O Rio Grande do Norte e o Brasil precisam avançar para além da geração de energia renovável e transformar seu potencial energético em indústria, empregos e desenvolvimento econômico. A avaliação é do professor Mario González, doutor em Engenharia de Produção e coordenador do Brazil Offshore Wind & Power-to-X (BOWPX), evento que teve início nesta segunda-feira 1º em Natal.
Ao abrir os trabalhos do evento, que reúne representantes do governo, universidades, setor produtivo, instituições financeiras e especialistas nacionais e internacionais, González afirmou que o país vive uma oportunidade estratégica para converter sua liderança em energias renováveis em uma nova etapa de industrialização sustentável.

“Estamos diante de uma oportunidade histórica. O Brasil já demonstrou capacidade de gerar energia renovável em larga escala. Agora o desafio é transformar esse potencial em desenvolvimento industrial, emprego, renda e descarbonização”, afirmou.
O congresso — que será realizado até quarta-feira 3 no Serhs Natal Grand Hotel & Resort, na Via Costeira — tem como foco os debates sobre energia eólica offshore, hidrogênio verde e tecnologias Power-to-X, conjunto de processos que utilizam energia renovável para produzir combustíveis, fertilizantes e outros insumos industriais de baixo carbono. Ao longo de três dias, especialistas do Brasil, Dinamarca, Holanda, Bélgica, Reino Unido, Japão, País Basco, Filipinas e Colômbia discutirão temas como regulação, financiamento, infraestrutura, inovação tecnológica e neoindustrialização. Inscrições ainda podem ser realizadas na página do grupo de pesquisa Creation, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

A avaliação predominante entre os participantes é que o Brasil reúne condições consideradas privilegiadas para liderar a nova economia de baixo carbono. A combinação de uma matriz elétrica majoritariamente renovável, grande disponibilidade de recursos eólicos e solares e localização estratégica para exportações coloca o Nordeste entre as regiões mais competitivas do mundo para a produção de hidrogênio verde, combustíveis sintéticos, fertilizantes verdes e outros produtos de maior valor agregado.
Durante a cerimônia, a governadora Fátima Bezerra (PT) destacou que o Rio Grande do Norte já ocupa posição de liderança nacional na geração de energia eólica e defendeu que o próximo passo é garantir que os benefícios econômicos dessa produção permaneçam no Estado. “Não basta produzir energia. Essa energia precisa gerar empregos, renda, industrialização e oportunidades para o nosso povo”, declarou.
A governadora destacou que mais de 95% da matriz elétrica potiguar é formada por fontes limpas e renováveis. Ela também apresentou o projeto do Porto-Indústria Verde como uma das principais apostas para atrair investimentos voltados à produção de hidrogênio verde, amônia verde, fertilizantes e combustíveis sustentáveis.
A construção do marco regulatório da energia eólica offshore foi outro tema central da abertura. Representando o Ministério de Minas e Energia, a diretora do Departamento de Transição Energética, Karina Souza, afirmou que o governo federal trabalha para estruturar um ambiente de segurança jurídica capaz de viabilizar os primeiros empreendimentos em alto-mar.
“O setor offshore não está sendo construído sozinho. Estamos trabalhando com universidades, setor privado, órgãos públicos e sociedade para criar bases sólidas para essa nova indústria”, afirmou.
O papel do financiamento para a expansão do setor também foi abordado durante o evento. O superintendente estadual do Banco do Nordeste, Jeová de Lins Sá, apresentou números que demonstram a dimensão dos investimentos realizados pela instituição.
Segundo ele, o banco destinou R$ 10,75 bilhões para projetos de energias renováveis em 2025. Desse total, aproximadamente R$ 1,45 bilhão foi aplicado no Rio Grande do Norte. “As renováveis serão um dos grandes motores do desenvolvimento do Nordeste. O banco continuará financiando tanto os grandes projetos estruturantes quanto os empreendimentos que fortalecem a economia regional”, afirmou.
O presidente do Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia (Cerne), Darlan Santos, defendeu que o Nordeste precisa dar um novo passo após consolidar sua posição como produtor de energia renovável. Para ele, o desafio agora é utilizar essa vantagem competitiva para atrair novas cadeias produtivas e atividades industriais.
Representando a Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Norte (Fiern), Etelvino Patrício ressaltou as iniciativas voltadas à qualificação profissional e à preparação da indústria para receber empreendimentos intensivos em consumo energético. Já o diretor técnico do Sebrae-RN, Robson Lopes, destacou a necessidade de inserir micro e pequenas empresas nas cadeias produtivas ligadas às energias renováveis.
O reitor da UFRN, Daniel Diniz, enfatizou a contribuição da universidade para a formação de mão de obra especializada e para o desenvolvimento de soluções tecnológicas voltadas ao setor energético. Segundo ele, a instituição vem atuando para aproximar conhecimento científico, inovação e desenvolvimento regional.