O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) anunciou, nesta quinta-feira 16, o reforço do programa “Brasil Soberano”, que oferece linhas de crédito para empresas exportadoras afetadas pelas medidas comerciais adotadas pelos Estados Unidos. A iniciativa é uma resposta à nova tarifa de 25% imposta pelo governo de Donald Trump sobre parte dos produtos brasileiros, com entrada em vigor prevista para a próxima terça-feira 22.
Segundo estimativas do governo federal, a nova sobretaxa atingirá cerca de 18% das exportações brasileiras destinadas ao mercado americano, o equivalente a aproximadamente US$ 7,4 bilhões com base no volume exportado em 2024.

Além do reforço nas linhas de financiamento, o governo informou que avaliará a adoção da Lei da Reciprocidade Econômica, instrumento que permite ao Brasil responder a barreiras comerciais consideradas injustificadas. A decisão caberá ao presidente Lula.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, classificou as medidas americanas como uma “interferência externa indevida” e afirmou que integrantes da oposição utilizam o tema como “muleta eleitoral”. Já o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) voltou a criticar o tarifaço, classificando-o como “injusto e descabido”. Ele registrou que os Estados Unidos mantêm superávit comercial na relação com o Brasil e as justificativas apresentadas por Washington, como críticas ao Pix, não se sustentam.
Em nota, a Presidência da República afirma que “o dia 15 de julho de 2026 passará para a história das relações entre Brasil e EUA como um marco lastimável” e sustenta que “não há justificativa para medidas unilaterais contra o País”. O texto também destaca que, segundo dados do próprio governo americano, os Estados Unidos acumularam superávit de US$ 424,5 bilhões na balança de bens e serviços com o Brasil nos últimos 15 anos.
O governo brasileiro também contestou as alegações apresentadas pelos Estados Unidos sobre temas como o Pix, a regulação das plataformas digitais e a política ambiental brasileira, afirmando que todas essas questões já haviam sido discutidas durante as negociações entre os dois países.
Mais de 2 mil produtos ficam isentos
Embora a nova tarifa alcance cerca de 4 mil produtos brasileiros, o Escritório do Representante do Comércio dos Estados Unidos (USTR) ampliou a lista de exceções após receber manifestações de empresas e entidades do setor produtivo durante consultas públicas. Ao todo, mais de 2.100 produtos ficaram isentos da nova cobrança de 25%.
Entre os itens excluídos, estão pescados (frutos do mar), ferro-gusa, café solúvel sem adição de sabor, mel orgânico, hidróxido de alumínio, sucata de ferro e aço, couros, alguns produtos de madeira, medicamentos, insumos farmacêuticos, antiguidades e obras de arte. Também permanecem fora da nova tarifa carne bovina, café, laranja, suco de laranja e peças utilizadas na fabricação de aeronaves, produtos considerados estratégicos para a pauta exportadora brasileira.
Segundo o governo americano, essas exceções foram mantidas porque muitos desses produtos são insumos importantes para a indústria dos Estados Unidos, possuem baixa oferta interna ou são de difícil substituição. Na avaliação do USTR, a cobrança da tarifa poderia provocar aumento de custos para empresas americanas e desorganizar cadeias produtivas no país.
Histórico das tarifas
A disputa comercial entre Brasil e Estados Unidos começou em abril de 2025, quando o presidente Donald Trump anunciou as chamadas tarifas recíprocas. Na ocasião, foi aplicada uma taxa adicional de 10% sobre produtos brasileiros importados pelos EUA, sob o argumento de reduzir o déficit comercial americano.
Em junho de 2025, o governo americano endureceu as medidas ao elevar para 50% as tarifas incidentes sobre aço e alumínio, com base na Seção 232 da legislação americana, mecanismo utilizado por razões de segurança nacional e distinto das tarifas recíprocas.
No mês seguinte, julho de 2025, Trump anunciou uma nova sobretaxa de 40% sobre diversos produtos brasileiros, elevando a carga tarifária total de parte das exportações para 50%. Apesar do aumento, a medida veio acompanhada de uma ampla lista de exceções.
Já em novembro de 2025, após o início de negociações diretas entre Trump e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), os Estados Unidos recuaram parcialmente e retiraram a sobretaxa de 40% para novos grupos de produtos, entre eles café, carnes e frutas.
A situação mudou novamente em 20 de fevereiro de 2026, quando a Suprema Corte dos Estados Unidos considerou ilegal o uso da Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA) para impor tarifas comerciais de forma ampla. Com a decisão, deixaram de valer tanto a tarifa recíproca de 10% criada em abril de 2025 quanto a sobretaxa de 40% aplicada posteriormente ao Brasil. As tarifas sobre aço e alumínio permaneceram em vigor porque foram impostas com base na Seção 232, que não foi afetada pela decisão judicial.
No mesmo dia, Trump editou um novo decreto instituindo uma tarifa global temporária de 10%, válida por 150 dias, com fundamento em um dispositivo da Lei de Comércio de 1974. Essa taxa passou a incidir sobre importações de todos os países e permaneceu em vigor até o anúncio da nova rodada de tarifas.
Assim, em 22 de julho de 2026, quando entrar em vigor a nova sobretaxa de 25% sobre parte dos produtos brasileiros, haverá um período de sobreposição entre as duas medidas: a tarifa global de 10%, ainda vigente, e a nova cobrança de 25%. Como a tarifa temporária de 10% expira entre o fim de julho e o início de agosto, ela deixará de ser aplicada, permanecendo apenas a nova alíquota de 25% para os produtos atingidos pela medida.
Flávio atribui tarifaço a Lula e rebate críticas do PT
Pré-candidato à Presidência da República, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) responsabilizou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pela nova rodada de tarifas anunciada pelos Estados Unidos contra produtos brasileiros.
Em publicação nas redes sociais, Flávio compartilhou uma mensagem do secretário de Estado americano, Marco Rubio, segundo a qual Lula teria colocado “o próprio ego” acima das negociações com os Estados Unidos. Ao repercutir a declaração, o senador escreveu: “Lula não tem mais condições de ser o presidente do Brasil. Estamos num avião sem piloto”.
A manifestação ocorre em meio às críticas do PT, que tenta associar Flávio às medidas adotadas pelo governo Donald Trump. Integrantes do partido passaram a usar o termo “Tariflávio” para responsabilizar o senador pelas sanções comerciais e classificá-lo como “traidor da pátria”.
Desde o lançamento de sua pré-candidatura ao Palácio do Planalto, o senador já esteve seis vezes nos Estados Unidos, em uma estratégia de aproximação com o governo Trump. Ao mesmo tempo, busca afastar sua imagem do tarifaço, medida que enfrenta resistência entre o eleitorado e que foi apoiada no ano passado por seu irmão, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL).
Também pelas redes sociais, Flávio afirmou que esteve nos Estados Unidos “tentando evitar o tarifaço” e acusou o governo brasileiro de não participar das negociações. “Enquanto eu estava nos EUA tentando evitar o tarifaço, Lula preferiu provocar Trump. O Brasil sequer enviou representantes para defender os nossos interesses. Quem paga essa conta é o povo brasileiro! Defenda o Brasil do PT, o Partido do Tarifaço”, escreveu.
Na mensagem compartilhada pelo senador, Marco Rubio afirmou que “o presidente Lula e seu governo não negociaram com os EUA de boa-fé”. Segundo o secretário de Estado americano, “suas políticas econômicas são ruins para os americanos e ruins para os brasileiros”.