhores. Isso é extremamente importante porque a maioria dos tratamentos psiquiátricos hoje são tentativa e erro, vemos se o paciente responde, trocamos, e isso pode demorar muito para a pessoa apresentar uma melhora.”

Os pesquisadores analisaram 13 parâmetros estruturais do cérebro. Foram avaliadas nove características do córtex cerebral, como espessura, volume e curvatura, além de quatro estruturas subcorticais. O estudo também investigou a semelhança estrutural entre diferentes regiões cerebrais.

Entre os pacientes com TOC, foram identificadas alterações principalmente na curvatura do córtex em duas regiões: a rede do modo padrão, ativada quando o cérebro está em repouso, e a rede frontoparietal, ligada aos processos de atenção e tomada de decisões.

Os cientistas também observaram maior similaridade estrutural nas áreas sensoriomotoras, responsáveis pela integração das informações dos sentidos e pelo controle dos movimentos. Além disso, foram identificados genes com atividade reduzida relacionados às alterações encontradas, acompanhados por uma desregulação dos chamados neurônios excitatórios, células responsáveis por estimular outras regiões do cérebro.

O estudo mostrou que as alterações cerebrais foram mais evidentes em pacientes que utilizavam medicamentos para tratar o transtorno. No entanto, os pesquisadores ressaltam que isso não significa que os remédios provoquem essas mudanças.

“Mas isso não quer dizer que a medicação esteja causando essas modificações. O que acreditamos é que o uso dos remédios delineia um perfil de pacientes mais graves, que podem já ter alterações cerebrais mais severas”, explica Leonardo Saraiva.

Por meio de técnicas de aprendizado de máquina (machine learning), os pesquisadores verificaram ainda que diferentes características estruturais do cérebro conseguem prever aspectos clínicos do transtorno.

Segundo Eurípedes Constantino Miguel, algumas alterações nas dobras corticais aparecem muito cedo no desenvolvimento cerebral, sugerindo que o TOC tenha forte componente relacionado ao neurodesenvolvimento.

Apesar dos resultados, os pesquisadores afirmam que ainda são necessários novos estudos para confirmar quais alterações poderão servir como biomarcadores do transtorno.

“Os resultados mostram que, em média, os pacientes com TOC apresentam essas alterações como grupo, mas para extrapolá-las ao nível individual ainda precisamos de mais pesquisa”, afirma Saraiva.

A pesquisa utilizou exames de neuroimagem e análises da atividade de genes em tecidos cerebrais coletados durante procedimentos neurocirúrgicos. Ao todo, foram analisados 47 conjuntos de dados demográficos, clínicos e de neuroimagem, provenientes de 26 centros de pesquisa.

O trabalho foi desenvolvido pelo ENIGMA-OCD (Enhancing NeuroImaging Genetics through Meta-Analysis – Obsessive-Compulsive Disorder), considerado o maior consórcio internacional de pesquisa em neuroimagem voltado ao TOC.

No Brasil, participaram pacientes da Coorte Brasileira de Alto Risco para Condições Mentais, vinculada ao Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental (CISM) e ao Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP.

Em reconhecimento à relevância da pesquisa, Leonardo Saraiva recebeu, em 2025, um dos principais prêmios internacionais concedidos pela International OCD Foundation (IOCDF).

O que é o TOC

Segundo a IOCDF, cerca de uma em cada 40 pessoas adultas desenvolve transtorno obsessivo-compulsivo em algum momento da vida. A doença costuma surgir entre 7 e 12 anos ou no final da adolescência e início da vida adulta, por volta dos 20 anos. No Brasil, estima-se que 2% a 3% da população tenha o transtorno. De acordo com Eurípedes Constantino Miguel, o TOC é caracterizado pela presença de obsessões e compulsões.

“O TOC é caracterizado por pensamentos de obsessão e compulsão. Ao experimentar essas sensações, o indivíduo sente uma necessidade imediata de buscar alívio. Ele se engaja em comportamentos repetitivos, as compulsões, como lavar as mãos diversas vezes.”

Tratamento

O tratamento de primeira linha para o TOC é a terapia cognitivo-comportamental (TCC), que ajuda os pacientes a enfrentar pensamentos obsessivos e reduzir comportamentos compulsivos. Quando necessário, são utilizados medicamentos da classe dos inibidores seletivos da recaptação de serotonina, que contribuem para diminuir os sintomas.

Segundo o professor da USP, as terapias apresentam resultados positivos para mais de 60% dos pacientes. Nos casos em que não há resposta satisfatória, podem ser associadas novas medicações ou técnicas de neuromodulação, como a estimulação magnética transcraniana.

Em situações mais graves, existe ainda a possibilidade de tratamento cirúrgico, indicado para menos de 1% dos pacientes, por meio de técnicas que lesionam ou estimulam regiões específicas do cérebro relacionadas ao transtorno.