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Engorda

Obra de engorda em Ponta Negra corre sem fiscalização ambiental

Fragmentos de coral que apareceram nesta semana em Ponta Negra acendem alerta para impactos ambientais profundos no litoral potiguar
Karen Sousa
12/12/2024 | 05:16

As obras de engorda da Praia de Ponta Negra seguem no litoral potiguar sem fiscalização ambiental e levantam questionamentos sobre os riscos para a orla de Natal, especialmente com o surgimento de fragmentos de coral, de acordo com ambientalistas. Após o Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente (Idema) ser proibido de atuar nas obras da engorda desde outubro, o serviço continua sem fiscalização.

O procurador do Ministério Público Federal (MPF) Luís de Camões Boaventura informou, em entrevista ao AGORA RN, que a situação em que segue a obra da engorda em Ponta Negra é preocupante, considerando a ausência de um órgão fiscalizador para monitorar os impactos e consequências da ação.

“O surgimento desses fragmentos de coral acende um alerta máximo de que é fundamental que uma obra dessa magnitude e que promova uma alteração substancial da dinâmica praial e que mexa nos recursos marinhos, precisa estar devidamente acompanhada por um órgão ambiental”, afirmou.

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Procurador do Ministério Público Federal, Luís de Camões Boaventura / Foto: divulgação

No entanto, a obra não é fiscalizada por órgãos ambientais desde outubro, quando uma decisão da 3ª Vara da Fazenda Pública de Natal determinou que o Idema não atuasse nas obras de aterro hidráulico, a engorda. A decisão, expedida no dia 2 de outubro de 2024, atendeu a um mandado de segurança solicitado pela Procuradoria Geral do Município (PGM). Camões apontou que, mesmo com a fiscalização sendo realizada pelo Idema anteriormente, o órgão não tem condições de prosseguir nessa atividade.

“Houve uma delegação do Ibama ao Idema, ou seja, o Ibama, um órgão federal, que deveria, pela lei, ser o órgão licenciador e fiscalizador. Eles firmaram um acordo de cooperação técnica em que o Ibama delegou essa atribuição ao Idema. Então, o Idema assumiu para si essa função de licenciar e fiscalizar. No entanto, o Idema não tem condições de prosseguir nessa função”, disse.

Há mais de um mês, o MPF ingressou com uma ação solicitando que o Ibama assuma novamente a função de fiscalização das obras da engorda e tome responsabilidade sobre o licenciamento para evitar riscos maiores ao meio ambiente e ao resultado final da obra. O MPF destacou, na ação, que o Idema nunca realizou um concurso público para compor o quadro técnico e conta somente com bolsistas e comissionados. A ação ainda aguarda a apreciação da Justiça Federal.

Fragmentos de coral aparecem na praia de Ponta Negra durante obras da engorda; Ambientalistas e MPF alertam para riscos à dinâmica marítima e aos recursos marinhos / Foto: José Aldenir - Agora RN
Fragmentos de coral aparecem na praia de Ponta Negra durante obras da engorda; Ambientalistas e MPF alertam para riscos à dinâmica marítima e aos recursos marinhos / Foto: José Aldenir - Agora RN

Procurador diz que decisões controversas enfraqueceram fiscalização ambiental: “Quem fiscaliza é quem realiza”

Para além das problemáticas que envolvem os funcionários do Idema, o procurador informou que reconheceu uma pressão política no processo de licenciamento da engorda. “É um órgão que, em relação a essa obra, foi submetido a uma pressão política totalmente infundada, já vista a invasão que teve na sede do órgão por representantes da Prefeitura de Natal, e, principalmente, é um órgão que teve sobre si decisões judiciais da Justiça Estadual extremamente controversas. A primeira das decisões obrigou que o
Idema emitisse essa licença, isso não tem precedentes no sistema de justiça”, declarou Camões.

O procurador explicou que quando há uma ação judicial em busca de um licenciamento, a Justiça estabelece um prazo razoável para que o órgão informe se a licença deve ou não ser emitida, no entanto, no caso da engorda, a Justiça determinou que o Idema licenciasse a obra.

“Hoje, a obra corre sem nenhum tipo de fiscalização. Quem presta as contas à sociedade é o empreendedor, que, no caso, é o agente municipal, ou seja, quem quer ver a obra realizada é quem está fiscalizando essa obra e é, também, quem presta contas à sociedade. Isso não tem nenhum respaldo legal”, completou o procurador.

Impactos podem causar décadas de erosão em Ponta Negra e Via Costeira

Os efeitos das obras podem ir além do aparecimento de fragmentos de coral e significa um agravamento do processo erosivo em praias vizinhas. Segundo Camões Boaventura, os riscos iminentes apontados pelas evidências científicas são de que trechos da Via Costeira e das praias de Miami, Areia Preta, Praia dos Artistas e a orla que vai no sentido da Zona Norte de Natal tenham tendência de aumentar o processo erosivo.

“A gente não sabe como é que a própria praia de Ponta Negra vai se comportar em relação à profundidade da água, em relação à movimentação dos sentimentos, porque uma coisa é preciso ficar claro: as marés variam conforme diversos fatores, então, esse movimento de levar areia e tirar areia é natural. Quando há uma intervenção dessa magnitude, a tendência é que esse movimento natural se altere substancialmente”, esclareceu.

Camões ainda enfatizou que o monitoramento dos impactos a longo prazo precisam ser apontados por um órgão fiscalizador com o poder de polícia ambiental, ou seja, o Ibama, para este caso em específico. No entanto, não é o que está acontecendo no serviço no litoral natalense. “É tão grave o quadro que a gente não sabe nem dizer, do ponto de vista técnico, o que é que tem nessa jazida, se essa jazida tem ou não tem coral que está sendo destruído. A gente não sabe dizer se essa jazida deveria ou não deveria alimentar essa engorda”, completou.

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