Antonio Nóbrega chega a Natal para celebrar os 50 anos da Orquestra Sinfônica do Rio Grande do Norte (OSRN) com um concerto que propõe um encontro direto entre a música de tradição orquestral e as matrizes populares brasileiras. A apresentação desta sexta-feira 19 reúne obras que atravessam diferentes fases de sua trajetória e reafirma a disposição do artista em transformar o palco em espaço de diálogo cultural.
“A expectativa é sempre boa. A gente fica satisfeito e esperançoso que faça o melhor, que a gente consiga dar o melhor de nós mesmos”, afirmou, em entrevista ao AGORA RN. Diante de uma orquestra que ele define como “quase uma entidade”, o multiartista aposta em um repertório plural, pensado para dialogar com a formação sinfônica sem abrir mão das matrizes populares que estruturam seu trabalho.

No concerto, aparecem obras que o acompanham há anos e outras que reforçam o encontro com a OSRN. “Eu toco obras do violino, toco um frevo também, um frevo instrumental, mas eu toco o primeiro movimento de um concerto de Bach, escrito para dois violinos solistas”, explicou.
A apresentação ganha ainda contornos especiais com a participação da cantora potiguar Juliana Linhares. “Tenho também a sorte, a felicidade de ter uma grande convidada especial, que é a Juliana Linhares, uma jovem cantora – não digo nem promissora, porque ela já é uma cantora que já se afirmou no cenário musical brasileiro”. Para Nóbrega, o encontro se sustenta menos na coincidência de repertório e mais na afinidade de origem artística. “Ela vem do mundo do teatro, e assim como eu”.
Apesar de ser a primeira vez que dividem o palco em um projeto desse porte, o artista aposta na sintonia. “É a primeira vez, na verdade, que nós nos encontramos para fazer algo juntos, mas eu aposto nessa química”. Juliana canta “Bombinha” em arranjo orquestral, interpreta “Bolero de Izabel” em dueto com Nóbrega e divide espaço com obras do repertório dele, como “Trenzinho Caipira”. “Então eu acho que o repertório estará bem diversificado entre nós dois”.
A relação de Antonio Nóbrega com orquestras vem de longa data e passa pela formação no violino, por experiências na Orquestra Sinfônica do Recife e Paraíba, além de trabalhos recentes com a de Ouro Preto, a Jazz Sinfônica de São Paulo e a Orquestra da USP. Essa trajetória sustenta uma visão crítica sobre o rótulo que costuma acompanhar esse tipo de encontro. “Às vezes as pessoas dizem que é um encontro da música erudita com a música popular. Eu acho que o conceito deveria ser um pouquinho diferente”.
Para ele, trata-se de um diálogo entre estruturas. “Eu acho que deveria ser um encontro da música de base ocidental – e a orquestra é um aparelhamento que representa a música ocidental – com a composição, com a criação que não é estritamente ocidental”. No concerto, isso se materializa em ritmos como ciranda e maracatu. “Então eu estou trazendo para a orquestra uma música que habitualmente não é tocada por ela”. O efeito, segundo ele, é duplo: amplia o repertório e desloca a orquestra de um lugar excessivamente solene. “Isso dá uma dimensão, renova um pouco a orquestra sinfônica, faz com que ela saia um pouco do seu pedestal”.
Vínculo afetivo com o RN
O vínculo do artista com o Rio Grande do Norte vai além do palco. “A minha ligação é antiga”, diz, lembrando apresentações recorrentes e um interesse profundo pelas manifestações culturais do Estado. Ele cita pesquisas sobre o Coco de Zambê, o Boi Calemba e a obra do cantador Chico Antônio, estudado por Mário de Andrade. Há também um laço intelectual e afetivo com nomes como Dácio Galvão, Deífilo Gurgel e Câmara Cascudo. “É uma relação também afetiva”.
Com o concerto gratuito em um espaço aberto e acessível, o artista espera um encontro franco com o público. “Eu espero que as pessoas se sintam recompensadas por terem saído das suas casas para assistir, para escutar as músicas”. Para ele, o sentido último da apresentação está na troca. “Não existe maior satisfação para um artista do que, após uma apresentação, saber que o público gostou, degustou daquele alimento. É um alimento para a alma, para os sentidos, para a cabeça”.
Cenário brasileiro
Ao olhar para o cenário cultural brasileiro, Antonio Nóbrega mantém um equilíbrio entre esperança e alerta. “É uma cultura viva, uma cultura robusta, mas ela também apresenta algumas ameaças, alguns ruídos”. Como os tempos em que vivemos, resume, “são tempos difíceis, tempos críticos”, e a arte, inevitavelmente, sente seus impactos.
Dácio Galvão destaca engajamento cultural
Ativista cultural e atual subsecretário do Turismo do RN, Dácio Galvão acredita firmemente que Antonio Nóbrega é atento à memória cultural brasileira. “Ele é um cara engajado e que leva a efeito disso há algum tempo”, afirma.
Para Dácio, esse compromisso aparece de forma exemplar no álbum “Na Pancada do Ganzá”, que dialoga diretamente com um projeto inacabado de Mário de Andrade, pensado como homenagem ao cantador potiguar Chico Antônio. “No disco ele fala em Chico Antônio, ele se apoia em Chico Antônio. Então tem duas faixas, e ele evoca Chico Antônio. Então Antonio é a primeira grande figura, assim, que faz isso”.
Dácio recorda o disco “Nação Potiguar”, no qual convidou Antonio Nóbrega para participar. “Eu chamei ele para gravar ‘A Morte do Touro da Mão de Pau’, que era um poema que Ariano Suassuna tinha feito, baseado em Fabião das Queimadas”. Segundo ele, mesmo sem ter gravado antes esse material, o artista aceitou o convite e incorporou a obra ao seu percurso. “Então Nóbrega tem essa intimidade conosco, culturalmente, na área da oralidade, do romance”.

Concerto
O concerto desta sexta-feira 19 começa às 20h, no Papódromo. Sob regência do maestro Linus Lerner, a apresentação de celebração de 50 anos da OSRN, ao lado de Antonio Nóbrega, reúne ainda a cantora Juliana Linhares e o violinista André Kolodiuk, spalla da orquestra, e convida o público a contribuir, de forma voluntária, com a doação de alimentos não perecíveis.
A apresentação é uma realização do Governo do Rio Grande do Norte, por meio da Secretaria de Cultura (Secult), da Fundação José Augusto (FJA) e da Orquestra Sinfônica do Rio Grande do Norte (OSRN). Conta com apoio institucional da Secretaria de Turismo e da Emprotur, tem como projeto parceiro o Movimento Sinfônico e integra o Programa Câmara Cascudo, com patrocínio da Neoenergia Cosern e do Instituto Neoenergia. A produção é assinada pela Mapa Realizações Culturais.
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