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Cultura

Bar em Natal passa a receber exposições e amplia experiência cultural

Sussurro estreia mostra “Deus me perdoe” e propõe encontro entre arte, música e cotidiano
Por Belita Lira, O Correio de Hoje
02/04/2026 | 14:46

Nem em todo mundo entra em um bar esperando sair com uma reflexão. No Sussurro, em Ponta Negra, essa possibilidade começa a fazer parte da experiência. Conhecido pelos drinks autorais e pela trilha sonora que muda a cada noite, o espaço agora amplia seu propósito e passa a dialogar também com as artes visuais.

Instalado na rua Cabo de São Roque, 8821, o bar criado por Olavo César Cassiano Ataíde incorpora a partir desta sexta-feira 3 uma nova camada ao seu funcionamento: torna-se também palco de exposições. A estreia fica por conta de “Deus me perdoe”, mostra do artista Aevi Dantas que propõe um olhar irônico e imersivo sobre a presença de símbolos religiosos no cotidiano.

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Exposição ocupa bar e propõe reflexão - Foto: Reprodução

A trajetória de Aevi ajuda a entender o tom da exposição. “Quando comecei, minha pintura se resumia a retratos de cenas cotidianas, sem muita edição, apenas um olhar. Paisagens da infância, memórias familiares, essas coisas. Hoje já consigo enxergar a pintura como uma ferramenta de traduzir ideias de forma não linear, e, quando a pintura não é suficiente, venho tentando explorar outras técnicas para concretizar a ideia. Sinto que atualmente minhas obras trazem um pouco mais da minha personalidade, não só visual, mas de narrativa e construção”, conta o artista designer gráfico e de moda.

O cotidiano segue como matéria-prima central. “Gosto de retratar imagens do cotidiano, representações que vão ser percebidas e entendidas por muita gente. Gosto que as pessoas se sintam pertencentes às obras, mesmo sem ser pelos motivos pelos quais eu a concebi”, afirma.

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Aevi Dantas leva à exposição “Deus me perdoe” olhar irônico sobre símbolos religiosos – Foto: Mylena Sousa

Em “Deus me perdoe”, no entanto, esse olhar ganha um recorte específico. A exposição nasce de uma observação persistente sobre a presença de símbolos religiosos no dia a dia — especialmente aqueles ligados ao cristianismo popular.

“Para essa exposição, em específico, seria uma reflexão usando a ironia e o humor como ferramenta. Eu cresci no interior de Alagoas, e o catolicismo sempre teve uma forte presença na minha infância. Ano passado comecei a refletir como esses símbolos, imagens e ditados nos acompanham todos os momentos, mesmo que eu já não tenha mais tanta conexão com o cristianismo. É como se não desse pra andar 500 metros na rua e não ver um versículo adesivado num carro, um calendário com o Sagrado Coração de Jesus ou alguém soltando um ‘graças a Deus’.”

A partir dessa percepção, veio o impulso de documentar e reorganizar esses elementos. “Depois disso comecei a fotografar e documentar tudo que via e fazia conexões: pano de prato, tatuagem, imagens, carros, roupa e afins. A mensagem é justamente essa, trazer essa sensação de imersão em algumas dessas referências que foram me impactando”, conta.

A escolha do Sussurro como espaço expositivo não é casual. “Olavo (dono do Sussurro) tinha comentado algo sobre uma exposição antes do bar abrir. Achei a ideia legal, até porque o bar tem um pouco essa cara de galeria, com uma coleção de obras de vários artistas e com técnicas e estéticas completamente diferentes. No começo do ano tive essa ideia de fazer uma exposição com essa temática cristã, durante a Semana Santa, eu falei com ele, que topou de imediato.”

Para o artista, o deslocamento da arte para fora das galerias tradicionais também muda a forma como ela é recebida. “Eu comecei há pouquíssimo tempo, nunca expus numa galeria tradicional e também não tenho grandes experiências com exposição. Mas eu sinto que, como minha arte, estar exposto num bar facilita o acesso e faz com que muitas pessoas sejam impactadas sem nem mesmo se dar ao trabalho de procurar.”

Essa lógica do encontro inesperado é, justamente, parte da proposta. “É uma vitrine para pessoas que nem procurariam por uma exposição serem impactadas. Gosto desse elemento surpresa e acho que super se conecta com a proposta do bar.”, conta.

A reação do público, segundo ele, deve seguir o mesmo tom da obra. “As obras são bem-humoradas, irônicas e com símbolos que todo mundo conhece. Acredito que a reação seja exatamente essa, leve e bem-humorada.” Mas há também uma camada mais profunda. “Uma reflexão sobre o que é fé e o que é produto. Se é repetir dialetos e reproduzir símbolos, ou se aprofundar nos valores.”

Do outro lado do balcão, Olavo César vê na iniciativa uma extensão natural do conceito do Sussurro. “O motivo de como surgiu a ideia de receber as exposições está bem atrelado à ideia original do bar. Eu quero que ele seja um lugar também para isso. E, para mim, essa exposição é bem importante para ser uma vitrine.”

A ambição vai além de eventos pontuais. “Eu quero que o Sussurro seja um lugar para lançamento de livro, para lançamento de exposição, para encontro de clube do livro […] Eu quero que lá seja um reduto para esse tipo de encontro, principalmente coisas que têm a ver com grupos e arte”, conta.

A estrutura do bar já foi pensada com esse objetivo. “Lá no bar, a parte das paredes é tudo muito branca e a gente tem decoração […] para mim, é uma ideia desde o começo da criação do bar, que é que ele seja um pouco neutro para receber esse tipo de coisa.”

Mais do que abrir espaço, a proposta envolve facilitar o acesso. “Eu quero facilitar a vida dos artistas, eu acho que existe todo um universo de dificuldades em torno disso. Então, a parceria, nesse caso, tem a ver com a oferta de espaço e com a comunicação.”

Neste momento, a aposta não está no retorno financeiro imediato. “Eu realmente não quero ganhar em cima da arte, eu quero que o espaço passe a ser conhecido por causa disso também. É o mais importante para mim nesse momento”, conclui Olavo.

No fim, o movimento do Sussurro não é apenas sobre expor quadros nas paredes — é sobre reposicionar o lugar da arte no cotidiano. Ao sair do circuito tradicional e ocupar um ambiente de convivência espontânea, a obra deixa de exigir deslocamento e passa a acontecer no fluxo da vida.

Entre conversas, música e copos sobre a mesa, o público não precisa decidir consumir arte — ela simplesmente aparece, atravessa, provoca. E talvez seja exatamente nesse encontro despretensioso que reside sua força: quando a experiência estética deixa de ser evento e passa a ser presença.

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