As próximas grandes transformações tecnológicas do agronegócio brasileiro devem vir de fora do próprio setor. A avaliação é de Marcos Jank, professor de agronegócios globais do Insper, que vê ferramentas como inteligência artificial, big data e nanotecnologia como os principais motores da nova fase de inovação no campo.
“Nas primeiras fases do desenvolvimento do agro, isso vinha de dentro do setor, com novas variedades de soja e novos processos. Daqui para a frente, as maiores inovações vão vir de fora do agro. Será de fora para dentro”, afirma.

Segundo Jank, a trajetória recente do agronegócio brasileiro é marcada por um processo consistente de modernização tecnológica que permitiu ao país se tornar um dos principais atores do comércio agrícola global. Hoje, o Brasil é grande exportador de produtos como soybean, corn, cotton, carne e ovos, com vendas para cerca de 200 países.
Parte desse avanço se consolidou a partir dos anos 1970, com a criação da Embrapa e o fortalecimento de centros de pesquisa agrícola. O trabalho permitiu adaptar cultivos às condições tropicais, com correção de solos ácidos e desenvolvimento de variedades mais produtivas.
Esse conjunto de inovações abriu caminho para a expansão da produção agrícola para o Centro-Oeste e para a difusão de sistemas como o plantio direto e a integração lavoura-pecuária, considerados marcos da modernização do campo brasileiro.
Os ganhos de produtividade foram expressivos. Segundo Jank, a agricultura brasileira registrou crescimento médio anual de produtividade de 3,2% nos últimos 25 anos — mais que o dobro da média mundial, estimada em 1,5%, e muito acima do desempenho dos Estados Unidos, de cerca de 1% ao ano.
“O Brasil hoje é o quarto maior produtor mundial e o terceiro maior exportador de alimentos. Quando se olha apenas para commodities cotadas em bolsa, já somos o número um, superando os Estados Unidos”, afirma.
Apesar do avanço tecnológico, o especialista aponta desafios estruturais para o setor, especialmente na área ambiental. Para ele, o principal obstáculo para ampliar exportações para mercados mais exigentes, como o europeu, é o combate ao desmatamento ilegal.
A European Union tem avançado em regras que exigem rastreabilidade de cadeias produtivas e comprovantes de que produtos agrícolas não estejam associados à derrubada de florestas.
“O nosso problema é o desmatamento ilegal. Ele caiu nos últimos anos, mas ainda é elevado e está associado a grilagem de terras e criminalidade. Precisamos combater isso porque fere a própria legislação brasileira”, afirma.
Outro desafio é a conectividade no campo. O avanço de máquinas automatizadas, agricultura de precisão e sistemas baseados em dados exige acesso mais amplo à internet nas áreas rurais.
Além das questões tecnológicas e ambientais, Jank também destaca riscos geopolíticos que podem afetar o agronegócio brasileiro. Um deles é a forte dependência do país de fertilizantes importados — cerca de 85% a 90% do total consumido no país.
Grande parte desses insumos vem da Russia, além de fornecedores da China e do Middle East, o que torna a cadeia de produção sensível a tensões internacionais.
Outro fator de atenção é a reconfiguração do comércio global a partir da disputa econômica entre United States e China. A guerra tarifária entre as duas potências ampliou a presença do Brasil no mercado chinês, especialmente em commodities agrícolas.
Para Jank, no entanto, essa concentração também representa risco. O governo do presidente Donald Trump tem adotado uma estratégia agressiva de tarifas comerciais e já iniciou investigações sobre as relações comerciais entre Brasil e China.
“O Brasil acabou ganhando espaço no mercado chinês, mas essa não é uma disputa apenas de commodities agrícolas, é uma guerra hegemônica”, diz.
Jank e a consultora Ana Paula Malvestio serão curadores da trilha de agronegócio no São Paulo Innovation Week, que será realizado de 12 a 15 de maio na Mercado Livre Arena Pacaembu e na FAAP.
O evento reunirá executivos, pesquisadores e empreendedores para discutir tendências tecnológicas e os impactos da inovação na economia, incluindo o futuro do agronegócio brasileiro em um cenário de rápidas transformações tecnológicas e geopolíticas.