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TV Globo
Em editorial, Jornal Nacional critica Bolsonaro sem citar nomes; “Sentimento de horror”
Editorial não cita Bolsonaro, mas afirma que equívocos estão em “entrevistas, declarações, atitudes”. Emissora diz que não há 2 lados para ouvir
Poder360
20/06/2021 | 08:09

A TV Globo divulgou neste sábado 19 um editorial a respeito das 500 mil mortes por covid-19 no Brasil. Lido no final Jornal Nacional pelos apresentadores William Bonner e Renata Vasconcelos, o texto não menciona o nome de autoridades, mas de maneira oblíqua se dirige ao presidente Jair Bolsonaro.

“É evidente que foram muitos –e muito graves– os erros cometidos. Eles estão documentados por entrevistas, declarações, atitudes, manifestações”, disse a emissora em seu principal telejornal.

Neste trecho, fica evidente que o alvo é Bolsonaro, ao mencionar tratamento precoce para covid, sempre defendido pelo presidente: “A aposta insistente e teimosa em remédios sem eficácia, o estímulo frequente a aglomerações, a postura negacionista e inconsequente de não usar máscaras e, o pior, a recusa em assinar contratos para a compra de vacinas a tempo de evitar ainda mais vítimas fatais”.

O editorial também cita a CPI da Covid, no Senado, e afirma que as “responsabilidades” estão sendo apuradas. E sentencia: “Haverá consequências”.

Depois de ter lançado uma emotiva campanha para enaltecer seus jornalistas, a Globo voltou a mencionar o tema no editorial deste sábado. A emissora diz estar “há um ano e meio, com base na ciência, cumprindo” o “dever de informar, sem meias palavras”. Alvo de críticas recorrentes do Palácio do Planalto, a TV diz no editorial que o jornalismo que pratica paga “um preço” porque há “incompreensões de grupos que são minoritários, mas barulhentos”.

Com tom de voz grave e de maneira pausada, William Bonner disse que a Globo seguirá na mesma linha, escandindo algumas palavras, como “de-mo-cra-cia”. Falou também que na pandemia, com a saúde das pessoas em risco, o jornalismo da emissora acredita que exista uma exceção à regra de ouvir opiniões divergentes: “Em casos assim, não há dois lados”.

O apresentador afirmou que a emissora não se incomoda com críticas: “Não importa. Nós seguimos em frente, sem concessões. E seguiremos em frente, sem concessões. Porque tudo tem vários ângulos e todos devem ser sempre acolhidos para discussão. Mas há exceções. Quando estão em perigo coisas tão importantes como o direito à saúde, por exemplo. Ou o direito de viver numa democracia. Em casos assim, não há dois lados. E é esse o norte que o jornalismo da Globo continuará a seguir”.

O Jornal Nacional do sábado começou uma reportagem de 5min38seg dizendo que “milhares de pessoas foram para as ruas em todos os Estados e no Distrito Federal” em “25 capitais e outras 116 cidades” para pedir “vacina para todos e o impeachment de Bolsonaro”.

O telejornal disse que os atos foram convocados por “movimentos sociais e estudantis” e que “partidos políticos e sindicatos também apoiaram”. Embora o tom das bandeiras, cartazes, faixas e roupas dos ativistas fosse predominantemente vermelho, o JN preferiu destacar na locução das imagens que havia uma faixa verde e amarela em Brasília e bandeiras do Brasil em algumas cidades. O tom geral foi de simpatia em relação aos protestos –inclusive ao enfatizar que as manifestações foram “pacíficas em todo o Brasil” com exceção da cidade de São Paulo, quando “alguns vândalos jogaram pedras e quebraram a fachada de um banco“.

No final do programa, em seguida à leitura do editorial, o Jornal Nacional foi encerrado em silêncio, como tem sido a prática quando há números redondos de mortes por covid-19.

ÍNTEGRA DO EDITORIAL

Eis a íntegra do editorial lido em jogral pelos apresentadores do Jornal Nacional, William Bonner e Renata Vasconcellos:

“Em agosto de 2020, quando o Brasil ultrapassou o registro escandaloso de 100 mil mortes pela Covid, o Jornal Nacional se manifestou sobre essa tragédia num editorial. Parecia que o país tinha superado um limite inalcançável, 100 mil mortos. Neste sábado (19), são 500 mil. Meio milhão de vidas brasileiras perdidas.

“O sentimento é de horror e de uma solidariedade incondicional às famílias dessas vítimas. São milhões de cidadãos enlutados.

“Hoje, é evidente que foram muitos –e muito graves– os erros cometidos. Eles estão documentados por entrevistas, declarações, atitudes, manifestações.

“A aposta insistente e teimosa em remédios sem eficácia, o estímulo frequente a aglomerações, a postura negacionista e inconsequente de não usar máscaras e, o pior, a recusa em assinar contratos para a compra de vacinas a tempo de evitar ainda mais vítimas fatais.

“No editorial que marcou as 100 mil mortes, nós dissemos que era preciso apurar de quem é a culpa. Dissemos textualmente que esse momento chegaria.

“Desde o início de maio, o Senado está investigando responsabilidades. Haverá consequências. E a mais básica será a de ter levado ao povo brasileiro o conhecimento sobre como e por que se chegou até aqui.

“Quando todos nós olharmos para trás, quando nos perguntarem o que fizemos para ajudar a evitar essa tragédia, cada um de nós terá a sua resposta. A esmagadora maioria vai poder dizer, com honestidade e com orgulho, que fez de tudo, fez a sua parte e mais um pouco.

“Nós, do Jornalismo da Globo, estamos há um ano e meio, com base na ciência, cumprindo o nosso dever de informar, sem meias palavras. Muitas vezes nós pagamos um preço por isso, com incompreensões de grupos que são minoritários, mas barulhentos. Não importa. Nós seguimos em frente, sem concessões. E seguiremos em frente, sem concessões.

“Porque tudo tem vários ângulos e todos devem ser sempre acolhidos para discussão. Mas há exceções. Quando estão em perigo coisas tão importantes como o direito à saúde, por exemplo. Ou o direito de viver numa democracia. Em casos assim, não há dois lados. E é esse o norte que o Jornalismo da Globo continuará a seguir”.

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