O psiquiatra potiguar Francisco das Chagas Rodrigues, conhecido como Dr. Rodrigues, acredita que a compreensão integral do ser humano — mente, corpo e espírito — é essencial para o tratamento da saúde mental. Em entrevista à TV Agora RN nesta sexta-feira 31, ele defendeu a necessidade de integrar ciência e espiritualidade na prática médica e relatou a trajetória que o levou da vida acadêmica e política à atuação comunitária e espiritual.
“Tem uma ligação muito forte”, afirmou o psiquiatra ao comentar a relação entre espiritualidade e evolução dos quadros psiquiátricos. Para ele, compreender o sofrimento humano exige enxergar o corpo apenas como um “veículo de comunicação”, enquanto a consciência seria a verdadeira essência da vida. “Daqui a pouco, nós não teremos mais esse corpo, mas a consciência permanece viva. Ela não morre com a morte”, disse.

Professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Dr. Rodrigues leciona a disciplina optativa “Medicina, Saúde e Espiritualidade”. A matéria reúne exemplos de como diferentes religiões e filosofias de vida lidam com o sofrimento humano. “Mostramos para os alunos que existem várias formas de trabalhar a saúde e a espiritualidade no mundo todo”, explicou.
A defesa dessa abordagem, segundo ele, vem da própria observação clínica e do fato de ele seguir a doutrina espírita. Para ele, desequilíbrios emocionais e doenças podem ter origem em condutas morais equivocadas, nesta ou em vidas passadas. “O que você plantar aqui, de forma correta ou incorreta, vai receber os frutos. E esses frutos vão vir depois como doenças que a pessoa pode trazer, como alucinação, delírio, demência ou doenças físicas.”
Formado pela UFRN, Dr. Rodrigues é doutor pela Escola Paulista de Medicina (Unifesp), onde iniciou seus estudos em psicofarmacologia. “Trabalhava com animais, com ratos camundongos, vendo os testes dos medicamentos, trabalhando com lítio para mostrar o efeito dele na saúde”, lembrou. Sua trajetória acadêmica o levou ao magistério, ministrando aulas de fisiologia em diversos cursos da universidade.
O interesse pela comunidade surgiu ainda nos anos 1980, quando atuou como médico em um posto de saúde do Conjunto Santa Catarina, em Natal. “Eu percebia que o trabalho que eu fazia era insuficiente para tanta dificuldade que o pessoal tinha com relação à sobrevivência: trabalho, exploração, miséria”, recordou. A partir dessa vivência, ele passou a se engajar em ações sociais e a enxergar a medicina como instrumento de transformação coletiva. “Percebi que somente o trabalho médico não iria resolver essas questões. É preciso se envolver com a comunidade”, resumiu.
Hoje, o psiquiatra mantém esse compromisso por meio de ações voluntárias na Praia do Meio, em Natal, onde desenvolve atividades espirituais e comunitárias com base nos princípios cristãos. “A gente faz esse trabalho levando para a comunidade esses princípios, fazendo o bem sem esperar deles nada de recompensa — nem dinheiro, nem voto, nem nada. Fazendo porque eles precisam de ajuda”, afirmou.

O médico vê essas iniciativas como antídoto ao egoísmo e ao materialismo crescentes na sociedade. “O egoísmo fala mais alto”, alertou, destacando que muitos dos males mentais da atualidade nascem da competição e do isolamento. “Nós estamos percebendo uma grande afronta à nossa qualidade de vida nesse contexto atual. A sociedade vive um progresso materialista, e o mais importante é o progresso espiritual”, avaliou. Para ele, a saúde mental não depende apenas de medicamentos ou terapias tradicionais, mas de uma reorganização ética e moral do modo de viver.
Com mais de quatro décadas de carreira, Dr. Rodrigues observa que as doenças mentais se tornaram mais frequentes e complexas. “A sociedade está mais adoecida”, disse. Ele relaciona o fenômeno à rotina urbana acelerada, ao excesso de telas e à desconexão espiritual das pessoas.
Para o psiquiatra, o desafio contemporâneo é equilibrar o avanço da tecnologia com valores humanos. “O crescimento material é isso: tecnologia e ciência. Mas o crescimento e a evolução espiritual são morais e éticos. Onde está a moral? Onde está a ética da vida com a gente, com os próximos?”, questionou.
Medicina, tecnologia e limites da ciência
Embora reconheça o papel dos medicamentos e das descobertas científicas, Dr. Rodrigues alerta que a ciência sozinha não basta. “O que existe são alternativas que podem até ajudar. Por exemplo, a psicofarmacologia é a minha área. Esses medicamentos são produzidos e colocados no mercado, cada vez mais potentes e eficazes. Mas são caros, e nem todos podem comprar”, explicou. Ele vê a medicina moderna como um campo que precisa recuperar a dimensão humanista e ética.
Segundo o psiquiatra, o avanço tecnológico deve vir acompanhado de reflexão sobre valores e propósito. “Todos estamos evoluindo, tanto do ponto de vista material quanto espiritual. Mas o progresso moral e ético está ficando para trás”, avaliou.
Acolhimento e solidariedade
Dr. Rodrigues afirma que a espiritualidade, quando bem compreendida, amplia a empatia do profissional de saúde e o compromisso com o próximo. “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Se nós fizermos isso, estamos irmanados. Não importa a religião que a gente esteja”, citou. Essa visão o inspira a desenvolver novos projetos, como uma iniciativa voltada ao apoio de mulheres em situação de vulnerabilidade. “Estou entrando em contato com prostitutas e vou até nos bares e boates convidá-las para ver se fazemos um trabalho que lhes mostre um caminho fora desse trabalho tão árduo, que elas estão com falta de dignidade”, revelou.
Ele reconhece que o projeto enfrenta preconceitos, mas insiste em seguir. “Posso até ser discriminado: ‘poxa, o doutor entrando num cabaré para falar com as prostitutas’. Mas é isso mesmo. Quero fazer o bem a elas sem esperar recompensa”, afirmou.
Cristianismo e missão de vida
A doutrina espírita, segundo o psiquiatra, o ajudou a compreender melhor a dimensão espiritual da vida e o sentido da profissão médica. Ele vê em Cristo um modelo de transformação e liderança ética: “Jesus transformou o mundo com doze pessoas simples. A lição dele é de irmanar todos, como filhos de Deus, para crescermos juntos.”
Para o médico, a coerência entre fé e prática é o que define a verdadeira espiritualidade. “A justiça vai se cumprir quando esse cara voltar para cá e está lá sofrendo o que fez aos outros. A vida real é no mundo espiritual, não é aqui”, reforçou.
Dr. Rodrigues acredita que o futuro da medicina caminha para a interdisciplinaridade e a humanização. “Nós podemos fazer alguma coisa no Brasil com o pensamento cristão. Quem quiser se recuperar pode vir, pode ser um marginal, pode ser um bandido, desde que se arrependa e procure mudar a vida”, declarou.
Na próxima semana, o psiquiatra participará do Congresso Brasileiro de Psiquiatria, no Rio de Janeiro, onde apresentará o trabalho que desenvolve na comunidade com base na espiritualidade. “O foco é mostrar que podemos fazer algo concreto na saúde mental, com acolhimento e transformação, assim como Paulo se transformou de perseguidor em apóstolo”, contou.
Ao final da entrevista, o médico resumiu seu propósito: unir conhecimento científico e sabedoria espiritual para devolver dignidade às pessoas. “Nós temos que trabalhar de forma honesta, seguindo a principal lição que Ele nos deu: amar o próximo como a si mesmo. Essa é a essência da saúde mental verdadeira.”