Talvez entre um pouco tarde na conversa, já que a leitura da mensagem do prefeito de Natal, Álvaro Dias, foi realizada há um tempo, mas ainda assim vale reflexão, especialmente por não ter a intenção de adotar o epicurismo. Sim, o epicurismo. Uma filosofia grega em que seus adeptos desejam a plenitude individual por meio dos prazeres moderados. O ateniense Epicuro de Samos, certamente, não imaginaria que teria adeptos mais de 2 mil anos depois.
Álvaro Dias, nosso “Epicuro” moderno, resgatou o filósofo original na leitura de sua mensagem anual ao citar o grego que declarava só haver um caminho para a felicidade: “Não nos preocuparmos com coisas que ultrapassam o poder da nossa vontade.” O paradoxo entoado com orgulho pelo comandante da polis potiguar, entretanto, se encontra no fato de o prefeito deter o poder e depender apenas de sua vontade iniciar a discussão sobre a licitação do transporte público para oferecer garantias e melhor serviço.

Mas é na moderação que Dias encontra Epicuro, pois de fato e de direito, paisagismo e reformas de praças tem sido entregues, enquanto um projeto sistemático de transformação do dia a dia do cidadão permanece adormecido pela falta de ousadia em desafiar o status quo. A moderação não é necessariamente um defeito. É até interessante quando se fala da conduta individual, mas se torna um obstáculo quando pilar administrativo que vê, pela lupa da “falsa simplicidade” um copo pela metade, quando na verdade está vazio.
Há relevância em algumas ações iniciadas, como o Hospital Municipal de Natal, Complexo Turístico da Redinha, a obra da engorda da praia de Ponta Negra, além da intervenção urbana em diversas praças públicas pela cidade. Os três primeiros, ainda longe de serem entregues de fato, enquanto a última, alcança natalenses e merece aplausos. E aí se dá o encontro da administração com a lógica do ateniense transcrita na mensagem anual do prefeito.
No texto, não há citação quanto a licitação de transporte. A palavra mobilidade, citada uma vez, é relacionada a um Plano Diretor que, na prática, dialoga com poucos e ignora a transversalidade. E pergunto: adianta o belo edifício em área nobre, se grande parte da população não terá oportunidade de lá morar e aproveitar as comodidades de seu entorno?
Qual a prioridade maior? Atender centenas de milhares enlatados e besuntados pelo desrespeito, submetidos a um transporte que mais parece uma lata de sardinha sobre rodas ou atualizar um documento que, bem ou mal, oferecia regramento urbano à cidade ainda que defasado? Fica mais do que claro, que a felicidade está na moderação, e se é pra ser feliz, mesmo prefeito, que seja ele primeiro, mas sem muito esforço.