O ex-prefeito de Natal e candidato ao Governo do Rio Grande do Norte Álvaro Dias (PL) nega superfaturamento na compra de 20 respiradores por R$ 2,16 milhões durante sua gestão. Em manifestações públicas, atribuiu os preços à escassez de equipamentos na pandemia, defendeu a atuação do então secretário municipal de Saúde, George Antunes, e citou a decisão que rejeitou os pedidos de improbidade administrativa relacionados ao caso.
Álvaro não é réu na ação criminal da Operação Rebotalho. O processo tem como acusados o ex-secretário adjunto Vinícius Capuxu de Medeiros e o empresário Wender de Sá, responsável pela fornecedora Spectrum. A ação penal continua, enquanto o resultado da ação de improbidade está sob recurso no Tribunal Regional Federal da 5ª Região.

Em entrevista à Inter TV Cabugi, em 14 de setembro de 2026, Álvaro rejeitou as suspeitas:
“Eu garanto que não houve nenhum problema de desvio de medicamento, de desvio de equipamento, de superfaturamento”Álvaro Dias, em entrevista à Inter TV Cabugi, em 14/09/2026
Na mesma entrevista, sustentou que a urgência de atender pacientes precisava ser considerada na avaliação da compra. Ao ser questionado sobre o destino dos aparelhos depois da pandemia, afirmou não ter informações detalhadas e indicou George como a pessoa que poderia esclarecer o assunto. Também declarou confiar na atuação do ex-secretário.
A justificativa dos preços já havia aparecido em agosto. Em entrevista ao programa Meio-Dia TCM, da 95 FM de Mossoró, Álvaro recorreu à “lei da oferta e da procura” para explicar a elevação dos valores naquele período.
Na ocasião, afirmou acreditar que a discussão judicial estava encerrada: “Eu acho que esse processo já foi concluído, se não me engano”. O andamento consultado mostra, porém, que a ação criminal permanece em tramitação.
Em nota divulgada em 20 de agosto, as assessorias jurídica e de comunicação do ex-prefeito questionaram a metodologia da estimativa de prejuízo. A manifestação argumentou que anúncios de equipamentos não permitiriam comparações automáticas sem avaliar condições técnicas, conservação e possibilidade de entrega imediata.
A nota também contestou a associação de Álvaro às acusações, destacando que ele não responde criminalmente.
A acusação do Ministério Público Federal (MPF) estimou prejuízo de pelo menos R$ 1.433.340. Para sustentá-lo, reuniu pesquisas de preços, referências de outras compras e informações sobre as condições dos aparelhos. O montante é uma estimativa da acusação, contestada pelas defesas.
A discussão não se limita ao preço. O MPF apontou equipamentos antigos, problemas de funcionamento, números de série adulterados e a devolução de cinco aparelhos pelo Hospital Municipal de Natal. Essas são alegações da investigação, cuja responsabilização foi discutida em processos distintos.
A assessoria de Álvaro afirmou que os respiradores foram efetivamente utilizados e citou o depoimento de um engenheiro clínico para rejeitar a classificação de sucata. Sustentou que parte das dificuldades estava relacionada à estrutura do hospital, incluindo a rede de gases.
Sobre a vistoria, a nota declarou que o então prefeito determinou a verificação dos equipamentos antes da conclusão do negócio, citando o relato de George como fundamento.
A defesa pública da compra começou ainda em 2021. Em coletiva concedida em 1º de julho, dia da operação, George disse que esteve na fornecedora e acompanhou os testes dos aparelhos.
“Os equipamentos estavam em perfeitas condições de serem usados, tanto que até hoje eles estão em uso, salvando vidas”, declarou. A expressão “até hoje” se referia à situação que ele afirmava existir em julho de 2021.

A ação de improbidade teve os pedidos rejeitados em 30 de agosto de 2025. Ao manter esse resultado em fevereiro de 2026, a Justiça destacou o contexto de calamidade e afastou o dolo específico necessário à responsabilização.
O escritório Guilherme Mota Advogados, que atua na defesa de Wender e das empresas, também publicou sua interpretação do julgamento. Sustentou que decisões tomadas sob pressão para garantir atendimento não deveriam ser confundidas com improbidade e ressaltou a exigência de demonstrar intenção ilícita.
A decisão favorável na esfera cível é, portanto, um resultado judicial concreto citado pelas defesas. Há, contudo, recurso do MPF pendente no TRF5. Separadamente, a ação penal continua e passou por exclusões de provas determinadas pela Justiça.
As manifestações de Álvaro reunidas nesta reportagem são anteriores às publicações de 24 de setembro do Agora RN que detalharam a ligação de George. Nessa conversa, de julho de 2021, o ex-secretário mencionou a confiança do prefeito e de seu filho no adjunto e levantou uma hipótese de envolvimento, sem apresentar elementos que a comprovassem.
O próprio George ressalvou que não sabia se havia dificuldade real para comprar equipamentos ou algum interesse escuso. A Justiça determinou a exclusão das interceptações, e o conteúdo da ligação não constitui uma conclusão judicial sobre a responsabilidade dos mencionados.
Nas manifestações públicas localizadas para esta reportagem, não foi encontrada uma resposta específica de Álvaro à passagem em que George menciona o prefeito e seu filho. As declarações anteriores registram sua defesa da contratação e precisam ser identificadas pelas respectivas datas.
Esta reportagem reúne manifestações públicas e datadas. A apuração não incluiu nova entrevista ou envio de perguntas às partes.