BUSCAR
BUSCAR
Política

Federação União-PP se aproxima de Flávio

Rejeição de Jorge Messias ao STF tensiona relação com Alcolumbre e altera cenário eleitoral
Por O Correio de Hoje
04/05/2026 | 18:14

A rejeição do nome de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal (STF), considerada uma derrota expressiva para o governo, agravou a crise entre o Palácio do Planalto e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP). Apontado como peça central no revés, o senador passou a ser visto, tanto por governistas quanto por oposicionistas, como mais próximo de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), adversário direto de Luiz Inácio Lula da Silva na corrida presidencial. A avaliação, nos bastidores, é que essa movimentação pode influenciar diretamente a configuração dos palanques a poucos meses das eleições.

Ao atuar para barrar o atual chefe da Advocacia-Geral da União (AGU), Alcolumbre também teria dificultado, na visão de aliados do governo, as tentativas de aproximação do presidente com lideranças da federação União Brasil-PP. Dirigentes dessas siglas já consideram que o novo contexto pode levá-las a apoiar Flávio, ainda que a neutralidade permaneça como alternativa diante do cenário polarizado indicado pelas pesquisas.

Ciro Nogueira foto Jefferson Rudy Senado
Presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), e senador Ciro Nogueira (PP-PI), integrantes da federação União-PP Foto: Jefferson Rudy / Senado

Desde a votação que resultou na rejeição de Messias, Alcolumbre tem negado qualquer articulação contra o governo e sustenta que apenas cumpriu seu papel institucional como presidente do Senado. No entorno de Lula, porém, há quem aposte na recuperação de popularidade do presidente como estratégia para convencer partidos de que sua reeleição representaria uma opção mais segura do que uma aliança com o grupo bolsonarista.

Mesmo assim, integrantes do governo discutem formas de pressionar Alcolumbre, incluindo iniciativas para desgastar sua imagem perante a opinião pública. No fim do ano passado, o presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI), chegou a se reunir com Lula na Granja do Torto para discutir uma possível neutralidade eleitoral, conforme noticiado pela Folha de S.Paulo — encontro que ele nega. Atualmente, no entanto, cresce entre dirigentes da federação a percepção de que o alinhamento com Flávio Bolsonaro é o desfecho mais provável.

Antes de uma definição, o ponto central de debate envolve o espaço político que União Brasil e PP teriam em um eventual novo governo da família Bolsonaro. Em 2019, após a eleição de Jair Bolsonaro, Flávio teve papel relevante ao apoiar a vitória de Alcolumbre na presidência do Senado, considerada inesperada à época.

Caso a aliança se confirme para 2026, Flávio Bolsonaro passaria a contar com maior fatia do fundo eleitoral e mais tempo de propaganda em rádio e televisão do que Lula. Outro efeito potencial recairia sobre Minas Gerais, um dos maiores colégios eleitorais do país.

Dentro do governo, também há desconfiança em relação ao ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco (PSB-MG), nome que Alcolumbre defendia para o STF. Parte dos aliados de Lula avalia que Pacheco teve influência na derrota de Messias e já questiona sua viabilidade como candidato ao governo mineiro com apoio do Planalto.

A relação entre Alcolumbre, Pacheco e o governo federal tem sido marcada por oscilações. Além da não indicação de Pacheco ao STF, outro fator de desgaste envolve o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, secretário-geral do PSD. Antes aliado dos dois senadores, Silveira rompeu com ambos em meio a disputas por espaços no governo.

Aliados de Pacheco criticam o fato de Silveira permanecer no PSD mesmo após o partido optar por apoiar a candidatura do atual governador de Minas, Mateus Simões, ligado ao ex-governador Romeu Zema (Novo) e adversário político de Pacheco. O ministro, inclusive, fez declarações públicas favoráveis a Simões, o que ampliou o desconforto.

Há ainda a avaliação de que o governo incentivava Pacheco a disputar o governo de Minas, mas não conseguiu controlar a atuação de Silveira dentro da própria base. No Amapá, reduto de Alcolumbre, o PSD também surge como adversário relevante, com a filiação do ex-prefeito de Macapá Doutor Furlan, pré-candidato ao governo estadual, ameaçando a reeleição de Clécio Luís (União), aliado do presidente do Senado.

Embora seu mandato vá até 2030, Alcolumbre pode enfrentar um cenário mais adverso no Senado, com a possível eleição de nomes como Lucas Barreto (PSD) e Rayssa Furlan (Podemos), que lideram pesquisas e podem se tornar seus colegas de bancada.

Apesar das tensões, parte do PT avalia que não é o momento de romper com Alcolumbre. O senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), líder do governo no Congresso e aliado do presidente do Senado em seu estado, afirma que a relação com o Planalto “continua a mesma, institucional”.

Alcolumbre mantém forte influência na estrutura do Executivo. Indicações ligadas ao União passaram por sua articulação, inclusive em momentos em que o partido ameaçou deixar a base. Para preservar esses espaços, foi acertado que indicados próximos ao senador se desvinculariam formalmente das legendas.

O presidente do Senado também participou da definição de nomes para os ministérios da Integração Nacional, Comunicações e Turismo — este último dividido com o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB). Além disso, mantém influência em cargos nos Correios, Codevasf, agências reguladoras e na Telebras.

Mesmo sem um rompimento formal, o governo ainda trata com cautela a possibilidade de rever essas indicações. Aliados de Lula defendem uma reação mais firme, mas avaliam que uma retirada imediata de todos os cargos poderia acirrar ainda mais o conflito político.