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Dança

Dançar em dupla pode alinhar ondas cerebrais

Pesquisa com dançarinos de tango revela alinhamento de atividade cerebral durante movimentos coordenados
Por O Correio de Hoje
06/05/2026 | 13:01

Uma pesquisa conduzida por cientistas da Universidade do Colorado Boulder apontou que casais de dançarinos experientes podem sincronizar não apenas os movimentos corporais, mas também a atividade cerebral enquanto dançam juntos. O estudo analisou casais de tango argentino e identificou padrões semelhantes de ondas cerebrais durante a execução dos passos.

Para realizar o experimento, os pesquisadores utilizaram toucas de eletroencefalograma (EEG), equipamento capaz de medir a atividade elétrica do cérebro. Os dispositivos foram instalados nos participantes enquanto eles dançavam em dupla. Além do monitoramento cerebral, os cientistas também acompanharam os movimentos corporais dos casais por meio de sensores posicionados nos tornozelos.

young couple dancing bachata
Dança proporciona sincronização neural Foto: FreePik

O trabalho foi liderado por Thiago Roque, estudante de pós-graduação do Instituto Atlas. Segundo ele, a dança produz um processo de conexão neural entre os participantes. “Quando dançamos, nossos cérebros estão, na verdade, se conectando. Estamos sincronizando nossos cérebros através do nosso comportamento”, afirmou.

Os pesquisadores explicam que esse fenômeno é conhecido como “acoplamento intercerebral” ou “sincronização neural”. O comportamento já havia sido observado anteriormente em outras atividades realizadas em dupla, como apresentações musicais de violinistas tocando juntos. No entanto, o estudo buscou investigar de forma mais aprofundada como essa conexão ocorre durante a dança.

A pesquisa concentrou-se especificamente no tango argentino por conta das características da modalidade. Diferentemente de outras danças coreografadas, o tango costuma envolver improvisação constante entre os parceiros. Os movimentos são conduzidos em tempo real, exigindo atenção contínua aos sinais corporais do outro dançarino.

Segundo os pesquisadores, os parceiros antecipam movimentos por meio de pistas físicas sutis, como pequenas compressões nas mãos, alterações de postura ou deslocamentos do tronco. Essa troca constante de informações corporais ajuda os dançarinos a manterem coordenação durante a execução da dança.

A pesquisadora Ruojia Sun, dançarina profissional de tango e coautora do estudo, também participou das análises. O grupo observou que, à medida que os movimentos dos casais se tornavam mais sincronizados, os padrões de atividade cerebral apresentavam maior semelhança.

No experimento, participaram cinco casais experientes em tango, incluindo Sun e seu parceiro de dança. Os pesquisadores monitoraram simultaneamente os cérebros dos participantes enquanto eles executavam diferentes sequências de movimentos.

Os cientistas explicam que os neurônios produzem impulsos elétricos contínuos, conhecidos como ondas cerebrais. Essas ondas podem ser identificadas em diferentes frequências pelos sensores de EEG. Em geral, ondas mais rápidas, chamadas de beta, aparecem quando a pessoa está concentrada ou pensando intensamente. Já as ondas mais lentas, conhecidas como teta, costumam estar associadas a estados de relaxamento.

Durante o estudo, os pesquisadores observaram que a atividade cerebral dos dançarinos variava conforme o grau de sincronização dos movimentos. Quando um dos parceiros conduzia um passo para frente e o outro respondia em harmonia, as ondas cerebrais tendiam a se alinhar, subindo e descendo em conjunto. Nos momentos em que os passos perdiam sincronia, o mesmo acontecia com a atividade cerebral registrada pelos aparelhos.

Os autores avaliam que os resultados ajudam a ampliar a compreensão sobre a forma como interações humanas afetam o funcionamento do cérebro. Além da dança, a sincronização neural pode estar presente em diferentes atividades sociais que exigem cooperação, atenção compartilhada e coordenação entre indivíduos.

Com base nos resultados, Roque e a equipe também desenvolveram um dispositivo vestível capaz de monitorar a atividade cerebral dos dançarinos em tempo real. Segundo os pesquisadores, o equipamento vibra quando identifica sincronização entre os cérebros dos parceiros.

A pesquisa reforça o interesse científico em compreender como comportamentos coletivos influenciam conexões neurais e emocionais. Para os autores, a dança representa um modelo importante para investigar coordenação social, comunicação não verbal e integração entre corpo e cérebro.