O avanço das pré-campanhas eleitorais tem sido acompanhado por uma nova dinâmica nas redes sociais: a proliferação de conteúdos políticos produzidos com inteligência artificial. Nos embates entre grupos de esquerda e direita, cresce o uso de avatares digitais criados por IA para difundir mensagens, críticas e posicionamentos, em um fenômeno que especialistas classificam como “synthfake”.
Diferentemente dos já conhecidos “deepfakes” — que manipulam imagens, áudios ou vídeos de pessoas reais —, os synthfakes consistem na criação de personagens fictícios que simulam indivíduos comuns e passam a emitir opiniões políticas. Essa característica, além de facilitar a produção em larga escala, também explora lacunas na legislação eleitoral, já que não envolve diretamente o uso indevido da imagem de terceiros.

Um dos casos mais emblemáticos desse movimento é o da personagem “Dona Maria”, que ganhou forte repercussão nas redes sociais e se tornou alvo de questionamentos judiciais por parte de partidos de esquerda. Segundo o jornal O Globo, apenas no Instagram, os conteúdos com a avatar ultrapassaram 102 milhões de visualizações e geraram 10,5 milhões de interações em um único mês.
A figura reproduz uma mulher idosa e negra que se apresenta de forma indignada com a situação do país, faz críticas ao governo Lula e utiliza linguagem direta, incluindo palavrões. Criada pelo motorista de aplicativo Daniel Cristiano dos Santos, de 37 anos, a personagem reúne 776 mil seguidores em sua conta principal no Instagram, além de 31,7 mil inscritos no YouTube.
“Você aí, já se preparou para o desabastecimento de combustíveis no país? Não? Então, vá se preparando porque o chumbo grosso vem aí. E o que o pai dos pobres (Lula) faz para essa situação não piorar?”, diz Dona Maria em um dos vídeos, no qual o presidente Luiz Inácio Lula da Silva aparece afirmando que “a pessoa precisa aprender a tirar a bunda da cadeira e andar um pouco”.
Segundo o publicitário e pesquisador Francisco Costa, mestre em Tecnologia da Informação pela PUC-SP, o formato se diferencia justamente por não depender de pessoas reais. “Synthfake é criar uma pessoa que não existe e botá-la para dizer o que você quiser, algo que, do ponto de vista da regulamentação, é quase imune, porque não há ‘vítima da impostura’, ou seja, alguém real cujo direito de imagem foi violado. O que se viola é o direito do espectador de saber que está consumindo ficção, e isso é terreno jurídico muito mais frágil”, explica.
Ainda de acordo com Costa, o sucesso de personagens como “Dona Maria” está ligado à construção de arquétipos facilmente reconhecíveis pelo público. No caso, a imagem remete à figura da “avó indignada”, o que tende a reduzir resistências e críticas por não aparentar vínculo direto com operadores políticos.
Outros perfis seguem lógica semelhante. Um levantamento no TikTok identificou diferentes avatares criados por IA para comentar política. Entre eles, destaca-se o perfil “IAsmina”, com mais de 43 mil seguidores, que apresenta uma personagem feminina, branca, loira e com sotaque mineiro. Nos vídeos, ela aborda temas como a queda do desemprego e faz comparações entre figuras públicas, classificando a primeira-dama Janja Lula da Silva como um “ícone de competência” e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro como “uma figura vazia com apenas ensino médio completo”.
A mesma conta opera ainda um segundo avatar, chamado “Mimi piriguete”, representado por uma mulher de cabelos curtos e roupas decotadas, que já comentou de forma sarcástica episódios como o julgamento da chamada trama golpista pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
Outro exemplo é o perfil “Sou Zé da Feira”, que traz um personagem masculino, negro, idoso e nordestino, retratado como vendedor de legumes. Nos conteúdos, ele orienta o público a não votar em partidos como PL, PP, Republicanos e União Brasil. “Eles não estão nem aí para o povo, são sindicato de patrão”, afirma. Em outro vídeo, ao comentar o tarifaço americano, diz: “O PL e a turma do Bozo traíram o Brasil, pedem taxa para os nossos produtos para tentar salvar o chefe da cadeia, mas a hora deles está chegando”.
O personagem também aparece em outro perfil, denominado “Renderizei IA”, em cenário que simula a seca no sertão nordestino. Vestindo camisa vermelha com a estrela do PT, “seu Zé” ironiza a alta dos combustíveis: “Estou andando a pé porque nosso painho mandou, a gasolina subiu o preço, mas pelo menos a gente faz exercício”.
Por trás dessa produção, segundo João Archegas, coordenador do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS Rio), há o uso combinado de diferentes ferramentas de inteligência artificial. Além disso, o custo de produção tende a ser significativamente inferior ao de conteúdos tradicionais.
“Usar inteligência artificial está ficando cada vez mais barato e acessível. Nem todo mundo consegue usar inteligência artificial de uma forma organizada, estruturada ou tem uma capacitação para isso, mas, cada vez mais, isso já não importa tanto”, afirma.
Nas plataformas digitais, esse tipo de conteúdo costuma ser identificado com o rótulo “mídia gerada por IA”, conforme exigência legal. A legislação permite a circulação desse material, desde que o uso da tecnologia seja informado, embora publicações possam ser questionadas judicialmente caso sejam interpretadas como propaganda eleitoral.
Autores de conteúdos também podem ser responsabilizados se as postagens forem consideradas desinformativas ou tiverem caráter negativo direcionado a adversários políticos. É o que destaca Delmiro Campos, advogado e ex-desembargador do Tribunal Regional Eleitoral de Pernambuco.
“Há vedação especialmente quando esse uso estiver associado à produção de conteúdo negativo, desinformativo ou destinado a manipular artificialmente a percepção do eleitor”, enfatiza.
Procurado, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) informou que “a interpretação e a aplicação das normas eleitorais” ocorrem nos processos “regularmente submetidos à Justiça Eleitoral, por meio de decisão judicial fundamentada”.