O avanço dos carros eletrificados no Rio Grande do Norte deixou de ser tratado apenas como curiosidade tecnológica ou opção restrita a um público de alto poder aquisitivo. Na avaliação da Geely Redenção, em Natal, os veículos híbridos, plug-in e elétricos já entraram em uma nova etapa do mercado local: passaram a ser considerados por famílias que buscam economia, tecnologia, conforto e menor custo de uso no dia a dia. A mudança, segundo a concessionária, não altera apenas o tipo de carro vendido, mas também a forma de atender, explicar, treinar equipes, preparar oficina e construir confiança no pós-venda.
O gerente da concessionária Geely Redenção em Natal, Ítalo Rodrigo Andrade de Lima, afirma que o crescimento dos eletrificados no mercado potiguar tem sido “impressionante” e segue uma curva acelerada. Segundo ele, a operação emplacou, apenas no varejo, sem venda direta, 282 carros em abril, resultado considerado recorde pela concessionária.

“Se há dois ou três anos o carro eletrificado era visto em Natal apenas como um artigo de nicho ou um segundo carro de luxo, em 2026 ele consolidou-se como escolha principal de muitas famílias potiguares”, afirma Ítalo.
A avaliação local acompanha um movimento nacional de expansão. Segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico, o Brasil fechou 2025 com 223.912 veículos leves eletrificados vendidos, alta de 26% em relação ao ano anterior. O crescimento foi muito superior ao do mercado total de veículos leves, que avançou 2,6% no mesmo período.
No Rio Grande do Norte, dados do Departamento Estadual de Trânsito (Detran) apontam que, ao todo, são 6.089 veículos movidos exclusivamente por energia elétrica registrados no Estado. O Estado contabiliza ainda 5.301 veículos híbridos em circulação, considerando diferentes tecnologias de motorização.
Para a Geely Redenção, esse cenário ajuda a explicar por que o consumidor potiguar passou a incluir os eletrificados no processo real de compra, e não apenas como objeto de comparação ou curiosidade.
Ítalo atribui esse avanço a dois fatores principais: a chegada de novas tecnologias de bateria com melhor custo-benefício e a percepção de economia no uso diário. No RN, diz ele, o consumidor começa muitas vezes pelos híbridos convencionais, por familiaridade, mas a virada de chave tem ocorrido na busca por híbridos plug-in e elétricos puros. A manutenção de incentivos locais, como a política de IPVA menor para elétricos em comparação aos veículos a combustão, também aparece como elemento de estímulo à decisão de compra.

“O interesse é real, maduro e diário no showroom. O cliente de Natal chega muito bem informado, mas ainda traz barreiras culturais que desmistificamos no atendimento”, diz o gerente.
As dúvidas mais frequentes ainda giram em torno de autonomia, infraestrutura de recarga, instalação de carregador residencial, durabilidade da bateria e valor de revenda. Segundo Ítalo, há perguntas recorrentes sobre viagens para destinos como Pipa e interior do estado, além da preocupação com a possibilidade de instalar wallbox em prédios residenciais de bairros como Tirol, Petrópolis e Ponta Negra.
A resposta da concessionária, segundo ele, passa por transformar a venda em uma espécie de consultoria. O vendedor não pode mais se limitar a falar de preço, potência, design ou condição comercial. Precisa explicar bateria, potência de carregamento, autonomia real, tipos de recarga, uso urbano, viagens, garantia e até aspectos básicos de instalação elétrica residencial.
“A mudança foi estrutural. Vender um veículo eletrificado exige consultoria, não apenas comercialização tradicional”, afirma Ítalo.
Essa mudança também alcança a oficina. De acordo com o gerente, a mecânica pesada cede espaço crescente à eletroeletrônica e à tecnologia da informação. A oficina da concessionária foi reequipada com ferramentas isoladas para sistemas de alta tensão, e o diagnóstico passou a ser quase totalmente digital, com uso de softwares conectados capazes de fazer leitura de módulos e células de bateria. O pós-venda, diz ele, também mudou de natureza.
“Hoje, o carro recebe atualizações de software em nuvem. O pós-venda tornou-se preditivo; conseguimos identificar anomalias no sistema de gerenciamento térmico da bateria antes mesmo de o cliente perceber qualquer sintoma no painel”, afirma.
No plano nacional, a Geely também se movimenta para ampliar presença em segmentos que combinam eletrificação e transição tecnológica. A marca já apresentou no Brasil o EX5 EM-i, híbrido plug-in que, de acordo com a própria Geely Brasil, será inicialmente importado e também será o primeiro veículo da marca produzido no País em 2026, no Complexo Industrial Ayrton Senna, em São José dos Pinhais, no Paraná. Para a operação potiguar, esse tipo de produto reforça a tendência de crescimento dos SUVs compactos e médios eletrificados, especialmente aqueles que entregam alta conectividade, autonomia competitiva e preço capaz de disputar com modelos a combustão tradicionais.
Ítalo avalia que o grande motor do mercado em 2026 será a democratização de tecnologias antes restritas a veículos de luxo. Entre elas, cita as baterias de LFP, de fosfato de ferro-lítio, e soluções que ampliam segurança, vida útil e capacidade de recarga. Na prática, afirma, o consumidor começa a comparar o eletrificado não apenas pelo apelo ambiental, mas pelo conjunto de economia, desempenho, conectividade e custo de uso.
Para a Geely Redenção, o Rio Grande do Norte reúne condições para se tornar uma praça importante na aceitação dos eletrificados no Nordeste. Um dos pontos citados pelo gerente é a ligação natural entre eletrificação e a matriz energética do Estado. O RN é um dos principais produtores de energia renovável do País.
“Há uma sinergia de narrativa. O consumidor potiguar entende que o estado gera energia limpa em abundância. Abastecer um carro elétrico aqui significa consumir a energia renovável gerada no próprio quintal”, afirma.
O desafio, no entanto, não é apenas vender tecnologia. Para uma marca nova, especialmente em um segmento que envolve bateria, software, garantia e pós-venda, a confiança precisa ser construída de forma concreta. Ítalo diz que a concessionária trabalha esse ponto em quatro frentes: garantia estendida de fábrica, presença física estruturada, test-drive e transparência sobre a segurança da bateria.
Segundo ele, contratos longos de garantia, geralmente de oito anos para a bateria de tração, reduzem a percepção de risco. A estrutura local da Redenção, com oficina completa, peças de reposição e profissionais treinados, também pesa na decisão. O test-drive, afirma, costuma ser decisivo porque permite ao cliente experimentar silêncio, desempenho, estabilidade do software e economia por quilômetro rodado.
“A confiança não é imposta, é construída através de evidências e infraestrutura local sólida”, diz Ítalo.