A inteligência artificial começou a ocupar espaço nos tratamentos de fertilização assistida no Brasil e já é utilizada em diferentes etapas da reprodução humana para auxiliar médicos e embriologistas na análise de óvulos, espermatozoides e embriões. O objetivo é aumentar a precisão dos procedimentos, reduzir o número de tentativas frustradas e diminuir o tempo necessário até a gravidez.
A tecnologia vem sendo incorporada principalmente em clínicas de fertilização in vitro (FIV), onde softwares analisam imagens e informações biológicas a partir de padrões matemáticos para indicar quais estruturas apresentam maior potencial de desenvolvimento. Apesar do avanço tecnológico, especialistas afirmam que os sistemas não substituem o trabalho humano e continuam sendo utilizados apenas como apoio às decisões tomadas pelas equipes médicas.

A advogada Suellen Prado Vecchi, de 39 anos, passou por quatro ciclos de fertilização in vitro até conseguir engravidar do primeiro filho. Segundo ela, foram diferentes tentativas envolvendo transferências de embriões ao longo de quase dez meses de tratamento. Na segunda gestação, porém, o processo foi mais rápido. Em quatro meses, com duas tentativas e apenas uma transferência, ela conseguiu engravidar novamente. Hoje, os filhos da advogada têm dois anos e quatro meses.
Segundo especialistas, a redução do tempo e do número de tentativas frustradas está diretamente relacionada ao uso da inteligência artificial em algumas etapas do tratamento. Ferramentas desse tipo já são empregadas em diferentes clínicas brasileiras para avaliar o potencial reprodutivo dos óvulos, a qualidade dos espermatozoides, a definição de doses hormonais e a escolha do melhor embrião para transferência ao útero. A empresa paulista Future Fertility, por exemplo, desenvolveu um software voltado à avaliação do potencial reprodutivo feminino a partir de imagens de óvulos. A tecnologia já estaria presente em dezenas de clínicas brasileiras.
Outra empresa do setor, a FertGroup, afirma possuir mais de 15 unidades no País utilizando ferramentas de inteligência artificial em tratamentos de reprodução assistida. A Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA) também reconhece a expansão do uso dessas ferramentas em clínicas nacionais. Ainda assim, a entidade ressalta que a tecnologia atua como suporte e não substitui a experiência dos profissionais responsáveis pelos procedimentos.
Na prática, embriologistas experientes seguem realizando a seleção de óvulos, espermatozoides e embriões. A diferença é que, agora, sistemas conseguem identificar simetria, granularidade e outros padrões microscópicos por meio de modelos matemáticos comparativos.
O diretor médico nacional da FertGroup, Oscar Duarte, afirma que a inteligência artificial pode ser aplicada em diferentes fases do tratamento, incluindo estímulo ovariano, coleta de óvulos e espermatozoides, cultivo embrionário e transferência para o útero. “Hoje a gente tem recursos de IA em todas essas fases”, afirmou.
Segundo ele, uma das primeiras aplicações ocorre ainda na definição das doses hormonais utilizadas na estimulação ovariana. Na sequência, a tecnologia ajuda a selecionar os óvulos com maior potencial reprodutivo a partir de modelos matemáticos comparativos.
Depois da fecundação, a análise se volta para os embriões produzidos em laboratório. Em alguns casos, os embriões permanecem armazenados em incubadoras equipadas com câmeras capazes de registrar imagens contínuas do desenvolvimento embrionário.
Os sistemas fazem fotografias em intervalos regulares, permitindo acompanhamento permanente sem necessidade de retirada do embrião da incubadora. As imagens são então avaliadas pela inteligência artificial, que identifica padrões associados a maiores taxas de sucesso. “Eu recebia fotinhas todos os dias dos embriões e conseguia acompanhar a evolução por celular”, contou Suellen.
Segundo especialistas, esse monitoramento contínuo produz grande quantidade de dados sobre o desenvolvimento embrionário. A inteligência artificial cruza essas informações e gera classificações sobre o potencial de implantação e evolução gestacional de cada embrião.
Mesmo com os avanços, o custo ainda aparece como uma das barreiras para ampliar o acesso às tecnologias. De acordo com profissionais do setor, um procedimento de fertilização in vitro pode variar entre R$ 15 mil e R$ 45 mil, dependendo da clínica, da quantidade de medicamentos e da complexidade do caso. Os recursos de inteligência artificial podem acrescentar cerca de R$ 1,5 mil a R$ 2 mil ao valor total do tratamento.
Hoje, planos de saúde não cobrem procedimentos de reprodução assistida, o que faz com que os custos sejam pagos diretamente pelos pacientes. Em algumas situações, principalmente entre pacientes oncológicos que precisam congelar óvulos ou espermatozoides antes do início do tratamento contra o câncer, é possível buscar reembolso judicial das despesas.
Foi justamente durante a tentativa de engravidar do segundo filho que Suellen utilizou um sistema de monitoramento embrionário com inteligência artificial. A tecnologia analisava imagens captadas pelas câmeras instaladas na incubadora e indicava os embriões com maiores probabilidades de sucesso. Ao tentar engravidar novamente no fim de 2025, após perdas gestacionais anteriores e resultados negativos com fertilização, a advogada recorreu à ferramenta Embryoscope. Segundo ela, o uso da tecnologia contribuiu para reduzir o tempo até a nova gravidez.
A inteligência artificial utilizada nesses sistemas funciona a partir de bancos de imagens e dados obtidos em milhares de tratamentos realizados anteriormente. O software compara padrões e identifica características relacionadas ao potencial de implantação, risco de aborto e chances de evolução da gravidez.
Para o diretor científico da SBRA e diretor médico da clínica Fertipraxis, Renato Antunes, a tecnologia amplia a precisão das análises laboratoriais, mas não elimina a necessidade da avaliação médica. “Medicina é uma área em que não podemos simplesmente aceitar que algo é melhor porque usa inteligência artificial. São tecnologias extremamente promissoras, mas não resolvem todos os problemas”, afirmou.
Segundo ele, os sistemas ajudam a identificar padrões difíceis de serem percebidos a olho nu, mas a interpretação final continua sendo responsabilidade dos profissionais envolvidos no tratamento. A fertilização in vitro segue dependendo de fatores como idade da paciente e qualidade genética.