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Música

Country inteligentede Kacey

Cantora exibe sua composição observadora e afiada em um novo álbum charmoso e cheio de influência country
Por O Correio de Hoje
06/05/2026 | 12:34

Quando a música de Kacey Musgraves funciona melhor — o que acontece com frequência — ela tem uma inteligência espirituosa e seca e uma especificidade observadora, mas é também tão propensa a criar uma melodia cativante quanto a atingir um detalhe emocional preciso.

Com o álbum “Star-Crossed”, de 2021, Musgraves, recuperando-se de um divórcio, assumiu um tom mais sério e autobiográfico, e o resultado foi uma obra mista. No novo disco, “Deeper Well”, ela parece ter reencontrado parte do equilíbrio e da leveza que haviam marcado seus primeiros trabalhos.

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Canções como “Cardinal” reforçam o estilo observador e emocional de Kacey Musgraves Foto: divulgação

O novo álbum gira em torno da vida de Musgraves no interior, “Middle of Nowhere” (“Longe de Tudo”), mas não funciona como um retorno a uma persona country tradicional. Em vez disso, há uma mudança perceptível em sua composição, agora mais voltada à narrativa dramática e à observação de personagens, combinando humor e charme de forma natural.

Mesmo quando Musgraves fala de si mesma em terceira pessoa, como na música “Cardinal”, a sensação é de que o disco se abre como um diário íntimo. Ela descreve o desejo de se afastar da cidade e reencontrar tranquilidade no interior do Tennessee, onde atualmente vive. Em “Heaven Is”, ela canta sobre um estado de serenidade doméstica; já em “Anime Eyes”, ironiza pequenos excessos da vida contemporânea.

Em uma das músicas mais comentadas do álbum, “The Architect”, Musgraves mistura observações cotidianas com reflexões existenciais. A composição traz questionamentos sobre propósito, espiritualidade e as contradições da vida moderna. Em vários momentos, a cantora utiliza imagens simples e cenas comuns para construir comentários emocionais mais amplos.

Musgraves também demonstra habilidade em criar personagens. Em “Sway”, por exemplo, interpreta uma mulher tentando convencer a si mesma de que está confortável em um relacionamento instável. Já em “Loneliest Girl”, aborda solidão e insegurança de maneira delicada e melancólica.

O álbum mantém uma atmosfera acústica e suave, marcada por banjo, violões e ritmos discretos de two-step. A produção evita exageros e deixa espaço para a voz de Musgraves e para suas letras detalhistas. Em vez de buscar grandes explosões emocionais, o disco aposta em pequenos gestos, pausas e nuances.

Embora “Middle of Nowhere” tenha um clima contemplativo, o álbum não abandona completamente o humor característico da cantora. Em diversas faixas, Musgraves observa a vida cotidiana com ironia leve e precisão narrativa, transformando detalhes aparentemente simples em composições emocionalmente sofisticadas.

O resultado é um disco mais contido do que trabalhos anteriores, mas também mais seguro em sua identidade artística. Após o tom memorialista e mais pesado de “Star-Crossed”, “Middle of Nowhere” surge como uma obra mais íntima, equilibrada e serena, reafirmando a habilidade de Kacey Musgraves de transformar observações pessoais em canções universais.