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Pandemia
Lockdown e desigualdade social: os desafios da interiorização da pandemia do novo coronavírus no Rio Grande do Norte
Para não sofrer com os agravamentos sanitários, sociais e econômicos, sete municípios do Estado potiguar decretaram lockdown, conforme levantamento do Agora RN
Pedro Trindade
13/07/2020 | 01:00

O novo coronavírus já está presente em todos os 167 municípios do Rio Grande do Norte, de acordo com a Secretaria Estadual de Saúde Pública (Sesap). Apenas quatro meses separam a primeira infecção por Covid-19, registrada no mês de março em Natal, da disseminação da pandemia por todo o território potiguar a partir de julho.

O cenário é reflexo da tendência nacional de interiorização do vírus. Atualmente, seis estados brasileiros (nenhum no Nordeste) registram mais óbitos em cidades afastadas dos grandes centros urbanos do que nas capitais, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e a plataforma colaborativa Brasil.io.

Para não sofrer com os agravamentos sanitários, sociais e econômicos, sete municípios do Estado decretaram “lockdown”, ou um isolamento social mais rígido, conforme levantamento do Agora RN. Os gestores municipais de Itaú, São Paulo do Potengi, Macau, Guamaré, Pendências e Extremoz, que adotaram o sistema de confinamento rígido a fim de minimizar a proliferação do vírus causador da maior pandemia do século XXI, representam 4% dos prefeitos de cidades do RN.

O município de Itaú, administrado pelo prefeito Ciro Bezerra, foi o primeiro a adotar o isolamento rígido no Estado, após 11 pessoas serem confirmadas com o novo coronavírus em um único dia de testagem. Diante do cenário, o prefeito se reuniu com o Comitê de Enfrentamento da Pandemia e decidiu decretar o lockdown de 12 a 31 de maio.

“Só temos 17 casos confirmados em Itaú e todos foram recuperados. Não tivemos internações graves nem óbitos. Já estamos há mais de 25 dias sem nenhuma infecção confirmada. Este resultado positivo é efeito das medidas de isolamento que implantamos ainda quando o vírus não circulava fortemente na cidade”, comenta.

O gestor municipal revela que a decisão teve o objetivo de priorizar a vida dos 5.850 habitantes, mas sem gerar agravamentos para a economia local. Para tanto, o período de isolamento não contemplou as datas de pagamento de funcionários públicos e privados, a fim de não prejudicar as contas da cidade. As barreiras instaladas nas ruas permanecem para permitir apenas um acesso por bairro e evitar a disseminação do vírus por parte de visitantes.

A infectologista Marise Reis, integrante do Comitê Científico do RN, explica que o lockdown é uma medida de bloqueio e restrição máxima que ajuda a diminuir a circulação do vírus. Segundo ela, caso tivesse sido implantado em mais cidades, o lockdown teria ajudado a diminuir o ritmo de novas infecções. Ela ressalta, contudo, que a execução segura e assertiva do lockdown depende da análise de fatores de desenvolvimento social e econômico das populações afetadas.

“Não temos estrutura social para garantir serviços básicos às populações atingidas. O lockdown é possível na Europa, pois lá as pessoas têm casas e moram com outros dois indivíduos, em média. Aqui temos pessoas vivendo nas ruas com dificuldades em ter acesso ao serviço de saúde, por exemplo. Os ricos trabalham em casa e vão ao supermercado uma vez por semana, ao contrário dos pobres”, esclarece.

O pensamento é alinhado à declaração do diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom, que pediu para os países analisarem as consequências do lockdown para as populações mais pobres.

“O isolamento pode nos dar tempo. Mas cada país é diferente. Alguns têm um sistema de auxílio social forte e outros, não. Se fecharmos ou restringirmos os deslocamentos, o que acontecerá com essas pessoas que têm que trabalhar todos os dias?”, questionou.

A médica detalha que, para o lockdown contribuir na preservação da saúde das pessoas, é indispensável a adesão por grande parte da população, o que não aconteceu majoritariamente em relação aos decretos do Governo do Estado, que recomendavam o distanciamento social ampliado. A taxa de isolamento no RN segue em torno de 50% há semanas, de acordo com a plataforma Regula RN, do Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde (LAIS/HUOL/UFRN). O recomendado é 70%.

Em Itaú, acesso à cidade foi bloqueado, e apenas moradores poderiam ter acesso. Medida evitou proliferação do novo coronavírus, segundo o prefeito. Foto: Reprodução/Instagram

Apesar de ter implantado o sistema mais rígido de isolamento, Pendências, no Vale do Açu, ocupa a 2ª maior taxa de mortalidade por Covid-19 do RN, com 72,7 óbitos para cada 100 mil habitantes. Já São Paulo do Potengi, na região Potengi, possui a 3ª maior taxa de casos suspeitos: 2.463,2.

Marise Reis pontua que o vírus teve duas portas de entrada no RN: uma em Natal e outra em Mossoró, em virtude da aproximação desta com Fortaleza – Ceará é o segundo estado em número de casos confirmados de coronavírus no Brasil. “A pandemia começou aqui (no RN) pelo interior, em Mossoró, e depois pela capital, que foram os dois epicentros. Isso fez com que a Covid-19 tivesse uma expansão mais rápida pelas regiões do Estado”, afirma.

Ela explica que a situação da pandemia distante dos grandes centros é agravada pela precariedade do sistema público de saúde, assim como em Natal. Caso a atenção básica dos municípios tivesse a estrutura adequada, seria possível atender 80% dos potiguares, ajudando a desafogar as unidades de referência de atendimento à Covid-19 que estão centralizados na capital.

“Quando vamos para o atendimento hospitalar com sistema de regulação nos interiores do Rio Grande do Norte, nos deparamos com poucos leitos clínicos e unidades de terapia intensiva, com raras exceções”, apresenta.

A subcoordenadora de Vigilância Epidemiológica da Sesap, Alessandra Luchesi, detalha que estratégias foram desenvolvidas e adotadas para ajudar os municípios no enfrentamento do coronavírus. “O esforço agora é para fortalecer ainda mais as equipes municipais, fomentar a integração da vigilância com a atenção primária, de modo que os casos possam ser efetivamente monitorados, e que a busca ativa de casos e rastreamento de contatos ocorra”, diz ela.

A Sesap pontua que, no quesito assistencial, o Governo do RN buscou ampliar e regionalizar a abertura de leitos em todas as regiões de saúde do Estado, por meio da abertura de 444 leitos críticos e clínicos, distribuídos em oito regiões.

A infectologista Marisa Reis sinaliza, ainda, para a existência de um “gargalo” no transporte sanitário, o que dificulta o atendimento crítico às pessoas que moram em regiões distantes. Mesmo tendo leito disponível, esses pacientes sofrem com a espera por uma ambulância.

Na semana passada, para minimizar esse problema, a Secretaria de Saúde contratou uma empresa para prestação de serviço de transporte sanitário em até seis ambulâncias, durante 6 meses, com valor mensal da contratação estimado em R$ 1,4 milhão.

Até quinta-feira (9), duas ambulâncias, uma na região metropolitana de Natal e outra na região do Mato Grande, estavam em atendimento. A Sesap explica que novas ambulâncias serão acionadas de acordo com a demanda pelo transporte sanitário.

Em Extremoz, na Grande Natal, o lockdown estava vigente até este domingo (12), quando encerrou um período de dez dias com a circulação de pessoas e veículos proibida nos espaços e vias públicas. Segundo o prefeito Joaz Oliveira, a ação permitiu com que o município chegasse a uma “taxa real” de isolamento maior que 70%.

“É um dado que impede com que o vírus se propague. Há quase 48h não temos novos casos no município, bem como nenhum óbito. A Covid-19 continua precisando ser combatida com toda seriedade. O único motivo que nos levou a entrar em regime de lockdown foi a proteção de toda a população”, afirma.

O gestor pontua que buscou equilíbrio entre economia e saúde, mas ciente que “jamais ambos terão o mesmo nível de ganho”, porque a vida é um bem irreparável que, ao contrário das atividades econômicas, não pode ser recuperada quando encerrada. “Quando uma vida se perde, jamais poderá ser restaurada. Já a economia, por mais que seja prejudicada, temos como resgatar e voltar a crescer”, detalha.

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