Em meio ao desgaste político provocado pela crise entre o governo e o Congresso, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva terá uma reunião na Casa Branca, em Washington, com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, nesta quinta-feira 7. A avaliação no Palácio do Planalto é que o encontro pode servir para reforçar a imagem internacional de Lula e, ao mesmo tempo, impulsionar pautas consideradas estratégicas pelo governo brasileiro em ano eleitoral, especialmente nas áreas de segurança pública e economia.
Um dos principais objetivos da viagem é avançar em um acordo de cooperação bilateral no combate ao narcotráfico e à lavagem de dinheiro. A expectativa do governo é que esse entendimento também funcione como forma de evitar que os Estados Unidos passem a classificar facções brasileiras, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), como organizações terroristas — hipótese defendida por setores da direita brasileira e cogitada publicamente por autoridades americanas.

No entendimento do governo brasileiro, esse enquadramento representaria risco à soberania nacional e poderia abrir margem para pressões externas ou até justificativas para intervenções estrangeiras. A estratégia de Lula será argumentar que o Brasil tem interesse direto em ampliar a cooperação no enfrentamento ao crime organizado, tornando desnecessária qualquer classificação desse tipo.
Em entrevista à GloboNews, o vice-presidente Geraldo Alckmin confirmou que o acordo de atuação conjunta é visto pelo governo como um instrumento para ampliar ações contra lavagem de dinheiro e organizações criminosas.
A comitiva presidencial contará com os ministros Dario Durigan, da Fazenda; Wellington César Lima e Silva, da Justiça e Segurança Pública; Mauro Vieira, das Relações Exteriores; e Márcio Elias Rosa, da Indústria e Comércio; além do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.
Além da pauta de segurança, Lula e Trump devem discutir temas sensíveis da relação bilateral. Entre eles está a guerra conduzida por Estados Unidos e Israel contra o Irã, ofensiva criticada repetidamente pelo presidente brasileiro, e também a disputa comercial envolvendo exportações brasileiras.
Embora a Suprema Corte dos Estados Unidos tenha derrubado em fevereiro o tarifaço de 50% imposto por Trump sobre produtos brasileiros, o governo americano manteve investigações comerciais contra o Brasil e a China por supostas práticas desleais.
A apuração ocorre com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA e envolve uma série de temas. Entre os pontos citados pelos americanos estão o Pix — apontado como ameaça a empresas de cartões de crédito dos Estados Unidos —, a comercialização de produtos falsificados, alegações de restrições a redes sociais americanas, críticas relacionadas ao combate ao desmatamento ilegal, corrupção e dificuldades de acesso ao mercado brasileiro de etanol.
Outro assunto previsto na reunião é a exploração de minerais críticos. Em fevereiro, os Estados Unidos convidaram o Brasil para integrar uma coalizão internacional voltada ao fornecimento, mineração e refino desses insumos estratégicos. A proposta inclui parcerias ligadas a minerais como lítio, grafita, cobre, níquel e terras raras, além da criação de mecanismos de preço mínimo para reduzir oscilações no mercado internacional.
A situação política da Venezuela também estará na pauta. Lula tem feito críticas à intervenção militar americana que resultou na prisão do ditador Nicolás Maduro, em 3 de janeiro. Após a ação, Delcy Rodríguez assumiu interinamente o comando do país com apoio dos Estados Unidos.
Nos bastidores, integrantes do governo avaliam que Lula deve abordar ainda o caso do empresário Ricardo Magro, dono da Refit e residente em Miami. O nome dele já havia sido tratado entre os dois presidentes no ano passado. Magro é apontado como o maior devedor do país e foi alvo de operação da Polícia Federal em novembro, em investigação sobre suposto esquema de sonegação fiscal.
Segundo as acusações, o empresário teria causado prejuízo de R$ 26 bilhões aos cofres públicos por meio de fraudes tributárias. Tanto Magro quanto a empresa negam irregularidades.
Aliados do presidente consideram o caso um símbolo importante para reforçar o discurso do governo no combate ao crime organizado e à sonegação. Nos bastidores do Planalto, uma eventual prisão do empresário é vista como um possível trunfo político para Lula em um momento de fragilidade interna e queda de capital político.
O cenário se agravou após o Senado rejeitar, pela primeira vez em 132 anos, um indicado do presidente da República ao Supremo Tribunal Federal. A oposição passou a explorar politicamente o episódio e a sustentar que Lula se tornou um “pato manco”, expressão usada para definir governantes em fim de mandato e com baixa capacidade de articulação política.
A avaliação no governo é que a agenda internacional pode ajudar a deslocar o foco da crise doméstica e demonstrar que Lula ainda mantém relevância política e capacidade de interlocução internacional. Há também expectativa de que o encontro com Trump reduza o espaço para que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tente explorar eleitoralmente sua proximidade com o presidente americano.
Durante discurso na Conservative Political Action Conference, realizada em março no Texas, Flávio Bolsonaro pediu que os Estados Unidos e outros países acompanhassem “com enorme atenção” as eleições brasileiras e pressionassem para que as “instituições funcionem corretamente”, além de defender monitoramento internacional sobre liberdade de expressão no Brasil.