Por muitos anos, a paisagem foi o ponto de partida do trabalho de Ítalo Trindade. Primeiro vieram as dunas vistas do Tirol, em Natal. Depois, os recortes urbanos do Rio de Janeiro. Mais recentemente, os arredores de Paris. Em comum, a mesma insistência do olhar: perceber como a luz altera a cor das coisas antes mesmo que elas se transformem em imagem. Agora, duas décadas após sua última exposição individual na capital potiguar, o artista retorna ao circuito local com “Chuva de Pólens”, em cartaz de 15 de maio a 6 de junho no Margem Hub.
A mostra reúne pinturas sobre tela e papel, além de montagens abstratas produzidas entre 2019 e 2026. São trabalhos que atravessam diferentes momentos da trajetória do artista, mas permanecem conectados por uma investigação contínua sobre luz e cor. “O meu trabalho é sobre cor, que vai se desdobrando em temas”, resume Ítalo.

O retorno a Natal não acontece apenas como reencontro afetivo. A exposição surge também como tentativa de fortalecer o circuito cultural da cidade e criar novas conexões com agentes da cena contemporânea local. A parceria com o Margem Hub foi viabilizada pela Lei Aldir Blanc e estabelece, segundo o artista, uma possibilidade de diálogo com novos espaços de produção e circulação artística na capital.
A última individual de Ítalo em Natal aconteceu há exatos 20 anos. Na época, a pesquisa já orbitava pinturas sobre tela e papel. Em “Chuva de Pólens”, entretanto, a investigação ganha novas materialidades. Parte significativa das obras utiliza resíduos de pratos e vasos plásticos reaproveitados em composições abstratas. Antes de integrar cada trabalho, os fragmentos passam por um processo minucioso: são pintados, recortados e incorporados como estruturas de tradução de luz e cor.
Nada parece casual. Há precisão quase arquitetônica na maneira como os elementos se organizam sobre a superfície. Talvez porque, antes da pintura, tenha existido o desenho geométrico.
Ítalo cresceu entre referências aparentemente distantes, mas que mais tarde se encontrariam em sua produção artística. O pai, engenheiro agrônomo, alimentava a observação da fauna e da flora. A mãe introduzia outra dimensão da manualidade: os bordados, o corte e costura, o rigor do acabamento. Ainda menino, o artista desenhava aquilo que observava ao redor.
Anos depois, da sala de aula da Escola Técnica ao exame de aptidão para o curso de Arquitetura da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, o cálculo e a geometria consolidaram uma espécie de gramática visual que atravessa sua obra até hoje. O desenho técnico não apareceu como limite racional da criação, mas como instrumento para organizar aquilo que a natureza oferecia de mais instável: a luz.
Essa relação entre precisão e percepção atravessa toda a exposição. Em vez de representar diretamente objetos ou paisagens, Ítalo parece interessado no instante anterior ao reconhecimento das formas. “Eu tirei o objeto, só olhei cor”, reflete o artista sobre o processo presente em “Chuva de Pólens”.
O resultado são trabalhos que operam quase como campos atmosféricos. Fragmentos cromáticos, transparências, sobreposições e ritmos geométricos produzem imagens que sugerem paisagens sem necessariamente descrevê-las. A memória visual do Tirol permanece ali — assim como as experiências acumuladas no Rio de Janeiro e em Minas Gerais —, mas convertida em vibração cromática.
Mesmo quando muda a escala ou o suporte, o núcleo da pesquisa permanece intacto. “Meu trabalho permanece em diferentes escalas, seja qual for a dimensão da obra”, afirma o artista, ao lembrar da exposição “Espectrocromo”, responsável por abrir as portas da galeria fundada por Hélio Oiticica no Rio de Janeiro.
Há, em “Chuva de Pólens”, uma sensação de retorno que não se apoia na nostalgia. O artista que volta a Natal duas décadas depois não revisita exatamente o passado. Ele parece interessado em observar o que permaneceu: a insistência da cor, a arquitetura invisível da luz e a possibilidade de transformar matéria descartada em superfície sensível.