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Inteligência Artificial

Dell aposta em IA dentro das empresas com riscos

Presidente da empresa para a América Latina avalia que organizações passarão a combinar infraestrutura interna e nuvem para reduzir custos e ampliar segurança dos dados
Por O Correio de Hoje
29/06/2026 | 12:52

A próxima etapa da inteligência artificial corporativa será marcada pela migração dos projetos de experimentação para ambientes de produção e por uma mudança na arquitetura tecnológica das empresas. Em vez de depender exclusivamente de provedores de computação em nuvem, organizações de diferentes setores deverão ampliar o uso de servidores próprios para executar modelos de IA, mantendo dados estratégicos dentro de suas operações. A avaliação é de Luís Gonçalves, presidente da Dell Technologies para a América Latina, que vê o mercado entrando em uma nova fase de adoção em larga escala.

Segundo o executivo, a inteligência artificial já deixou de ser um conjunto de testes conduzidos por áreas de inovação para ocupar processos centrais das empresas. “A gente já começa a ver a IA corporativa sair do laboratório e ir para implementação. Esse é um mercado que apenas começou e vai abrir muitas oportunidades”, afirmou, em entrevista ao programa C-Level.

Luís Gonçalves Dell
Luís Gonçalves, presidente da Dell - Foto: Reprodução

Na visão da Dell, o avanço ocorrerá por meio de modelos híbridos, combinando infraestrutura instalada nas próprias empresas com serviços de nuvem pública. A estratégia busca equilibrar desempenho, segurança e custos operacionais, principalmente em aplicações que utilizam informações confidenciais ou sensíveis.

Gonçalves afirma que manter modelos de inteligência artificial em servidores internos reduz a dependência da nuvem e diminui significativamente os gastos com tokens, unidade utilizada pelas plataformas para precificar o processamento de grandes modelos de linguagem. “O custo reduz brutalmente comparado com a outra opção, que seria usar tudo fora”, afirmou. Segundo ele, esse conceito, chamado internamente de “factory AI”, deverá ganhar espaço conforme as empresas ampliarem o uso cotidiano da tecnologia.

A mudança acompanha a transformação do próprio negócio da Dell. Tradicionalmente conhecida pela fabricação de computadores pessoais, a companhia passou a concentrar sua atuação em infraestrutura para inteligência artificial. Atualmente, cerca de 65% da receita da empresa está vinculada a servidores, armazenamento e equipamentos destinados a aplicações de IA.

Para o executivo, essa adaptação foi decisiva para manter a competitividade da companhia em um mercado em rápida transformação. Ele compara o momento atual ao vivido por empresas de tecnologia durante a expansão da internet na década de 1990. “Companhias líderes no mercado, se não tiverem essa capacidade de se adaptar, se tornam dinossauros extintos”, afirmou.

A carteira de clientes da Dell na região já inclui empresas e instituições que operam modelos próprios de inteligência artificial em infraestrutura local. Entre elas estão terminais portuários, mineradoras como a Vale e órgãos públicos, como o Tribunal de Justiça de São Paulo, que utilizam servidores dedicados para aplicações internas.

Apesar do avanço da tecnologia, Gonçalves reconhece que os investimentos exigem planejamento para evitar desperdícios. Segundo ele, existe o risco de empresas adquirirem infraestrutura superior às suas necessidades efetivas, comprometendo o retorno financeiro dos projetos. “Você pode pagar para alguma coisa andar a 100 por hora quando ela está andando a 80”, exemplificou.

Na avaliação do executivo, o ponto de partida para organizações que ainda não utilizam inteligência artificial deve ser a identificação de gargalos operacionais. Em vez de iniciar projetos pela tecnologia em si, a recomendação é mapear processos ineficientes e avaliar de que forma a IA pode melhorar produtividade, integração entre áreas e velocidade de execução. “Qual é a sua vantagem competitiva? O que você faz bem? Use a IA para fazer aquilo ser ainda melhor”, afirmou.

O processo, segundo ele, frequentemente exige mudanças estruturais. A adoção de inteligência artificial não se limita à instalação de novos equipamentos ou softwares, mas envolve o redesenho de fluxos internos, revisão de processos e adaptação da cultura organizacional.

Entre os principais obstáculos para essa transformação no Brasil, Gonçalves cita a escassez de profissionais qualificados e a elevada carga tributária incidente sobre equipamentos de tecnologia. Em contrapartida, considera que o País reúne vantagens competitivas importantes, como uma população relativamente jovem e uma matriz energética predominantemente renovável, fatores que podem favorecer a expansão de data centers e aplicações de inteligência artificial.

A produção local também integra a estratégia da companhia. Mais de 95% dos equipamentos vendidos pela Dell no Brasil são fabricados em Hortolândia (SP), unidade que abastece exclusivamente o mercado nacional. Segundo o executivo, a escala da operação permite atender à demanda doméstica, embora a empresa considere que o País poderia desempenhar um papel mais relevante como plataforma exportadora caso barreiras econômicas e tributárias fossem reduzidas.

Ao comentar a possibilidade de ampliação das importações de servidores asiáticos com preços inferiores aos nacionais, Gonçalves afirmou que o crescimento do mercado tende a reduzir o impacto competitivo, desde que todos os participantes atuem sob condições equivalentes. Para ele, a concorrência pode acelerar a disseminação da inteligência artificial sem comprometer necessariamente a indústria instalada no País.

O executivo também relativizou comparações entre o atual ciclo de investimentos em IA e a bolha das empresas de internet no início dos anos 2000. Embora reconheça que alguns aportes possam não gerar o retorno esperado, avalia que a expansão da chamada “IA física” — aplicações voltadas ao controle de máquinas, equipamentos e processos industriais — deverá sustentar o crescimento do mercado no médio prazo. Nesse cenário, a infraestrutura computacional tende a assumir papel cada vez mais estratégico para empresas que buscam incorporar inteligência artificial às operações centrais de seus negócios.