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Tragédia

“Sonhos foram acabados”: Mãe Luiza relembra os 10 anos de desabamento

Após 10 anos da tragédia, moradores receberam novo residencial e esperam reconstruir memórias
Isabelly Noemi
15/06/2024 | 07:35

Há 10 anos, um deslizamento de terra surpreendeu os moradores de Mãe Luíza, na Zona Leste de Natal. A tragédia, que ocorreu em junho de 2014, durante a Copa do Mundo na capital, acabou deixando 24 famílias desabrigadas – elas precisaram deixar para trás uma vida de memórias que foram levadas junto com as moradias e pertences. Este ano, as famílias afetadas receberam um novo residencial. O AGORA RN conversou com algumas das pessoas que enfrentaram a situação.

Uma das famílias que perdeu a casa foi a de Wilson Correia. Para ele, os últimos anos foram difíceis de enfrentar. Wilson morava na mesma casa desde criança e já estava acostumado com a rotina. “Quando perdemos as casas, ficamos totalmente desnorteados, queriam mandar a gente lá para o Leningrado, ou seja era uma vida completamente diferente, a gente já estava acostumado a uma coisa e queriam jogar a gente para outro lugar desconhecido”, contou ele.

Mãe Luíza. Foto Felipe Gibson G1
A tragédia, que ocorreu em junho de 2014, durante a Copa do Mundo na capital, acabou deixando 24 famílias desabrigadas. Foto: Reprodução

Wilson relata que foram 10 anos de muitas mudanças, especialmente psicológicas. Além de perder a casa, ele também perdeu o estúdio de fotografia e ponto comercial. Quando ocorreu o deslizamento, o morador contou que não aguentava ver a situação e decidiu se mudar para o interior, onde passou alguns anos para recomeçar a vida. Porém, Wilson retornou para Natal para auxiliar nos processos judiciais que aconteciam na época.

Após o desastre, os moradores passaram por uma luta judicial contra a Companhia de Águas e Esgotos do Rio Grande do Norte (Caern) e a Prefeitura de Natal. “Com ajuda do Ministério Público, a gente conseguiu trazer um julgamento bom, deu tudo certo e eles foram condenados”, explicou Wilson.

Já no último dia 27 de maio, a Prefeitura de Natal entregou o Residencial Mãe Luiza, condomínio que atende as vítimas do desastre. “Foram 10 anos de luta, então nós recebemos esse condomínio com muita alegria, a Prefeitura nos entregou as chaves, porém ainda estamos enfrentando algumas dificuldades, mas estão se resolvendo, alguns moradores que tinham a necessidade de vir logo já vieram”, disse Wilson.

Residencial Mae Luiza Foto Joana Lima
Residencial Mãe Luíza foi entregue no final de maio. Foto: Joana Lima

Ainda falta água e luz no condomínio. Cláudio Bezerra precisou se mudar para o residencial assim que recebeu, mesmo sem as ligações. “Dez anos de lá para cá. Foi muito difícil chegar até aqui, agora nós ganhamos, queremos zelar por isso aqui, deixar sempre limpo, para que fique tudo bem”, disse Seu Cláudio.

Na época do deslizamento, além de perder a casa, Cláudio também perdeu seu carro que caiu em um buraco. Foi um momento complicado na vida dele, que tinha o automóvel como ferramenta de trabalho para fazer serviços de propagandas.

Além de atender os 24 moradores que perderam as casas no deslizamento de terra que aconteceu em 2014, o residencial também abrange outros cinco moradores que perderam suas casas no desastre de 2017, quando um muro caiu e derrubou diversas residências. Esse é o caso de Valdislênia dos Santos, que relembra com dor os momentos vividos.

“Foi muito triste, foi algo que aconteceu pela madrugada, todo mundo dormindo e de repente tomei um susto, já acordei preocupada pensando se minha casa tinha caído e quando vi toda parte de trás tinha sido atingida, mas os meus vizinhos perderam muitas coisas, foi um grande livramento”, descreveu ela.

A moradora relatou que elas precisaram sair rapidamente do local e buscar um novo lugar disponível para morar. De acordo com ela, muitas coisas precisaram ser deixadas para trás, algumas se perderam e outras não cabiam no local alugado. Valdislênia espera que as ligações de água e luz sejam resolvidas rapidamente para que ela possa se mudar.

Um novo começo em Mãe Luíza

Uma das famílias atingidas em 2014 foi a de Marcos Barbosa. Ao lado da casa dele, moravam os irmãos, pais e tios. No deslizamento, todos perderam a casa e precisaram buscar uma maneira de refazer a vida. Na época do acontecimento, um dos filhos de Marcos, Geraldo Neto, tinha apenas 9 anos. Hoje, aos 19, o jovem relata que ainda tem memórias do dia em que tudo aconteceu.

Mae Luiza. Foto Reproducao Inter TV Cabugi
Cenário após a destruição em Mãe Luíza. Foto: Reprodução/Inter TV Cabugi

“Eu lembro bem porque era o melhor dia da minha vida e se tornou o pior. Eu tinha dormido na casa da minha tia no dia anterior, eu, meu irmão e meus primos. Começamos o dia com um café da manhã legal, brincamos com brinquedos e jogos, depois fomos jogar bola na rua que já estava interditada na época. Até que começou a chover muito e aí voltamos para casa. Até então a gente não sabia o que estava acontecendo, até que começamos a ouvir os gritos lá de fora, pessoal correndo e fomos ver o que era. Eu lembro de olhar pela fresta do portão e ver alguém gritando ‘o buraco ta abrindo’ e de fato o chão estava abrindo”, desabafou Geraldo.

Depois disso, Geraldo conta que avisou rapidamente a tia, que começou a juntar alguns pertences e ligou para Marcos. À medida que eles corriam, viram o buraco abrindo atrás deles – até que Marcos chegou de carro para tirar o grupo do local. Marcos relembra que ainda precisou voltar para buscar a outra irmã, que estava dormindo e não presenciou a situação. “Tiramos ela de casa, dez minutos depois a casa dela caiu”, comentou.

Do ponto de vista de Marcos, toda a situação poderia ter sido evitada, visto que o buraco foi crescendo com o passar do tempo. Ele conta que haviam reportado o problema para a Caern, um serviço paliativo foi realizado, mas o buraco continuou a crescer. Até que naquele dia com a chuva, abriu completamente.

“Toda nossa família que morava lá, minha avó, meus irmãos, meus tios, sobrinhos, todos moravam lá. A prova é tão grande, que todos estamos aqui no condomínio e as casas todas caíram. A partir desse momento foi que começaram os problemas financeiros, porque quando cai uma casa só, a família ajuda, mas quando cai todas, como ajudar?”, relatou.

Marcos relata que até o auxílio chegar, eles dependeram da ajuda da comunidade e de uma associação que faziam parte. Ele conta que a mãe dele, além da casa que morava, também possuía casas de aluguel e uma mercearia, porém tudo se perdeu.

“Eu tinha um prédio de 200 metros quadrados, meu quarto era um pouco menor do que essa casa toda que temos aqui, era uma casa grande. Claro que eu não estou insatisfeito com o que eu recebi, porque aqui é meu, é da minha família, mas o prejuízo foi muito grande. Além do prejuízo financeiro, os nossos sonhos foram acabados, a esperança se foi, nossos entes queridos também se foram [com o passar do tempo], meu pai morreu, minha avó morreu e começar uma vida sem essas pessoas é doloroso”, disse Marcos.

Marcos reforça que receber o apartamento é uma coisa boa e que significa um novo começo, e deseja que a nova casa vire um lar. “A esperança que eu tenho é que essa casa seja um novo começo para minha família, para procurar esquecer a tragédia e viver a vida a partir de então. Eu agora deito na cama e aquele sentimento de perda não existe mais, antes de receber o sentimento continuava”.

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