Depois de transformar Caju no maior sucesso de sua carreira e conquistar três troféus no Latin Grammy de 2025, Liniker inicia a despedida do álbum com a turnê Bye Bye Caju, que estreia em São Paulo no próximo sábado 11. O espetáculo marca o encerramento de um ciclo iniciado há dois anos e simboliza uma nova fase para a cantora, que completa uma década de carreira, amplia a dimensão de seus shows e, por enquanto, prefere adiar os planos para um novo disco.
Em entrevista ao Estadão, Liniker fala sobre o amadurecimento artístico, a relação com a fama, a importância dos festivais em sua trajetória e explica por que decidiu viver intensamente o momento antes de iniciar um novo projeto.
Expansão da carreira
Ao comentar a nova turnê, a cantora afirmou que Caju representou uma expansão pessoal e profissional, resultado de uma trajetória construída desde 2015, quando iniciou a carreira com Liniker e os Caramelows.
“Caju trouxe o movimento de expansão não só pessoal, mas profissional também. É bonito ver minha trajetória sendo impactada pelo trabalho. Comecei em 2015 com Liniker e os Caramelows e passei por muitas formações não só de estrutura de show, mas de festivais, de casas de show, de rotas, de cidades. Então, nesses 10 anos experimentando coisas e fazendo um disco tão especial quanto esse — assim como todos os outros, mas esse é o disco mais maduro dentro de tudo que eu queria viver —, foi importante para mim pensar essa turnê de encerramento. Bye Bye Caju é uma despedida construída. Tenho muito orgulho de não ter chegado a esse lugar à toa.”
Papel dos festivais
Liniker destacou a importância dos festivais na formação de público e no fortalecimento da cena independente.
“Os festivais são importantes para a formação de público. Eles têm a potência de fomentar e articular a cena de músicos independentes. É uma forma de colocar seu trabalho para fora, não só no Brasil, mas em outros países também. Passei por muitos deles. O primeiro foi o Bananada, em 2016, em Goiânia. Se não fossem os festivais, eu não teria construído uma conduta de trabalho, não teria conseguido fazer tantas conexões não só com o público, mas também com produtores e idealizadores culturais. Tenho muito orgulho de ser uma cantora de festivais. Já fui show de abertura, show do meio, show que abria o show de abertura, headliner. Então, sou grata por já ter feito essa construção.”
O impacto de “Caju”
Segundo a artista, o álbum marcou uma mudança de patamar em sua carreira.
“Foram dois anos muito bem vividos e específicos. Eu tive uma exposição gigante do meu trabalho, alcancei pessoas que eu ainda não tinha alcançado. Foi um reposicionamento de patamar de carreira. Tornei-me mainstream sendo uma cantora independente. A lupa, agora, está diretamente na minha cara. Esse álbum me trouxe maturidade e o entendimento de ver onde eu estou agora, sem medo de seguir e sem medo do tamanho da proporção que tudo tomou.”
Relação com a fama
Liniker atribui o equilíbrio diante da exposição ao acompanhamento terapêutico e ao apoio das pessoas próximas.
“Tive, graças à análise. Ela me dá a consciência em tempo real das coisas que estou vivendo desde quando eu comecei a fazê-la, com 20 anos. Atualmente, estou em um momento de pausa. Em Caju, falei muito sobre o processo terapêutico e, dentro dele, estou nesse hiato para entender algumas questões no meu corpo. A fama é boa e ruim. As pessoas que estão próximas a mim, do meu convívio, me ajudam a lembrar que sem o pé no chão nós não vamos a lugar algum. São desafios que contorno com trabalho consciente.”
Show totalmente autoral
A nova turnê terá repertório formado exclusivamente por músicas autorais, algo que a cantora considera simbólico ao lembrar o início de sua trajetória.
“Ter um show de duas horas e meia com setlist pessoal e autoral é muito rico. Eu volto para a Liniker lá de Araraquara, com 16 anos, escrevendo as primeiras músicas no quarto, sem contar para as pessoas que escrevia e cantava. Que bom que eu fui encontrada pela música, sabe? A escrita é um salvamento na minha vida. Que bom que minha mãe me deu as oportunidades que ela pôde me dar. Que bom ser uma pessoa que teve acesso a programas de melhoria para a população oferecidos pelos governos. Que bom ter sido uma aluna de escola pública no interior de São Paulo. Se não fosse a escola, eu não teria a escrita como uma possibilidade. Falo sem nenhuma vaidade, arrogância ou algo que me deixe distante.”
Maturidade artística
A cantora afirma viver um momento de maior resiliência e de compreensão sobre os próprios limites.
“Meu momento agora é mais resiliente, aprendendo o poder de cada transformação, do limite e da expansão. É muito forte amadurecer diante das câmeras, dando entrevistas desde o meu começo de carreira. Isso me dá a calma para falar sobre mim e saber que há evoluções que são muito pessoais, que não devem ser divididas. Não que eu não queira dizê-las, mas preciso ter a maturidade de entendê-las, primeiramente no meu corpo, para expor tudo de maneira responsável. Ainda grito por espaços e reivindico que eles não sejam só meus, mas coletivos. Hoje, sou feliz. Isso me dá proteção.”
Próximo álbum pode esperar
Embora continue compondo, Liniker afirma que ainda não é o momento de pensar em um novo disco.
“Em todas as entrevistas, me perguntam: ‘E o próximo disco?’. Sou uma artista de repertório. Sou uma compositora em percurso. Escrevi mesmo com Caju na estrada. Charme foi um lançamento legal. Vou fazer novos álbuns. Porém, agora meu foco é encerrar essa turnê. Quero sentir cada coisa que estou vivendo, sem ter de me apressar.”
Questionada sobre a pressão por lançamentos constantes no mercado musical, resumiu sua posição:
“Quero tudo com paciência.”
E, ao responder se acredita que o público conseguirá esperar pelo próximo trabalho, concluiu:
“Sim, ele sabe que, quando espera, eu entrego. É só ter um pouquinho de calma.”