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Artigo
Comunismo e capitalismo nos evangelhos, esquerda e direita na política
Confira o artigo de Geraldo Ferreira desta quinta-feira 26
Geraldo Ferreira
26/05/2022 | 10:10

A história do jovem rico é encontrada nos três evangelhos sinópticos, Mateus, Marcos e Lucas. Não se sabe seu nome, mas se descreve que tinha posição e riqueza, tinha qualidades e era cumpridor das leis. Que lhe faltava então? Jesus foi duro: “falta-te uma coisa. Vai, vende tudo o que tens e reparte-o com os pobres”. Esse encontro não acabou bem, o jovem entristeceu-se e foi embora. Esse texto, junto a outro dos Atos dos Apóstolos, quando Ananias e Safira venderam uma propriedade e entregaram apenas parte do dinheiro aos Apóstolos, retendo parte para si, caindo mortos a seguir, levantam uma dúvida, por vezes explorado ideologicamente. Seria o Cristianismo comunista em sua essência? Mas como justificar as palavras de Pedro – O terreno não era seu, antes de vendê-lo? Não tinhas liberdade de fazer o que quisesses com o dinheiro? Confrontando com essa história, aparece a parábola dos talentos, talvez uma das mais enigmáticas é digna de cogitações.

Ela aparece em dois evangelhos canônicos, Mateus e Lucas. Um homem saiu em viagem e confiou seus bens a seus servos, “a um deu cinco talentos, a outro dois, a outro um; a cada um de acordo com a sua capacidade”. E o que eles fizeram? O que recebeu cinco talentos aplicou e ganhou mais cinco, o que recebeu dois aplicou e ganhou mais dois e o que recebeu um, sabendo ser o patrão homem severo, enterrou o talento no chão e o devolveu no mesmo valor. E a reação do patrão é implacável: “servo mau e negligente. Você devia ter confiado meu dinheiro aos banqueiros para que eu recebesse ao menos os juros”. E é Jesus que arremata na parábola “a quem tem, mais será dado”. Claro que se pode interpretar os talentos compôs dons de Deus, que devem ser cultivados e devem gerar benefícios para todos. Mas essa é uma interpretação. Algumas teologias, como a da Libertação, que o Cardeal Joseph Ratzinger, depois Bento XVI, chamou de “ameaça fundamental â fé da Igreja”, colocam a ação social da Igreja como opção preferencial junto aos pobres, forçando uma guinada política à esquerda do Catolicismo, mas W. Cleonice Skousen, em O Comunista Exposto, estudando a parábola dos talentos, tira suas conclusões: “todo homem deve gozar de sua propriedade privada como um encargo de Deus. Em segundo, ele é responsável, perante o criador pelo uso rentável de sua propriedade”. A busca do domínio da natureza e da reconciliação entre os homens são os problemas de origem da economia e da política.

Qualquer atividade que vise aumentar ou criar recursos envolve uma política, pelo fato de exigir cooperação entre as pessoas. Schefer sugeriu que a história humana é dividida em primados ou primazias. Na sequência, o primado do sangue, depois da força, a seguir o da economia. Foram os laços de sangue que consolidaram as comunidades, depois as comunidades geraram a força, que com seus chefes militares construíram ou derrubaram Estados, até que na idade moderna as considerações econômicas se tornaram decisivas. Para Raymundo Aron a economia visa superar a pobreza essencial, já a política visa fixar regras de colaboração e de comando. Uma questão se levanta, a solução da política seria a solução radical do problema econômico? Hegel via o fim da história em um tempo indeterminado com a humanidade alcançando equilíbrio dentro do liberalismo e da igualdade jurídica. O liberalismo sustentado, como escreve, Helen Pluckrose e James Lindsey, em valores como democracia, governo limitado, separação entre Igreja e Estado, direitos humanos universais, igualdade para mulheres e minorias, liberdade de consciência e expressão, respeito aos valores divergentes e debate honesto. O que se opõe hoje ao liberalismo é um pós-modernismo, que rejeita o pensamento iluminista moderno, montado num ceticismo absoluto que nega a ciência, a verdade, a realidade e a razão. Algum Estado poderá responder cabalmente às exigências permanentes dos homens? Aron diz que embora pareça impossível, ante o lamaçal em que caminha que “ a política continuará sendo a arte da decisão sem volta, em conjunturas imprevisíveis, a partir de um conhecimento incompleto”.

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