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Música

Álbum reúne rappers para reinterpretar obra de Erasmo Carlos

“Mano” traz releituras de canções do Tremendão com participações de Emicida, Criolo, Marcelo D2 e Xamã
Por O Correio de Hoje
18/05/2026 | 13:04

A obra de Erasmo Carlos ganha uma nova leitura a partir do rap nacional. O álbum “Mano”, que chega às plataformas de streaming no dia 5, reúne oito faixas em que gravações originais do artista são revisitadas por nomes como Emicida, Marcelo D2, Criolo, Dexter, Xamã, Budah, Rael, Tasha & Tracie e Tássia Reis.

O lançamento integra as comemorações pelos 85 anos de nascimento do Tremendão, morto em 2022, e também será celebrado com um show da Orquestra Imperial.

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Arquivo: Erasmo Carlos com rapper Emicida - Foto: Divulgação

A faixa de abertura fica por conta de Emicida, que presta homenagem ao parceiro de “Termos e Condições”, música lançada em 2018. “Esteja onde estiver, tamo junto, essa é pra você!”, diz o rapper antes de rimar sobre a base de “É Preciso Dar um Jeito, Meu Amigo”, canção originalmente lançada no álbum Carlos, Erasmo, de 1971, e recentemente redescoberta por um novo público após integrar a trilha sonora do filme Ainda Estou Aqui.

O projeto foi idealizado por Léo Esteves, filho de Erasmo Carlos e responsável por seu acervo, em parceria com o produtor Marcus Preto, que trabalhou nos últimos discos do artista.

Segundo Léo, a proposta era apresentar ao público uma fase menos celebrada da trajetória do pai. A ideia inicial era produzir um álbum de remixes, mas Marcus Preto sugeriu um caminho diferente: convidar rappers para dialogar com canções marcadas por questionamentos existenciais e forte carga autoral. “A playlist do Erasmo era uma coisa muito louca. Tinha Bob Dylan, aí vinham os Originais do Samba, aí daqui a pouco o Aswad, uma banda de reggae inglesa de que a gente gosta”, recorda Léo. “O rap vinha mais pelo discurso. O Erasmo gostava muito do posicionamento nas letras.”

Marcus Preto lembra que o próprio Erasmo Carlos demonstrava interesse por artistas do gênero. “Lembro de ele citar também o Criolo em alguns momentos. Tenho a impressão que essa geração do rap dos anos 2010 se impôs de uma maneira em que estava ficando quase inevitável o contato do Erasmo com o rap.”

As músicas selecionadas para Mano pertencem principalmente à fase mais experimental do cantor, nos anos 1970, especialmente dos álbuns “Carlos, Erasmo” (1971), “Sonhos e Memórias” – 1941/1972 e 1990 – “Projeto Salva Terra!” (1974).

Para Léo Esteves, esse período marcou uma guinada artística importante. “A Jovem Guarda tinha acabado em São Paulo, o Roberto Carlos foi ser um cantor romântico, popular e o Erasmo ficou ali perdido.” “A volta para o Rio foi emblemática. Ele se casou com a minha mãe, formou família, e teve contato com as drogas, que expandiram a visão dele.” “Isso foi o principal motivador daquela fase, com letras mais profundas, existenciais, questionando certas coisas.”

Marcus Preto observa que Erasmo Carlos também dialogava musicalmente com a black music brasileira do início da década de 1970. “O Jorge Ben Jor, o Hyldon, todos tratavam o Erasmo como um deles. Ele é o cara da Tijuca ali, com um lugar muito parecido com o daqueles outros.”

Léo lembra ainda da forte influência da soul music norte-americana no repertório ouvido em casa. “Não falo nem da Motown. O que ele gostava era da terceira divisão, não só dos mais conhecidos. Ele gostava de Donny Hathaway e botava muito Isaac Hayes para a gente ouvir.”

Para a produção do álbum, Marcus Preto definiu duas diretrizes: preservar a essência das composições originais e estimular uma interação criativa entre os rappers e as canções. “É pensamento de dueto, não de remix.” “Vieram muitas músicas sobre amor, mas também sobre questões muito atuais. Engraçado que a semente estava lá, e aí, nos versos novos, essas coisas afloraram.”

Marcelo D2 ficou com “Maria Joana”, canção que faz referência explícita à cannabis. “Tem tudo a ver comigo, né?”, brinca o artista. “A personalidade do Erasmo é uma coisa muito marcante. Venho de uma geração que preza muito pela originalidade, e ele ajudou a gente a escrever nossa história de forma original.”

A rapper Budah assina novos versos para “Cachaça Mecânica”. “O Erasmo sempre representou muita personalidade e verdade. Espero que o público possa ouvir essa releitura sentindo a energia e a força dessas canções que continuam tão marcantes.”

Criolo interpreta “Gente Aberta”, enquanto Tássia Reis participa da faixa resultante, intitulada “Imensamente Visceral”. “O Erasmo faz parte das memórias lá de casa. Estava na vitrola da Dona Vilani e do Seu Cleon, meus pais”, conta Criolo.

Tássia Reis também associa a obra do cantor às lembranças de infância. “Muitas canções me acompanharam na infância e adolescência, e na época eu nem sabia que eram suas.”

Além do lançamento digital, Mano será editado em vinil ainda este ano. Também está prevista uma reedição em LP de Sonhos e Memórias – 1941/1972.

Atualmente empresário de Roberto Carlos, Léo Esteves afirma que o Rei só embarcaria em um projeto semelhante se realmente tivesse vontade. “Roberto é um tipo de artista que tem uma visão muito clara do que quer. Quando Roberto Carlos quer.”

Ao comentar questões pessoais envolvendo o espólio do pai, Léo prefere manter o foco exclusivamente na música. “Só falo do meu pai para falar de música, ele queria ser lembrado pelas músicas.” “Nunca vou falar do meu pai fora desse contexto.”

“Estou fazendo exatamente o que sempre fiz, trabalhando com ele em 40 anos, e sempre vou fazer: falar de projetos, falar de música, a exaltação do nome dele é através da música dele.”