O presidente nacional do PT, Edinho Silva, acusou nesta quarta-feira o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) de reproduzir a estratégia usada por Jair Bolsonaro nas eleições de 2022 para levantar suspeitas sobre o sistema eleitoral brasileiro. O dirigente afirmou que o partido estuda medidas judiciais contra Flávio, enquanto a pré-campanha do senador negou ter colocado em dúvida a integridade das eleições.
A controvérsia começou depois de Flávio se reunir com representantes de embaixadas e organismos internacionais. Durante o encontro, o senador afirmou que muitas urnas eletrônicas utilizadas no Brasil teriam sido fabricadas pela empresa Smartmatic, relacionou a companhia ao sistema eleitoral da Venezuela e mencionou uma suposta investigação realizada nos Estados Unidos.

As declarações provocaram reação do PT e reforçaram, entre dirigentes do Centrão, a percepção de que Flávio está retomando a retórica adotada pelo pai. Desde o lançamento da pré-candidatura, em dezembro do ano passado, a equipe do senador vinha tentando apresentar um perfil mais moderado e aberto ao diálogo institucional.
“Flávio Bolsonaro prova que tem a mesma cultura golpista do pai, Jair Bolsonaro, e adota os mesmos métodos utilizados nas eleições de 22. O senador reuniu diplomatas internacionais para questionar as urnas eletrônicas e, por consequência, o sistema eleitoral brasileiro, pelo qual ele foi eleito parlamentar por diversas vezes, bem como seus familiares”, afirmou Edinho Silva em nota.
O presidente do PT relacionou o episódio às iniciativas de Jair Bolsonaro para desacreditar o processo eleitoral e aos acontecimentos que culminaram nos atos de 8 de janeiro de 2023.
“Sabemos quais são as consequências dessa ofensiva antidemocrática. Como provado na investigação e, posteriormente, no julgamento da tentativa de golpe de janeiro de 23, tentar descredibilizar as urnas é método contra a nossa democracia. E o resultado pode ser gravíssimo, como a história recente demonstrou”, declarou.
Edinho acrescentou que “não se pode tolerar a desinformação e as fake news contra o sistema de votação por um pré-candidato à Presidência da República”. Segundo ele, a direção do PT analisa quais providências poderá adotar na Justiça.
Na manifestação, o partido afirmou que permanecerá “ao lado da democracia e em defesa das urnas eletrônicas e do sistema eleitoral brasileiro, em respeito aos 158 milhões de eleitores”.
As alegações relacionadas à Smartmatic já haviam sido contestadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A Corte informou anteriormente que a empresa não fornece urnas eletrônicas ao Brasil e não participa do desenvolvimento dos programas utilizados no processo eleitoral. De acordo com o tribunal, o projeto, a fabricação e a gestão do sistema eletrônico de votação são conduzidos integralmente pela Justiça Eleitoral.
Campanha nega questionamento
Depois da repercussão, a pré-campanha de Flávio divulgou uma nota negando que o senador tenha questionado a segurança ou a integridade do sistema eleitoral. O documento foi assinado pelo pré-candidato; pelo senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador-geral da campanha; e por Maria Claudia Bucchianeri, responsável pela coordenação jurídica.
Segundo o texto, Flávio “se limitou a relatar dois fatos públicos e amplamente divulgados pela imprensa” durante a conversa com os representantes internacionais. A nota não impediu, porém, que o episódio produzisse novas resistências entre os partidos com os quais o PL tenta construir uma aliança nacional.
Reservadamente, dirigentes de União Brasil, PP e Republicanos avaliam que a declaração aproximou Flávio da retórica de Jair Bolsonaro e o afastou do perfil pragmático apresentado no começo da pré-campanha. A moderação era considerada pelo Centrão uma condição importante para apoiar a candidatura.
Quando Flávio foi escolhido para disputar o Palácio do Planalto, sua equipe passou a trabalhar na construção de uma identidade própria. A estratégia era preservar as principais bandeiras do bolsonarismo, mas apresentar um candidato menos confrontador e com maior capacidade de diálogo com outras forças políticas.
Nos bastidores, aliados chegaram a descrevê-lo como um Bolsonaro mais moderado, capaz de defender o legado do pai sem repetir os confrontos institucionais que dificultaram a formação de alianças durante o governo anterior.
Esse esforço também apareceu na postura pública de Flávio nos primeiros meses da pré-campanha. O senador reduziu o tom das críticas ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ao ministro Alexandre de Moraes, priorizou a apresentação de propostas e evitou reproduzir parte dos embates protagonizados pelo pai contra o Judiciário.
A expectativa era que o perfil mais conciliador facilitasse as negociações com os partidos do Centrão, considerados importantes para ampliar o tempo de propaganda na televisão. A mesma estratégia buscava conquistar eleitores independentes, vistos pela campanha como decisivos para o resultado da eleição de outubro.
Com a nova controvérsia envolvendo as urnas eletrônicas, integrantes dessas legendas voltaram a questionar se Flávio conseguirá sustentar o discurso moderado e se distanciar dos conflitos que marcaram a trajetória política de Jair Bolsonaro.