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Debate

Desigualdade, saúde e educação precárias contribuem para “cracolândia” em Natal

Professora de Políticas Públicas aponta que Estado deve fazer diagnóstico da população e oferecer atendimento especializado
Nathallya Macedo
19/03/2024 | 08:35

O poder público tem se organizado nos últimos dias para tentar combater a chamada “cracolândia” de Natal, uma área específica da Avenida Jaguarari, localizada entre a Nevaldo Rocha e a Antônio Basílio, no bairro de Lagoa Nova – região onde há relatos de consumo contínuo de drogas. A situação, que já foi reconhecida pela Secretaria Estadual de Segurança Pública (Sesed), porém, não é apenas um caso de combate aos ilícitos.

A professora do Instituto de Políticas Públicas (IPP – UFRN) e doutora na área Andréa Santos aponta que o poder público deve fazer, primeiramente, um diagnóstico dessa população. “Tem que entender quem é essa população que está na chamada cracolândia natalense. Porque nem todas as pessoas que são população de rua, são usuárias. Existe todo um cenário que permeia essa condição das pessoas em situação de rua: é a desigualdade em termos de acesso ao emprego, à renda, à saúde, à educação. E isso é um problema muito mais amplo. Na própria pandemia, uma grande parte das pessoas que estão em situação de rua foram para a rua porque não tiveram condições de manter uma casa”, explicou ela, em entrevista ao AGORA RN.

morador de rua Natal RN
População em situação de rua. Foto: José Aldenir / Agora RN

O fenômeno da “cracolândia” é comum em capitais. “Vamos reportar especificamente a que existe em São Paulo. Esse fenômeno é produto de uma correlação de diversas peculiaridades, além do vício. Essa população está na rua por questões como o rompimento de vínculos familiares, perda da habitação, problemas de saúde mental, perda de trabalho. Enfim, são mazelas que são produtos de uma desigualdade que existe no Brasil. E isso vai repercutir em um cenário de extrema dificuldade para essa população”, pontuou.

Nesse contexto, a professora reforça a responsabilidade do poder público. “Eles não estão na rua porque querem, estão na rua devido à inabilidade do Estado em ter a capacidade de fazer com que essa população seja visível nas suas demandas. Não quero dizer que as políticas públicas deixam de existir, mas elas não conseguem abarcar esse quantitativo de pessoas, que é cada vez maior. Quase 70% da população em situação de rua em todo o Rio Grande do Norte está em Natal, de acordo com um censo que foi realizado em recentemente, ou seja, aproximadamente 1.500 pessoas”.

Diante desse cenário, Andréa Santos considera insuficiente os centros de apoio e acolhimento. “Temos em Natal um Centro POP, Centro Especializado para o Atendimento das Pessoas em Situação de Rua. Esse centro é da assistência social, no que tange à competência da política de assistência. A questão relativa a álcool e drogas faz parte da área da saúde. Em Natal temos dois CAPS AD, que são os CAPS voltados para atenção psicossocial em álcool e drogas. Existe um na Zona Norte e um na Zona Leste. Ou seja, são equipamentos públicos inexpressivos mediante a demanda que é essa população de rua”, observou.

Para ela, o poder público tem que instrumentalizar os centros, tanto o Centro POP quanto os CAPS AD, fornecendo uma capacidade estrutural e de profissionais. “Acredito que Natal demande mais um CAPS e mais um Centro POP, no mínimo. É prover equipamentos tanto da assistência quanto da saúde em condições efetivas para atender a essa demanda da população em situação de rua”.

“Cracolândia” afeta comércio local

De acordo com a professora, o surgimento de cracolândias pode ter repercussões severas, em termos de segurança e saúde da população. “Falo tanto a segurança para quem mora nesses lugares, como também para a população em situação de rua. Há ainda a atuação do tráfico, pois se não tivesse o tráfico, as pessoas não estariam consumindo. Então isso tem repercussão também no comércio local. Nós vemos o que está acontecendo na 25 de Março, em São Paulo, está tendo todo um impacto ali l naqueles comércios porque as pessoas se sentem inseguras para fazer suas compras nas proximidades da cracolândia”.

“Tratar o humano que está em situação de risco”, diz Coronel Araújo

Coronel Araújo. Foto: José Aldenir / Agora RN
Coronel Araújo. Foto: José Aldenir / Agora RN

O secretário estadual de Segurança Pública, Coronel Araújo, afirmou nesta segunda-feira 18 que diversos órgãos do poder público se organizam para tentar minar a “cracolândia”. Em entrevista ao Jornal da Cidade, da 94 FM, o titular da pasta também analisou que o problema não é só da polícia.

Araújo afirmou que existe um esforço conjunto entre órgãos municipais e estaduais para levar atendimento às pessoas que estão no local. Segundo ele, a população na “cracolândia” varia diariamente. “Tem dia que tem 5, 10, 20, é muito variável a quantidade de pessoas. A assistência social, alimentação para aquelas pessoas, o atendimento médico, todas as ações estão sendo de forma integrada para tratar o humano que está ali em situação de risco”.

Reunião debate ações

Segundo Coronel Araújo, houve uma reunião na semana passada e há outro encontro programado para esta terça-feira 19. “Na primeira, sensibilizamos os órgãos que podem ajudar a acabar com o espaço. Na segunda reunião, esses órgãos irão apresentar o que já foi feito e o que será feito naquele espaço. Por exemplo, chamamos o pessoal da Secretaria Estadual de Direitos Humanos, de Ação Social e Saúde, junto com a Sesed. Chamamos também a Secretaria de Segurança do Município, Ação Social do Município e Saúde de Natal, além do Ministério Público Estadual”, explicou.

O secretário apontou que a união das forças do poder público é importante. “As pessoas dizem que é insegurança, mas na verdade ali é um problema maior. É um esforço de todos esses órgãos. O importante desse chamamento é que a Fecomércio se ofereceu para ajudar e Habib Chalita também, a sociedade civil organizada está querendo ajudar”, disse.

“Ali não é só polícia, mas é um problema de todos. A iluminação pública tem que ser perfeita, a limpeza urbana, os proprietários dos prédios abandonados têm que fechar os prédios para não serem invadidos. É um problema também de saúde pública, na área de dependência química, então vamos trabalhar todos unidos”, frisou Araújo. “As pessoas falam ‘cracolândia’ de uma forma pejorativa, mas há muitas famílias destruídas pelo vício. É um flagelo humano. Isso conclama todos nós a acabar com esse mal”, complementou.

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