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Dia do Médico
Dia do Médico: vida e morte na linha de frente da covid-19
Reportagem especial da Agora RN conta histórias de médicos que estiveram na linha de frente nos hospitais do Rio Grande do Norte
Mauro Terayama
17/10/2020 | 05:12

Os médicos que atuam na linha de frente do combate ao novo coronavírus talvez estejam vivendo o maior desafio profissional das suas carreiras, na luta por atender pacientes em diferentes estágios de gravidade da doença e enfrentando um sistema de saúde fragilizado nos hospitais brasileiros.

No dia do médico, a reportagem especial da Agora RN conta histórias de médicos que estiveram na linha de frente nos hospitais do Rio Grande do Norte salvando vidas, mas também viram amigos, colegas de profissão e familiares morrerem em decorrência de complicações do Covid-19, doença causada pelo vírus SARS-CoV-2.

A maior parte dos hospitais voltados para o combate ao Covid-19 no Brasil sofrem uma carência de equipamentos de proteção individual (EPIs), fundamentais para evitar a contaminação dos profissionais da saúde nas unidades de saúde que atendem pacientes com suspeita ou confirmados de coronavírus.

Até a data de publicação desta reportagem, o Rio Grande do Norte tem 76.660 casos confirmados e 2.547 óbitos por Covid-19, além de 29.863 casos suspeitos, segundo o boletim epidemiológico divulgado pela Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sesap).

Até o dia 1º de outubro de 2020, foram confirmados 5.942 casos de coronavírus em profissionais de saúde que atuam no Rio Grande do Norte.
Desse total, 3.360 profissionais da saúde com COVID-19 no Estado exercem suas atividades laborais: 1.201 em instituições públicas; 1.101 em instituições de serviço privado; 1.058 profissionais da saúde trabalham em instituições públicas e privadas.

A categoria que possui maior incidência de contaminados é o técnico ou auxiliar de enfermagem, com 2.073 casos; enfermeiros com 725; e médicos com 506 casos. Desses, 32 profissionais da área da saúde morreram desde o início da pandemia.

Recomeço

O médico emergencista Dauri Filho, de 41 anos, atua na linha de frente do combate ao Covid-19 e foi um dos acometidos pelo vírus durante o seu trabalho. Dauri trabalha em vários municípios do Rio Grande do Norte, atuando em hospitais que possuem Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) para pacientes com coronavírus e no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) com o transporte desses pacientes. Em julho deste ano, o médico foi diagnosticado com Covid-19.

O médico relata que a experiência de trabalhar nessa linha de frente é como um temporizador de uma bomba que não se sabe quando vai explodir. Ele, que atendeu várias pessoas com o vírus em hospitais, postos de saúde, UTIs, em ambulâncias, foi um dos mais de 500 médicos que foram diagnosticados com Covid-19 no Estado.

“Eu senti na pele o que os pacientes sentem. O medo de morrer, angústia de ficar só. Eu fui para a semi-intensiva e fiquei uma semana fazendo uso de todas aquelas medicações, utilizando todos os protocolos. Fiquei sozinho, então aquele medo que você vê os colegas na linha de frente, em que muitos faleceram e você pensa que você vai ser mais um”, conta.
O emergencista ficou 21 dias isolados na unidade semi-intensiva e alguns dias em casa. Ele lembra que teve sintomas pesados do Covid no início da doença.

“No começo eu pensei que fosse uma gripe, mas com dores no corpo, febre muito alta e falta de ar, eu fui para o hospital e acabei sendo internado. Meu pulmão ficou comprometido em 50% e hoje eu faço fisioterapia, sendo acompanhado por um pneumologista porque eles falaram que isso vai durar ainda de 4 a 5 meses e os pacientes que têm problemas pulmonares são mais fácil de serem acometidos pela doença”, relata.

Dar a notícia do teste positivo causou preocupação da família de Dauri Filho, que além de trabalhar na linha de frente, o médico também sofre com a hipertensão.

“Minha esposa ficou agoniada achando que também tinha pego. Era bem provável de eu ser acometido porque eu trabalho nas mais variadas linhas de frente de combate ao Covid, e a minha família ficou aperreada, porque a gente sabe a quantidade de colegas que faleceram”, explica.

O médico potiguar diz que a experiência fez com que ele se tornasse um profissional mais humano e que ele passou a olhar seus pacientes de forma mais humana ainda.

“Eu saí do hospital com uma vontade maior ainda de trabalhar porque, na verdade, eu senti na pele. É diferente você estar lá como médico atendendo esses pacientes e depois você voltar para a linha de frente. Então, você tem um olhar mais aprofundado e mais humano”, relata.

Dauri ressalta ainda que a população tome os devidos cuidados evitando multidões, fazendo o uso correto de máscara, de álcool em gel quando sair de casa e do sabonete nas mãos dentro de casa porque o Covid-19, embora tenha diminuído o número de casos, a pandemia ainda não acabou.

dr dauri
Dr. Dauri Filho, que atua na linha de frente do combate ao Covid-19, foi um dos médicos acometido pela doença.

Ele fazia de tudo para atender quem precisasse de ajuda”, diz filha de médico

Das melhores memórias que o médico pôde deixar, a jornalista Nathália Campero, filha do médico obstetra boliviano Eduardo Campero Garcia, conta que o pai era apaixonado por trabalhar na saúde pública, sempre sendo extremamente solidário e atencioso com todos. “Ele sempre foi um profissional que gostou muito de atuar no serviço público. Eu lembro que muitas vezes quando eu era criança, a gente ia para o interior e ficava lá por alguns dias. Ele fazia mutirões de cirurgia, de atendimento. Ele era uma pessoa muito solidária, muito atencioso com os pacientes e fazia de tudo para atender quem precisasse de ajuda”, lembra.

“Meu pai se cuidava muito em relação a Covid-19. Ele tomava banho antes de ir pra casa, andava com álcool em gel no carro, utilizava máscara e orientava as pessoas a utilizarem e até chegava em casa com muitas máscaras para que a gente sempre utilizasse máscaras novas. Ele tava se cuidando muito e realmente compreendia a dimensão do que poderia se tornar essa pandemia”, disse.

Mesmo longe da filha, Campero orientava Nathália – que mora atualmente em São Paulo – com todos os cuidados necessários e sobre a pandemia. “Ele ligava sempre para saber como é que tava, se eu tinha saído, se tinha se cuidado. E ele também, falando que tinha se cuidado, como tinha sido o trabalho, que não tinha pego casos ainda, mas ele sempre tava acompanhando mulheres grávidas”.

Todo esse cuidado com o próximo contagiou também os filhos de Eduardo, que também se formaram em medicina. O lado humano e cuidadoso do boliviano refletiu na família, como comenta a jornalista . “Esse amor pela medicina contagiou todos eles. Esse trabalho que eles fazem não é só de procedimentos. É de entender um pouco também a vida do outro, de você poder ajudar o outro realmente com o que ele necessita”.

Nas consultas diárias, o médico obstetra sempre estava de bom humor, era divertido com seus pacientes, atendendo a idosos, a crianças e às gestantes. Isso permitiu com que a solidariedade do boliviano fosse a sua maior virtude como médico. Campero compreendia a vida do próximo, buscando orientar seus pacientes da melhor forma, trazendo uma medicina mais acessível, receitando medicamentos mais baratos, remédios caseiros, com o objetivo de ajudar cada cidadão das respectivas cidades que atuava.

O diagnóstico do Covid caiu uma surpresa para todos. Nathalia relata que os funcionários do hospital faziam testes regulares (testes rápidos) de Covid-19 e que, durante um dos plantões médicos, ele sentiu os primeiros sintomas da doença. “Durante um plantão, ele sentiu uma falta de ar e um colega achou estranho e recomendou que ele fizesse uma tomografia. Quando saiu o resultado, ele já ficou bastante preocupado porque deu comprometimento de 50% dos pulmões e ele foi direto para o Hospital do Coração”, disse.

Eduardo Campero Garcia, de 64 anos, faleceu dia 20 de julho de 2020, em Natal, devido às complicações pulmonares do coronavírus. O médico obstetra era formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte e atuava há mais de 40 anos no Estado, trabalhando principalmente no Hospital Municipal de Ceará-Mirim. Eduardo deixou quatro filhos: três sendo médicos e uma filha jornalista.

“Perder alguém próximo é uma perda muito grande. Eu não tenho como dizer como foi lidar com essa dor, porque eu ainda estou aprendendo a lidar com ela. Existe a minha dor em ter perdido o meu pai. Existe a dor de um amigo de ter perdido também o pai, a dor de uma colega de trabalho que perdeu a tia, a dor de outra pessoa que perdeu os avós. É muita gente perdendo familiares. Eu acho que ninguém teve a dimensão ainda dessas perdas. Isso a gente ainda vai ainda vai entender quando talvez tudo isso acabar”, diz emocionada.

Eduardo era um homem saudável que, apesar da idade, mantinha hábitos saudáveis e taxas controladas. A perda repentina do médico impacta na ausência de um profissional atencioso e que se importava com o próximo, atuando de forma apaixonada no que fazia. “Lidar com a perda em 2020 eu acho que vai ser muito difícil. A gente pode lidar com a perda no futuro. Entender que ele não está viajando, que ele não está dando um plantão, que ele não está em outro interior ajudando as pessoas, que ele não vai voltar para casa”, lamenta.

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