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Hyundai

Greve pressiona produção da Hyundai

Funcionários paralisam linhas por três dias, cobram participação maior nos lucros e exigem garantias contra impactos da inteligência artificial e da automação
Por O Correio de Hoje
15/07/2026 | 13:26

Os trabalhadores da Hyundai Motor iniciaram nesta terça-feira 14 uma greve parcial de três dias na Coreia do Sul, elevando a pressão sobre a maior montadora do país em meio ao impasse nas negociações salariais e ao avanço da automação industrial. A paralisação ocorre após o fracasso da última rodada de negociações entre empresa e sindicato e combina reivindicações tradicionais, como reajustes salariais e bônus maiores, com novas demandas relacionadas à inteligência artificial e ao uso de robôs humanoides nas fábricas.

A greve prevê a interrupção das atividades duas horas antes do fim de cada turno até quinta-feira, 16. Enquanto a mobilização prossegue, representantes do sindicato e da empresa mantêm negociações reservadas e uma nova reunião entre as partes está prevista para quinta-feira 16, quando poderão ser discutidos os próximos passos do movimento.

Hyundai CS
Funcionários da Hyundai querem melhorias salariais e a garantia de que não serão substítuídos por robôs na produção - Foto: ricardo stuckert / pr

O principal ponto de conflito é a reivindicação histórica do sindicato para que os trabalhadores recebam um bônus por desempenho equivalente a 30% do lucro líquido consolidado do ano anterior. Durante décadas tratada pela empresa como uma posição inicial de negociação, a proposta ganhou força após Samsung Electronics e SK Hynix concederem bônus expressivos aos funcionários, permitindo que compartilhassem os ganhos obtidos com a expansão da demanda por semicondutores impulsionada pela inteligência artificial.

Além da participação maior nos lucros, os trabalhadores reivindicam aumento do bônus regular de 750% para 800% do salário mensal, reajuste de 149.600 wons no salário-base — cerca de US$ 100 —, adoção de um sistema de salário mensal integral e ampliação da idade de aposentadoria de 60 para 65 anos.

As negociações também refletem as transformações tecnológicas enfrentadas pela indústria automobilística. A Hyundai pretende iniciar, a partir de 2028, a utilização do robô humanoide Atlas em fábricas nos Estados Unidos para executar tarefas repetitivas, como separação e preparação de componentes, antes de expandir sua atuação para operações de montagem mais complexas até 2030.

Diante desse cenário, o sindicato exige que qualquer implantação dos robôs seja precedida por negociações formais que garantam a segurança da renda dos empregados. A entidade também defende mecanismos capazes de preservar os salários fixos caso a automação reduza a carga horária de trabalho humano.

Na última rodada de negociações, realizada na semana passada, a Hyundai ofereceu aumento de 89 mil wons no salário-base, bônus equivalente a 350% do salário mensal, pagamento único de 10 milhões de wons e distribuição de 15 ações da companhia. A proposta foi rejeitada pelo sindicato, que a classificou como insuficiente diante dos resultados financeiros da empresa e das expectativas dos trabalhadores.

O impacto econômico da paralisação pode ser elevado. Segundo a agência sul-coreana Yonhap News, cada hora de interrupção da produção pode gerar perdas superiores a 18,7 bilhões de wons. Em uma greve parcial semelhante realizada no ano passado, 16 horas de paralisações escalonadas reduziram a produção em aproximadamente 7 mil veículos e provocaram perdas superiores a 300 bilhões de wons em receitas.

A preocupação do mercado decorre da posição estratégica da Coreia do Sul na operação global da montadora. O país responde por quase metade das vendas mundiais da Hyundai e produz anualmente mais de 1 milhão de veículos destinados à exportação. Uma interrupção prolongada nas fábricas sul-coreanas pode afetar rapidamente o abastecimento de concessionárias e a cadeia internacional de suprimentos da empresa.

A Hyundai não divulgou estimativas sobre o impacto imediato da greve. Em comunicado distribuído antes do início da paralisação, o chefe da produção doméstica da companhia, Choi Yeong Il, afirmou que parte das reivindicações sindicais é desproporcional e criticou o uso de greves como instrumento para ampliar a participação dos trabalhadores nos lucros.

“As greves anteriores não produziram nada além de perdas irreversíveis de produção, redução dos salários dos trabalhadores e duras críticas de nossos clientes e do público”, afirmou o executivo. Segundo ele, a empresa não pretende fazer novas concessões nem compensará os salários descontados em razão da paralisação.

O impasse evidencia como a rápida incorporação de inteligência artificial e robótica à indústria de manufatura passou a influenciar as negociações trabalhistas. Além da remuneração, sindicatos de grandes empresas começam a incorporar cláusulas voltadas à preservação do emprego e da renda em um cenário de crescente automação das linhas de produção.