A segurança pública e a defesa da soberania nacional dominaram o primeiro dia oficial da campanha presidencial, neste domingo 16. Líderes das pesquisas, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) concentraram os discursos nesses dois temas — cada um avançando sobre a agenda tradicionalmente identificada com o adversário.
O movimento tem explicação numérica. Na véspera, a Quaest divulgou levantamento que apontou Lula com 43% e Flávio Bolsonaro com 40% em cenário de segundo turno, diferença estreita que empurra as duas campanhas para o terreno em que são mais vulneráveis.

Detalhe que resume o clima da largada: entre os cinco principais candidatos, três discursaram usando coletes à prova de bala — Flávio, Ronaldo Caiado (PSD) e Renan Santos (Missão).
Lula volta ao ABC e fala de facção
Na tentativa de conquistar o quarto mandato, Lula iniciou a campanha no ABC paulista, onde construiu a trajetória sindical. O ato ocorreu no Estádio 1º de Maio, em São Bernardo do Campo, cenário das grandes manifestações trabalhistas que ele convocou durante a ditadura. Imagens em preto e branco das greves lideradas pelo então metalúrgico foram exibidas no telão. “É inesquecível o que vivi aqui”, resumiu.
O presidente dedicou parte do discurso de quase 40 minutos à segurança pública, tema historicamente sensível para a esquerda e apontado por pesquisas recentes como a principal preocupação dos brasileiros. Afirmou ser “fácil matar um bandido numa favela” e defendeu que o combate alcance o topo das organizações criminosas.
“Agora, o cara que manda está no apartamento de cobertura. O cara que manda está morando no condomínio, e precisamos acabar com eles para poder acabar com o debaixo. Nós vamos trabalhar duro”, declarou.
Ele voltou a condicionar a criação do Ministério da Segurança Pública à aprovação da proposta de emenda à Constituição que tramita no Congresso. “É para dividir responsabilidades com os estados e libertar o povo, prendendo todo mundo que acha que é dono de uma favela ou de um bairro pobre”, acrescentou.
O segundo eixo foi a soberania, marcado por bandeiras brasileiras no estádio após os sucessivos embates com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Lula citou os minerais críticos para afirmar que o País não precisa optar “pela China” nem “pelos Estados Unidos”.
“Não queremos exportar o mineral bruto para depois comprar as coisas prontas. Nós é que vamos explorar em benefício do povo brasileiro”, disse.
A cerimônia recorreu a símbolos históricos: Fafá de Belém interpretou o hino nacional, apresentada como “a voz das Diretas Já”. Após críticas à ausência de discursos femininos na convenção do PT, a abertura ficou a cargo de Benedita da Silva, candidata ao Senado pelo Rio de Janeiro, e da primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, que homenageou Marisa Letícia, morta em 2017. O vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) e o ex-ministro Fernando Haddad, candidato ao Governo de São Paulo, também tiveram destaque.
Flávio escolhe Copacabana e se oferece a Washington
Em Copacabana, Flávio Bolsonaro explorou a violência urbana e a relação com os Estados Unidos. Pressionado pela associação do bolsonarismo ao aumento de tarifas contra produtos brasileiros, o senador disse ser “o único que pode sentar com os Estados Unidos” para negociar. Também apoiou a classificação do Comando Vermelho e do Primeiro Comando da Capital como organizações terroristas — medida adotada pelos EUA e contestada pelo governo brasileiro.
Segundo ele, “o atual governo briga com países que estão a 10 mil quilômetros”, mas “não briga com o ladrão vizinho, traficante, estuprador, assaltante e assassino”. “Nós perdemos a soberania. Não temos mais soberania sobre nosso celular, nosso carro, sua bolsa, nossa casa”, declarou.
O senador acusou o petista de deixar um “legado de incompetência e corrupção”. Ao apresentar o candidato a vice, o deputado federal Alfredo Gaspar (PL), destacou a atuação do aliado na CPMI do INSS e afirmou que ele virou alvo de denúncias porque “pediu a prisão de Lulinha”. O filho do presidente é investigado pela Polícia Federal em inquéritos derivados da atuação do empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS; Gaspar, por sua vez, foi envolvido em um caso de suposto estupro de vulnerável. Os dois negam irregularidades.
O ato reforçou a identificação com o pai. Flávio repetiu o lema “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” e conduziu um coro de “Volta, Bolsonaro”. Desta vez, em lugar de conteúdo produzido por inteligência artificial — recurso que gerara questionamentos na Justiça Eleitoral quando usado na convenção do PL —, foram exibidos discursos antigos do ex-presidente.
“Bolsonaro nunca foi ameaça para a democracia. Pelo contrário. Nós somos o último obstáculo para que esse país não virasse uma ditadura”, afirmou. O senador disse ter “aceitado a missão” de ocupar o lugar do pai, que cumpre prisão domiciliar humanitária após a condenação no caso da trama golpista. “É difícil comparar o filho do Pelé com o Pelé, mas estou aqui com toda a humildade”, completou.
As ausências que contam
Apesar das recentes pazes no grupo político, nomes relevantes do bolsonarismo não participaram do evento: a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG). O pastor Silas Malafaia enviou um áudio curto, reproduzido para o público. Candidato ao Governo do Rio, Douglas Ruas (PL) discursou, mas teve espaço reduzido.
A largada foi noticiada originalmente por O Correio de Hoje, em reportagem sobre os temas que dominaram o primeiro dia oficial de campanha.