A pandemia criou uma crise global para a saúde mental, alimentando estresses em curto e longo prazo, e minando o bem-estar emocional de milhares de pessoas ao redor do mundo, conforme a própria Organização Mundial da Saúde (OMS). Crianças e adolescentes que precisaram estudar à distância, de casa, também foram afetadas e agora apresentam sintomas como timidez excessiva em sala de aula.
É o que aponta a psicóloga Marina Costa, pós-graduanda em Psicologia Clínica e terapias breves. Ao AGORA RN, a profissional afirmou que tem percebido o aumento da procura para atendimento desse público. “A gente recebe o contato dos próprios adolescentes que têm a iniciativa de procurar psicoterapia. Crianças e adolescentes que passaram pela pandemia da Covid-19 hoje apresentam timidez excessiva, dificuldades para fazer amizades e de aprendizagem, entre outros reflexos”, disse.
De acordo com um levantamento feito pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SPB), com base em dados do Ministério da Saúde, cerca de mil crianças e adolescentes na faixa etária entre 10 e 19 anos de idade cometem suicídio no Brasil a cada ano. A maioria dos casos está consolidada entre os adolescentes, com 84,29% na faixa entre 15 e 19 anos. Conforme os números da SBP, a maior prevalência de suicídio ocorre entre os jovens do sexo masculino.
Para a psicóloga, uma das saídas para evitar problemas maiores entre crianças e adolescentes é ofertar, dentro do currículo escolar, educação acerca da saúde mental. “Educar alguém sobre as formas de cuidado com a saúde mental é uma forma de prevenção”, pontuou.
Dia Internacional da Saúde Mental
O Dia Internacional da Saúde Mental é celebrado no dia 10 de outubro e destaca a importância de conscientizar a sociedade sobre a depressão e transtornos psicológicos. A depressão é uma doença multifatorial causada por razões psicológicas, biológicas e sociais, explica a psicóloga Marina Costa.
“Depressão é o adoecimento, estado patológico que causa alterações hormonais disfuncionais dentro do corpo, gerando apatia, tristeza, tendência ao isolamento social, dificuldade nas relações interpessoais, alterações no sono, dificuldades na alimentação, e outros sintomas”, afirmou.
A psicóloga acredita que a sociedade ainda considera tabu falar sobre saúde mental. “Houve uma disseminação maior da terapia depois da pandemia, mas ainda existe um estigma grande, principalmente em se permitir buscar ajuda. As pessoas vão por outros caminhos, fazem academia e exercícios físicos, mas acabam esquecendo e negligenciam a psicologia. Tem quem pense que ‘é coisa de doido’. Homens também têm uma resistência maior, por conta de uma construção social que existe acerca das nossas vulnerabilidades. Mas é importante frisar que o sofrimento não é válido só se tiver como comprovar com algo físico”.
Marina Costa, que é responsável técnica do Serviço de Psicologia Aplicada (SPA) da Estácio Natal, percebe que os potiguares que têm procurado o serviço de psicoterapia na clínica escola da universidade apresentam ansiedade, bipolaridade, ideação suicida, dificuldades em lidar com o luto, relacionamentos e trabalho.
“Por muito tempo, as pessoas separavam em duas coisas diferentes: a saúde física e a saúde mental, que só era vista quando chegava a uma situação extrema. Hoje em dia, há um avanço. As pessoas conhecem mais os sintomas, e já admitem que precisam ter uma rotina mais saudável não só por questões físicas”.
Porém, muitos pacientes mascaram a depressão como ansiedade. “É difícil nomear a depressão. Contudo, evitar isso pode piorar a situação. Compreender a doença é o primeiro passo, ter acolhimento e respeito de familiares também”, disse. Também é importante, segundo ela, aliar a psicoterapia com tratamentos medicamentosos – quando necessário acompanhamento psiquiatra.
Serviços públicos
O Município do Natal oferta serviços especializados em saúde mental de forma gratuita. Há o Ambulatório de Prevenção e Tratamento de Tabagismo, Alcoolismo e outras drogadições (APTAD), que fica localizado em Pirangi. Há também atendimento nos diversos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Em casos de atendimento para crises de emergências psiquiátricas, o indicado é procurar a Unidade de Pronto Atendimento (UPA).
O Governo do RN mantém, através da Secretaria Estadual de Saúde Pública (Sesap), uma rede de 126 leitos em unidades hospitalares para pacientes psiquiátricos e que necessitem de internação. Atua também como apoiador da rede de atenção que está sob responsabilidade dos Municípios, como os CAPS e outros serviços terapêuticos.