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Educação

Crianças pobres têm pior desempenho ainda na pré-escola

Estudo da OCDE mostra que diferenças de renda já impactam habilidades cognitivas na pré-escola
Por O Correio de Hoje
06/05/2026 | 14:47

A desigualdade socioeconômica já interfere diretamente no aprendizado infantil antes mesmo do início da alfabetização formal. É o que aponta um estudo internacional coordenado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que avaliou crianças de cinco anos em nove países, incluindo o Brasil. Os dados mostram que alunos mais pobres apresentam desempenho inferior ao de crianças de famílias com maior renda ainda na etapa da pré-escola.

No Brasil, a pesquisa foi aplicada em 2025 com 2.598 crianças matriculadas em 210 escolas de São Paulo, Ceará e Pará, a maioria pertencente à rede pública. O levantamento faz parte do IELS (Estudo Internacional das Aprendizagens e Bem-Estar na Primeira Infância), realizado pela primeira vez com estudantes brasileiros da educação infantil.

Escola Estadual Winston Churchill (9)
Pesquisa avaliou crianças de cinco anos e identificou desigualdades em literacia e numeracia Foto; José Aldenir

A avaliação analisou habilidades relacionadas à literacia — conjunto de competências que antecedem a alfabetização, como compreensão oral, vocabulário e consciência fonológica — além de numeracia, ligada às primeiras noções matemáticas. As atividades foram aplicadas individualmente em tablets, por meio de jogos e histórias em formato lúdico.

Na área de literacia, as crianças brasileiras registraram média de 502 pontos, índice próximo da média internacional, de 500 pontos. No entanto, o recorte por renda revela diferenças significativas: alunos de famílias mais pobres tiveram média de 487 pontos, enquanto os mais ricos alcançaram 521 pontos.

A desigualdade aparece de forma ainda mais intensa em numeracia. A média brasileira foi de 456 pontos, abaixo da média internacional, também de 500 pontos. Entre as crianças mais pobres, o resultado ficou em 429 pontos. Já entre as mais ricas, a média chegou a 484 pontos.

Os dados mostram diferenças concretas em habilidades consideradas fundamentais para o desenvolvimento infantil. Cerca de 80% das crianças mais ricas conseguem identificar numerais e sequências numéricas aos cinco anos. Entre as mais pobres, esse percentual cai para 68%.

O mesmo padrão aparece em habilidades matemáticas iniciais. Entre as crianças de famílias com maior renda, 42% demonstram compreender conceitos de adição e subtração com até dez objetos. No grupo de menor nível socioeconômico, apenas 26% atingiram essa capacidade.

Para os pesquisadores, o estudo reforça que a desigualdade educacional começa muito antes do ensino fundamental. “As desigualdades de aprendizagem começam muito antes do ensino fundamental. Aos cinco anos, já observamos diferenças importantes associadas às condições sociais das crianças e ao seu contexto de vida”, afirma Tiago Bartholo, doutor em educação e um dos responsáveis pela aplicação do estudo no Brasil.

Segundo ele, os dados revelam efeitos cumulativos de fatores sociais e econômicos sobre o aprendizado infantil. Meninos, crianças pretas, pardas e indígenas, além das pertencentes a famílias mais pobres, apresentaram maiores dificuldades em diferentes áreas avaliadas.

“Quando diferentes fatores sociais e econômicos se combinam, as diferenças de aprendizagem se ampliam de forma significativa, o que reforça a necessidade de políticas mais integradas desde a primeira infância”, diz Bartholo.

O levantamento também identificou diferenças de desempenho entre meninos e meninas. Em literacia, as meninas brasileiras alcançaram média de 508 pontos, contra 497 dos meninos. Já em numeracia, os meninos tiveram desempenho ligeiramente superior, com 458 pontos, enquanto as meninas registraram 454 — diferença considerada pequena estatisticamente.

Além do ambiente escolar, o estudo analisou o contexto familiar das crianças e o impacto das experiências vividas dentro de casa no desenvolvimento cognitivo e socioemocional. Os resultados mostram diferenças importantes entre famílias de diferentes níveis de renda.

Entre as famílias mais ricas, 57% dos pais afirmaram cantar músicas, recitar poemas ou rimas infantis para os filhos de três a sete vezes por semana. Nas famílias mais pobres, apenas 31% relataram manter essa frequência.

A leitura de livros também apresentou forte desigualdade. Enquanto 24% dos pais de maior renda disseram ler frequentemente para as crianças, entre os mais pobres esse percentual ficou em apenas 9%. Mesmo atividades consideradas simples, como conversar sobre sentimentos, aparecem mais presentes em famílias de maior nível socioeconômico. O hábito foi relatado por 69% dos pais mais ricos, contra 47% dos mais pobres.

Para Marina Fragata Chicaro, diretora de políticas públicas da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal (FMCSV), os resultados oferecem subsídios importantes para revisão de políticas públicas voltadas à primeira infância. “Os dados nos indicam que é preciso garantir mais oportunidades para que as crianças se desenvolvam de forma completa”, afirma.

Especialistas defendem que, além de melhorar a qualidade da educação infantil, o Brasil precisa ampliar políticas públicas de orientação às famílias para fortalecer o aprendizado também dentro de casa. “O país precisa avançar em ações que ajudem os pais a entender como podem contribuir para o desenvolvimento de seus filhos. Tendo escola e família trabalhando em parceria e de forma complementar, esses resultados podem melhorar muito”, afirma Beatriz Abuchaim, gerente da FMCSV.

O relatório da OCDE aponta que reduzir desigualdades ainda na primeira infância é considerado um passo decisivo para alterar trajetórias educacionais futuras. Segundo os pesquisadores, quanto mais cedo as diferenças aparecem, maior a tendência de elas se ampliarem ao longo da vida escolar.