O avanço da inteligência artificial já impacta de forma significativa as campanhas eleitorais de 2026, promovendo mudanças profundas na forma como candidatos e equipes se comunicam com o eleitorado. Com o uso dessas tecnologias, mensagens são cada vez mais direcionadas a públicos específicos, enquanto estratégias tradicionais, como pesquisas qualitativas, começam a ser substituídas por modelos digitais de simulação.
Equipes de campanha passaram a utilizar recursos capazes de segmentar o público com alto nível de precisão. Em alguns casos, estruturas dedicadas exclusivamente ao impulsionamento digital chegam a reunir dezenas de profissionais, operando sistemas que permitem, por exemplo, adaptar discursos para perfis muito específicos — como mulheres de determinada região e com características socioeconômicas definidas.

Além disso, softwares baseados em inteligência artificial monitoram reações nas redes sociais em tempo real. Esse processo, conhecido como “sentimentalização”, analisa como conteúdos repercutem entre os usuários, classificando milhões de perfis e identificando padrões de comportamento, preferências e rejeições. A partir desses dados, campanhas ajustam rapidamente suas estratégias.
Apesar da automação, marqueteiros ressaltam que o contato humano segue essencial. Há consenso de que eleitores tendem a rejeitar interações exclusivamente mediadas por robôs, o que mantém a importância de equipes dedicadas ao relacionamento direto.
A tecnologia também vem sendo usada para análises rápidas de cenários políticos. Em um dos casos relatados, uma campanha conseguiu, em poucos segundos, mapear nas redes sociais os principais apoiadores e críticos de um episódio envolvendo o pré-candidato Romeu Zema, além de identificar argumentos predominantes e sugerir respostas estratégicas.
Outro avanço está no treinamento de sistemas com base em discursos, entrevistas e conteúdos públicos de candidatos e adversários. Isso permite que a inteligência artificial reproduza estilos de comunicação e auxilie na elaboração de roteiros e peças publicitárias. “A IA vai ‘aprendendo’ o tom do discurso do candidato, suas expressões, como ele se posiciona em relação a temas”, afirma Nara Alves, sócia-diretora da Ela Marketing Político.
Com isso, campanhas conseguem testar variações de abordagem — mais irônicas, técnicas ou agressivas — e medir, por meio de ferramentas de monitoramento, quais geram melhor engajamento. Para Bruno Bernardes, da agência PLTK, “a IA vem revolucionando cada processo das campanhas, da criação de conteúdo à segmentação de mensagens e mobilização de apoiadores”.
Embora os chamados deepfakes — vídeos ou áudios manipulados que simulam falas e imagens — estejam proibidos pela Justiça Eleitoral, eles seguem como preocupação central. Episódios recentes em outros países demonstraram o potencial de desinformação dessas ferramentas, especialmente quando conteúdos falsos circulam sem vínculo direto com campanhas oficiais.
Especialistas avaliam que a disseminação de conteúdos manipulados, muitas vezes por meio de contas falsas, deve ser um dos principais desafios do processo eleitoral. O uso de inteligência artificial nesses casos pode ampliar o alcance e a velocidade de circulação dessas mensagens.
Nos bastidores, porém, é na produção de conteúdo que a tecnologia tem provocado maior transformação. Peças que antes levavam dias para serem finalizadas agora podem ser produzidas em poucas horas, com uso de imagens geradas por IA e narrações totalmente sintéticas.
A regulamentação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) estabelece que conteúdos manipulados devem ser identificados e impõe restrições mais severas em períodos próximos à votação. Ainda assim, há dúvidas jurídicas sobre o uso de determinadas ferramentas, especialmente na personalização de mensagens com adaptação de áudio e vídeo.
Enquanto alguns especialistas consideram esse tipo de recurso admissível, desde que transparente e autorizado, outros entendem que pode se enquadrar como uso indevido de conteúdo sintético. A legislação proíbe a utilização de IA para criar ou alterar imagem e voz de pessoas com objetivo de influenciar candidaturas.
Outra inovação é o uso dos chamados “eleitores sintéticos”, perfis digitais construídos a partir de dados reais para simular comportamentos de segmentos específicos. Esses modelos permitem testar mensagens e antecipar reações, funcionando como alternativa mais acessível às pesquisas tradicionais, que costumam ter custo elevado.