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Superação
Superação: Jogadores do ABC têm palestra com ex-presidiário sobrevivente do Massacre de Alcaçuz
Newton Albuquerque, publicitário que passou 10 anos preso por tráfico de drogas, hoje é escritor e tem quatro obras que ainda aguardam publicação
Anderson Barbosa
26/09/2020 | 05:10

A palavra superação – que literalmente significa a ação de estar acima, sobressair-se, dominar, vencer – estará em evidência neste final de semana no Frasqueirão, a casa do ABC. Ela é tema de uma palestra que os jogadores vão receber na noite deste sábado 26 do ex-presidiário Newton Albuquerque, publicitário que passou 10 anos preso por tráfico de drogas. Ele, inclusive, sobreviveu ao Massacre de Alcaçuz, rebelião que matou 27 presos em janeiro de 2017.

“A palestra é sobre minha história, sobre as escolhas erradas que fiz, de como passei por cima disso tudo e de como superei a fase mais difícil da minha vida”, disse Newton. A escolha errada, a propósito, é o nome do livro que ele escreveu enquanto estava na penitenciária, e que lançou em 2019 após conquistar o benefício do semiaberto. No início de 2020, ainda antes de a pandemia chegar ao Rio Grande do Norte, o ex-presidiário ainda chegou a lançar sua autobiografia em história em quadrinhos. Na nova publicação, ele resgata os tempos de criança em São Paulo, relembra o luxo efêmero no crime e o dias de terror no maior presídio do Rio Grande do Norte.

“Tudo o que falo é motivacional”

Monitorado 24 horas por tornolezeira eletrônica, hoje Newton vive de dar palestras, contando sua história, falando das coisas que viveu, e ajudando pessoas a escolherem sempre o caminho certo.

“Tudo o que falo é motivacional. Minha vida pode parecer triste, e de fato boa parte dela é, mas no final o que vale é as pessoas terem a percepção de que sempre existe a escolha certa a ser feita, que há tempo de corrigir nossos erros. Afinal, ter um final feliz também é uma escolha. Isso nos ajuda a vencer, a ultrapassar as barreiras, a superar os obstáculos da vida. Isso acontece em qualquer atividade, seja na vida amorosa ou profissional, e no esporte, nas competições, não é diferente”, destacou o publicitário.

A palestra “Superação” acontece às 19h, durante a concentração dos jogadores. O Mais Querido entra em campo no domingo 27, às 16h, pela segunda rodada da Série D do Campeonato Brasileiro. O adversário a ser superado é o Jacyobá, de Alagoas.

Convite aos times potiguares

A escolha pelo ABC para ser o primeiro time potiguar a receber a palestra vem do apreço que Newton tem pelas cores branca e preta. “Sou corinthiano, que também é alvinegro”, disse o publicitário. “E também é porque tenho uma visão privilegiada do campo do ABC, já que moro vizinho ao Frasqueirão”, acrescentou.

O América de Natal deve ser o próximo a receber a palestra de Newton. “Vou apresentar a proposta para que eu também possa falar para os jogadores do Mecão. Aliás, quero falar para todos os times potiguares. Todos são importantes, todos merecem ser vitoriosos, vencedores”, ressaltou.

As palestras, ainda de acordo com Newton, são gratuitas. “Eu só peço aos dirigentes a oportunidade de oferecer meu livro aos jogadores, para que eles possam comprar minha obra”, concluiu.

Sobre Newton

Com 44 anos, Newton é formado em publicidade pela Universidade Santo Amaro, de São Paulo. Ele foi preso em 2008, na praia de Genipabu, na Grande Natal, quando transportava mais de 300 quilos de drogas de São Paulo para o Nordeste. Foram 10 anos de cadeia, sendo 1 ano encarcerado na Penitenciária Federal de Mossoró e outros 9 em Alcaçuz, de onde saiu para o regime semiaberto.

Livros, o medo e o inferno

Além de A Escolha Errada, Newton tem outras quatro obras que ainda aguardam publicação (‘O Pequeno Gênio’, ‘Anjos do Parque’, ‘Playboys do Crime’ e ‘Quatro Estações’). Os livros foram escritos na cela de número 22 do setor médico de Alcaçuz, maior unidade prisional do Rio Grande do Norte. A penitenciária fica em Nísia Floresta, na Grande Natal, distante mais de 3 mil quilômetros da capital paulista.

Quando estourou a rebelião, ele dividia a cela com presos que ajudavam na cozinha e na limpeza da penitenciária. No setor, também ficavam detentos que eram ex-policiais, presos que participavam de atividades religiosas, condenados que cometeram crimes de violência contra crianças, estupradores.

Enfim, o setor médico era o lar dos apenados que, se fossem colocados nos demais pavilhões, certamente teriam problemas de convivência – seja pelas atividades que desempenhavam fora do presídio ou por optarem em não participar de nenhuma facção criminosa.

Além dos testemunhos do medo e tensão, o capítulo sobre o massacre também relata como tudo começou. “O sábado, dia 14 de janeiro, estava normal. Era mais um final de semana onde as famílias adentram o complexo para visitar os seus parentes que aqui cumprem suas penas impostas pela Justiça. Aparentemente, tudo se encontrava em absoluto controle. Por volta das três horas da tarde, os visitantes começaram a deixar o presídio para voltar às suas residências. Os internos do pavilhão 5, fortemente armados com facas, pedaços de ferros, de paus e acredite, até com armas de fogo, invadiram o pavilhão 4, que ficava ao lado em uma distância insignificante, onde abrigava membros da facção rival que são inimigos mortais, para realizar uma matança monstruosa”, narrou.

Ainda de acordo com Newton, a rixa entre os presos do ‘PCC’ e do ‘Sindicato do Crime do RN’ também deixou os agentes penitenciários de Alcaçuz em pânico, principalmente quando viram um dos colegas passar por maus momentos. “Um companheiro havia ficado para trás no meio daquela confusão toda, correndo um sério risco de perder a sua vida. Mas, graças a Deus, ele foi resgatado sem nenhum arranhão”.

Em meio aos relatos, Newton também escreve que não queria fazer parte daquela barbárie, e diz que sentiu muito medo. “Não queria participar daquilo. Pedia a Deus para cessar, mas quanto mais se ouvia gritos, mais se escutava tiros que vinham das guaritas. Agentes penitenciários e policiais militares tentavam conter o avanço. A precaução era não deixar o confronto acontecer no setor médico, para não ocorrer mais uma carnificina. E eu estava ali, naquele meio”.

Em outro trecho do capítulo sobre a matança, Newton também recorda ter visto imagens gravadas pelos próprios presos que mostravam cenas da carnificina. Eram vídeos feitos por meio de aparelhos celulares. “Uma hora depois do acontecido já podíamos ver vídeos que rolavam na internet e que mostravam os corredores da cadeia, com cenas de extrema barbárie, vários internos amontoados mortos, muitos deles decapitados, estraçalhados com uma brutalidade comparada aos radicais do estado islâmico”. E acrescentou: “Em um desses vídeos, um preso tentava tirar com as mãos algo como se fosse o coração da vítima. Meu Deus, a cena era fortíssima. Eu não aguentei. E depois que assisti tive a certeza absoluta de que o inferno era mesmo em Alcaçuz”.

Com medo de morrer, Newton conta que também se armou. Para se defender, no entanto, não usou faca, barra de ferro ou revólver. Sua vida, segundo ele mesmo, dependia de algo menos ofensivo. “Segurando a minha arma que era apenas um pedaço de madeira, fiz uma pequena reflexão: meu Deus, por que essas pessoas se matam desta maneira? Por que tanto ódio, tanta raiva ao ponto dessas crueldades? Por que eu, que não pertenço mais ao crime, preciso passar por isso? Por que ainda não deixei esse inferno?”.

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