Depois anos de redução nos índices de homicídios, Mossoró voltou a registrar alta nas mortes violentas em 2026. De acordo com o delegado Caio Fábio, titular da 10ª Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), o aumento está diretamente relacionado à intensificação da disputa entre facções criminosas pelo controle de territórios na cidade. Até o momento, o município contabiliza 57 mortes violentas, além de 13 mortes decorrentes de intervenção policial.
Ao Agora RN, Caio Fábio explicou que a escalada da violência começou após a chegada de uma facção criminosa de atuação nacional, que passou a disputar áreas antes dominadas por grupos locais. Segundo ele, a organização possui maior capacidade financeira e iniciou um processo de expansão em bairros onde outras facções exerciam influência.

“A gente atribui esse aumento de homicídios em Mossoró realmente a uma rivalidade entre facções criminosas. Em razão de uma facção criminosa de âmbito nacional que não atuava em Mossoró e passou a atuar.”
O delegado afirma que a chegada desse novo grupo alterou a dinâmica do crime organizado na cidade. Conforme explicou, a facção passou a buscar o domínio de territórios considerados estratégicos para a atividade criminosa, especialmente aqueles ligados ao tráfico de drogas, desencadeando uma sequência de confrontos.
“Com a chegada dessa facção, que tem um grande poderio financeiro, ela começou a querer ocupar espaços, bairros em que havia a predominância de outras facções criminosas.”
Segundo Caio Fábio, a expansão acontece de duas formas: pela cooptação de integrantes de grupos rivais e por meio da eliminação daqueles que resistem à mudança de comando. “Essa ocupação ocorre com a dissidência de integrantes das facções que estavam antes e também com a morte de inimigos, que eram dessas facções rivais e não quiseram se render, não quiseram sair do local, quiseram tentar resistir”.
Na avaliação do delegado, o perfil das vítimas reforça a ligação entre os homicídios e a guerra entre as organizações criminosas. Ele afirma que a maior parte das mortes envolve integrantes dos próprios grupos que disputam espaço na cidade.
“A maioria das mortes são de faccionados das duas facções. A facção local, ao tentar resistir, também já matou gente da facção que está chegando.”
Caio Fábio ressalta que a disputa territorial vai além da ocupação física dos bairros e está diretamente ligada ao domínio das atividades ilícitas exploradas pelas organizações criminosas. Segundo ele, controlar determinadas regiões significa ampliar o poder econômico das facções e abrir espaço para outros delitos.
“Essa disputa territorial proporciona o controle do tráfico de drogas e também proporciona a prática de outros crimes, como extorsão, por exemplo, como a gente vê em algumas grandes cidades do Brasil.”
Para o titular da DHPP, esse cenário explica a mudança nos indicadores de violência registrada em 2026. Depois de anos de redução nos homicídios, a intensificação da guerra entre facções voltou a impulsionar os números de mortes violentas no município.
“Realmente, esse conflito entre facções criminosas é o que está ocasionando esse aumento de homicídios neste ano em Mossoró. Depois de três anos de queda, a gente vê realmente um aumento considerável, sobretudo por causa disso.”
Mossoró tem salto de 78% nas mortes violentas
Mossoró interrompeu, em 2026, a trajetória de redução dos Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLIs) observada nos últimos anos. Dados consolidados pela Coordenadoria de Informações Estatísticas e Análises Criminais (Coine) da Segurança Pública e da Defesa Social (Sesed) mostram que o município registrou 57 mortes violentas entre janeiro e maio, contra 32 no mesmo período de 2025, um aumento de 78,1%.
O crescimento ocorre logo após a cidade atingir, em 2025, o menor número de vítimas para o período desde o início da série histórica, em 2011. O resultado rompe uma sequência de três anos em que os indicadores permaneceram em patamares mais baixos, apesar de pequenas oscilações.

A série histórica evidencia que Mossoró viveu seu período mais crítico entre 2016 e 2018, quando foram contabilizadas 110, 108 e 100 mortes, respectivamente. A partir de 2019, os números passaram a recuar, ainda que com oscilações. Foram 74 vítimas em 2019, aumento para 82 em 2020, seguido de nova queda para 54 em 2021. Em 2022 houve leve alta, com 58 mortes, mas os dois anos seguintes apresentaram nova redução, chegando a 36 casos em 2023 e 45 em 2024, até alcançar o menor patamar da série em 2025, com 32 vítimas.
O resultado de 2026, embora ainda distante dos picos registrados entre 2016 e 2018, coloca Mossoró novamente acima da marca de 50 mortes no acumulado de janeiro a maio e representa o maior número para o período desde 2022.