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Homenagem
Clarice Lispector: 100 anos do nascimento da escritora
Escritora nasceu no dia 10 de dezembro de 1920 e morreu em 9 de dezembro de 1977. 100 anos após o nascimento, ela segue viva na memória e na leitura dos brasileiros
Redação
09/12/2020 | 07:16

Uma das mais amadas escritoras brasileiras faria 100 anos nesta quinta-feira 10, caso ainda estivesse viva. Clarice Lispector deixou uma obra ardente, enigmática e responsável por um movimento ficcional novo, que ainda desperta paixões. Nascida na Ucrânia em 10 de dezembro de 1920, ela morreu em 9 de dezembro de 1977, no Rio de Janeiro, um dia antes de completar 57 anos.

A estreia oficial de Clarice na literatura aconteceu quando, aos 23 anos, ela teve publicado “Perto do Coração Selvagem”, romance que inaugurou uma nova linguagem nas letras brasileiras, na trilha de Virginia Woolf. Foi o ponto de partida de um estilo que se notabilizou pelo modo anticonvencional de organizar uma narrativa, valendo-se de uma escrita intimista, em que “as personagens não são seres excepcionais, antes são pessoas comuns, vivendo em um mundo, por assim dizer, mágico; mas de uma magia diferente, clariciana, feita de enigmas e perplexidades – uma magia nascida da exacerbação da palavra”, no entender do poeta Ferreira Gullar.

Nascida em Tchechelnik, Ucrânia, Clarice chegou ao Brasil com apenas 2 anos, acompanhada dos pais e duas irmãs, fugindo da guerra civil que assolava seu país. A família passou por Maceió (AL) e Recife (PE) até se fixar no Rio.

Entre 1943 e 1959, período em que esteve casada com o diplomata Maury Gurgel Valente, a escritora o acompanhou em suas missões, vivendo em lugares tão distintos como Belém do Pará, Nápoles (Itália), Berna (Suíça), Torquay (Inglaterra) e Chevy Chase, localidade próxima de Washington (EUA).

As viagens ao lado do marido nem sempre foram proveitosas. Vivendo em uma Europa já desgastada pela 2ª Guerra Mundial, cujo final se aproximava, Clarice e Maury foram obrigados a viver em hotéis e consulados brasileiros durante muitos meses.

A impossibilidade de montar sua própria residência e, principalmente, o fato de viver longe das irmãs, com quem manteve uma relação de amor e ternura, fizeram com que Clarice sofresse, prejudicando o próprio trabalho da escritora. Mesmo assim, ela estabeleceu novos parâmetros para a literatura brasileira.

Especialmente na relação tempo e espaço. Ainda que colaborasse para jornais e revistas, meios de comunicação que se pautam exclusivamente pela realidade, a escritora utilizou as páginas de imprensa também para suas reflexões.

“Sua produção é, a certa altura, chamada por ela mesma de ‘pulsações’, e está pautada pelo questionamento de valores, desconstrução de regras e certezas, movida pelo desejo dramático de narrar aquilo que, no fundo, constata ser inenarrável”, já observou Nádia Battella Gotlib, professora da USP e reconhecida como uma das maiores especialistas na obra de Clarice.

Como diversos outros escritores, também Clarice era obrigada a se desdobrar em outra profissão, notadamente a de jornalista. No início, foram colaborações ocasionais, mas sua fama se estabeleceu no fim dos anos 1960, quando foi convidada a fazer entrevistas para a revista Manchete. E, como se tratava de Clarice, as perguntas, por vezes, eram mais reveladoras que as respostas. Ela surpreendia ao fazer questões mais abstratas, estranhas até: “Qual é a coisa mais importante do mundo?”.

Passados 43 anos de sua morte, Clarice continua um enigma – um estimulante enigma. Sua obra ainda inspira criadores a transformar palavras em imagens, ações, sensações, como comprovam os diversos eventos programados para celebrar seu centenário. E é por meio de suas frases que se consegue elaborar um esboço de quem foi essa mulher.

Conheça ao lado algumas das mais importantes frases dela:

“Escrevo como se somam três algarismos. A matemática da existência”

“Vivo ‘de ouvido’, vivo de ter ouvido falar”

“Ser intelectual é usar sobretudo a inteligência, o que eu não faço: uso é a intuição, o instinto.”

“Se uma pessoa fizesse só o que entende, jamais avançaria um passo.”

“Escrevo-te em desordem, bem sei. Mas é como vivo. Eu só trabalho com achados e perdidos.”

“Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.”

“Mas o que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesma.”

“Eu antes tinha querido ser os outros para conhecer o que não era eu. Entendi então que eu já tinha sido os outros e isso era fácil. Minha experiência maior seria ser o outro dos outros: e o outro dos outros era eu.”

“Fique de vez em quando sozinho, senão você será submergido. Até o amor excessivo dos outros pode submergir uma pessoa.”

“Escrevo como se fosse salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida. Viver é uma espécie de loucura que a morte faz. Vivam os mortos porque neles vivemos.”

Dicas de leitura de Clarice

A Descoberta do Mundo (1984)
Recolha póstuma de crônicas, serve para temperar o primeiro impacto com o texto de Clarice e tomar contato com a escritora em sua voz mais pessoal, de bastidor, a partir de como ela encara e leva para a literatura episódios da vida cotidiana e do real.

Laços de Família (1960)
Seu livro de contos mais popular, coletânea perfeita tanto para quem quer começar quanto para quem busca o melhor e o mais palatável de Clarice num livro só. Aí estão também alguns dos seus motivos mais caros (por exemplo, o ovo e a galinha) e seu modo característico de narrar: pensando a mescla impura de sensações humanas em pequenas ocorrências de enredo que deflagram grandes implosões nos personagens.

A Via Crúcis do Corpo (1974)
Entre as coletâneas de contos de Clarice, a mais controversa, escrita sob encomenda. Para rever, hoje, neste livro, as transgressões do feminino. Ou seguir sem erro por outros contos, de Felicidade Clandestina (1971) e A Legião Estrangeira (1964).

Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres (1969)
Romance que “começa sem começo”, bem claricianamente: com uma vírgula. História de dois personagens em mútua aprendizagem de amor: livro de mínima trama e grandes acontecimentos internos (do corpo, do ser, do pensamento). Também uma história sobre os prazeres da linguagem.

A Paixão Segundo G.H. (1964)
Romance dos mais complexos da obra da escritora, tem um ponto de vantagem para o leitor comum: “É coisa para ser subliminarmente compreendida” (C.L.). Como de fato aconteceu, e a escritora contou em entrevistas, o enigma de recepção deste vertiginoso monólogo (de alta poeticidade, como Água-viva) é que um adolescente de repente pode alcançar tudo dele, e um professor de literatura, nada. Livro de iluminações, pode ser lido/descoberto em fragmentos (vide adaptação de Fauzi Arap, para o teatro, em 2002, na interpretação de Mariana Lima).

A Maçã no Escuro (1961)
Um romance considerado denso, difícil, filosófico. Para leitores desapressados e dostoievskianos. Também explora as inquietações do próprio dizer, da própria linguagem. Vale a pena chegar a este livro tendo já passado pelo metadiscurso de outros, como Água-viva, Um Sopro de Vida ou Uma aprendizagem.

A Cidade Sitiada (1949)
Romance menos conhecido, de recepção também controversa, indecifrável para muitos. Para Clarice, um de seus melhores trabalhos, que escreveu quando morava na Suíça (Berna) e estava grávida. Está entre os livros da primeira década (terceiro romance) e, mesmo entre eles, é o menos “clariciano” (intuitivo), intencionalmente aparatado de referências, nomes, símbolos e cenários.

A Hora da Estrela (1977)
Mesmo quem conhece pouco de Clarice alguma vez ouviu falar de Macabéa, personagem popularizada no imaginário literário brasileiro desde 1985, com o filme homônimo de Suzana Amaral. É interessante (recomenda-se) uma leitura de extremidades, num retrospecto da “estrela de Clarice”: de Macabéa, uma das últimas personagens criadas pela escritora, a Virgínia e Joana, personagens dos primeiros livros, O Lustre (1946) e Perto do Coração Selvagem (1943).

Um Sopro de Vida – Pulsações (1978)
Último romance de Clarice (com publicação póstuma), pode servir de mergulho não só nas inquietações humanas dos personagens: também uma imersão nas questões metadiscursivas, nas inquietações próprias da criação e do processo de escritura, questões de origem e identidade, outra marca de Clarice.

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