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Mundo

Tensão no Estreito de Ormuz eleva custos logísticos e ameaça exportações brasileiras

A passagem marítima entre o Golfo de Omã e o Golfo Pérsico concentra uma das rotas mais importantes do comércio internacional
O Correio de Hoje
05/03/2026 | 16:37

A escalada das tensões no Oriente Médio e o controle reivindicado pelo Irã sobre o Estreito de Ormuz — com ameaças de bombardeio a embarcações — ampliam os riscos para o comércio global de energia e de outras commodities estratégicas. A passagem marítima entre o Golfo de Omã e o Golfo Pérsico concentra uma das rotas mais importantes do comércio internacional e também é fundamental para parte relevante das exportações brasileiras destinadas a países árabes.

Segundo a consultoria MTM Logix, especializada no monitoramento de embarques internacionais, cerca de 20% de todo o petróleo transportado no mundo passa pelo estreito. A região também concentra aproximadamente 25% do comércio global de fertilizantes e 35% das transações de químicos e plásticos. No caso dos grãos, cerca de 15% do volume comercializado globalmente tem como destino países do Golfo Pérsico e depende da travessia por Ormuz.

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Infográfico mostra o que passa de exportações brasileiras pelo estreito - Foto: reprodução

Para o Brasil, os impactos potenciais se concentram principalmente nas exportações de proteína animal e madeira. Levantamento da consultoria Datamar indica que, em 2025, cerca de 158,3 mil contêineres foram enviados do país para Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes Unidos, Irã, Iraque e Kuwait — todos países que margeiam o Golfo Pérsico e exigem que navios atravessem o estreito para chegar aos portos locais.

Do total embarcado, aproximadamente 67,9% eram cargas de proteína animal, sobretudo frango. Madeira respondeu por 13,4% dos contêineres e papel por 2,8%. O volume destinado a esses mercados representou 4,87% de toda a pauta de exportação marítima brasileira. Em alguns segmentos, no entanto, a dependência é maior: no caso da proteína animal, a fatia chegou a 14,8%, e alcançou 23,4% nas exportações de carne de frango.

“Em termos de carga conteinerizada, é muita coisa passando pelo Estreito de Ormuz”, afirma Andrew Lorimer, diretor-executivo da Datamar.

Segundo ele, um eventual bloqueio ou paralisação da passagem marítima representaria um choque logístico e energético de escala global, com reflexos ainda incertos sobre os preços do petróleo e do transporte marítimo. “Há muita incerteza. Já estamos observando aumentos no frete, com armadores cobrando taxas de guerra para qualquer exportação para esses destinos”, afirma. Os adicionais cobrados pelas companhias de navegação variam entre US$ 2 mil e US$ 4 mil por contêiner.

Lorimer acrescenta que, além do aumento de custos nas rotas que envolvem o Oriente Médio, o prolongamento das viagens pode gerar escassez de contêineres no mercado internacional.

A deterioração do cenário de segurança já provoca efeitos diretos na navegação. Desde o último sábado, quando houve intensificação do conflito militar na região, o tráfego de navios pelo estreito registrou queda acentuada. A gigante chinesa de transporte marítimo de petróleo Cosco anunciou a suspensão de operações destinadas a países do Golfo, incluindo Bahrein, Iraque, Catar e Kuwait, além de algumas áreas dos Emirados Árabes Unidos e da Arábia Saudita.

Com a medida, apenas portos fora do Golfo Pérsico — como Jidá, no Mar Vermelho, e os emiradenses Khor Fakkan e Fujairah, voltados para o Golfo de Omã — continuarão recebendo serviços sem necessidade de passagem por Ormuz.

A estatal chinesa se junta a outras grandes companhias de navegação que já haviam suspendido o tráfego na região, entre elas Maersk, CMA CGM e Hapag-Lloyd, diante do risco crescente para embarcações na área.

O impacto também alcança o setor de seguros marítimos. As corretoras Marsh e Aon informaram que negociam com o governo dos Estados Unidos um plano para garantir cobertura a navios-tanque que cruzam o estreito. O presidente Donald Trump afirmou que a US International Development Finance Corporation (DFC) poderá oferecer seguros a “preços razoáveis” para assegurar o fluxo de cargas na região.

A crise também se reflete no transporte aéreo. Desde o início dos combates, mais de 20 mil voos com destino a hubs do Oriente Médio foram cancelados. Das cerca de 36 mil operações programadas de ou para a região desde 28 de fevereiro, mais da metade não foi realizada.