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Natal

60 socos: a agressão que transformou uma vítima em voz pública contra o feminicídio

Do ataque filmado em Natal à tribuna da Câmara, Juliana Soares tornouse símbolo da resistência enquanto números revelam a escalada da violência de gênero
Redação
26/08/2025 | 06:30

No dia 26 de julho, as câmeras de segurança de um condomínio em Ponta Negra, bairro de classe média de Natal, captaram uma cena que ninguém gostaria de ver: acuada no canto de um elevador, a administradora Juliana Soares, 35 anos, foi agredida com uma sequência de 60 socos pelo ex-namorado. O vídeo, divulgado nas redes sociais, espalhou-se pelo país em poucas horas. Mais do que registrar a brutalidade de um homem contra uma mulher indefesa, expôs a violência cotidiana que milhões de brasileiras enfrentam.

Transformada em símbolo involuntário, Juliana sobreviveu, enfrentou cirurgias e hoje fala publicamente sobre o que ocorreu. “Eu não pensei que fosse sobreviver, mas se eu consegui me levantar daquele elevador, outras mulheres também podem. O que precisamos é de acolhimento e de uma rede de apoio que não julgue”, afirmou, emocionada, ao receber a Comenda Maria da Penha em sessão solene na Câmara Municipal de Natal, nesta segunda-feira 25.

Juliana Soares, 35 anos, recebeu nesta segunda-feira 25 uma homenagem na Câmara Municipal de Natal - Foto: FRANCISCO DE ASSIS / CMN
Juliana Soares, 35 anos, recebeu nesta segunda-feira 25 uma homenagem na Câmara Municipal de Natal - Foto: FRANCISCO DE ASSIS / CMN

O caso reabriu uma ferida que as estatísticas confirmam diariamente. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registrou 1.492 feminicídios em 2024, o maior número desde que o crime foi tipificado em 2015. Na média, quatro mulheres foram mortas por dia simplesmente por serem mulheres.

Foram ainda 87.545 casos de estupro e estupro de vulnerável — um a cada seis minutos. As medidas protetivas, muitas vezes apresentadas como solução, falham: uma em cada cinco foi descumprida pelos agressores. E, em oito de cada dez casos de assassinato, o agressor era companheiro ou ex-companheiro da vítima.

Os dados apresentados pela advogada e pesquisadora Brenda Munici Fernandes Chaves durante a sessão solene em Natal dão dimensão da tragédia. Apenas em 2024, o serviço 190 foi acionado 1,167 milhão de vezes para casos de violência contra mulheres. Do total de vítimas de feminicídio, 63,6% eram negras e 70,5% tinham entre 18 e 44 anos. “Esses números mostram que não estamos seguras em lugar algum: em casa, no trabalho, na escola, nas ruas ou até na internet. A violência é múltipla e atravessa cor, classe social, idade e identidade de gênero”, disse Brenda.

O Rio Grande do Norte não foge à regra. Em 2023, foram 24 feminicídios registrados no estado; em 2024, o número caiu para 19, mas especialistas alertam que a redução não significa segurança. Tentativas de feminicídio continuam altas, assim como agressões psicológicas e patrimoniais, formas de violência menos visíveis, mas que precedem a agressão física.

O caso de Juliana exemplifica a escalada: antes dos socos, vieram os xingamentos, o controle das redes sociais, o isolamento. É o chamado “ciclo da violência”, descrito em versos duros pela poetisa Débora Souza em cordel lido na Câmara: “Primeiro uma discussão, em seguida um disparo. Julia é morta pelo noivo, quem era para ser amparo?”.

O impacto do caso provocou uma mobilização imediata. Vereadoras e deputados estaduais e federais estiveram na solenidade que homenageou Juliana e outras mulheres. A Frente Parlamentar da Mulher, criada na Câmara de Natal em 2021, apresentou projetos de lei para fortalecer a rede de proteção e anunciou a instalação da Procuradoria da Mulher no Legislativo municipal, com a missão de acolher denúncias, orientar vítimas e encaminhá-las a serviços especializados. “Esse espaço não será burocrático, mas um instrumento de transformação social”, afirmou a vereadora Anne Lagartixa (Solidariedade).

Apesar das homenagens, o tom foi de cobrança. Parlamentares reconheceram que leis como a Maria da Penha e a tipificação do feminicídio não foram capazes de conter a escalada da violência. “É preciso ir além da legislação. Sem dados consistentes e políticas públicas integradas, continuaremos repetindo tragédias”, disse Brenda. Ela lembrou que a ausência de registros adequados sobre vítimas trans em boletins de ocorrência, por exemplo, apaga parte da realidade.

A violência doméstica no Brasil ainda é majoritariamente considerada assunto privado, apesar de décadas de campanhas. Essa mentalidade foi confrontada nas falas de vereadoras durante a sessão. “Se antes se dizia que em briga de marido e mulher ninguém mete a colher, hoje respondemos: se tem violência contra a mulher, a gente mete a colher, sem medo. Porque só assim o ciclo é interrompido”, afirmou a vereadora Brisa Bracchi (PT).

A reação social também se mostrou forte. Depoimentos de familiares de vítimas, de mulheres que viveram décadas em silêncio e de jovens que relatam abusos dentro de casa ou na rua compuseram o mosaico de vozes durante o evento. Uma vítima que preferiu não se identificar resumiu: “Passei mais de 20 anos em situação de violência até denunciar. A vergonha prende, mas quem tem que sentir vergonha é o agressor, não a mulher. Hoje posso dizer que tenho paz”.

Juliana, a mulher dos 60 socos, sabe que sua imagem se tornou símbolo. A exposição pública que ela nunca desejou se transformou em responsabilidade. “Nunca gostei de holofotes, mas agora vou usá-los para ajudar outras mulheres. Deus me deu essa missão”, disse, ao lado de colegas que lhe estenderam as mãos no processo de recuperação. Sua trajetória mostra que resistência é possível, mas também que não pode ser individual.

O Brasil continua falhando em proteger suas mulheres porque, apesar de leis, campanhas e discursos, a rede de atendimento é frágil, os recursos são escassos e a impunidade prevalece. O caso de Natal escancarou essas falhas diante das câmeras. A pergunta que ecoa no plenário, nas ruas e nas casas é a mesma: até quando? O futuro dependerá da capacidade de sociedade e poder público em transformar indignação em ação concreta. Porque, como lembrou uma das falas mais aplaudidas do dia, “nada justifica a violência contra a mulher. E nada, absolutamente nada, pode mais ser tolerado”.